Clayton de Souza/Estadão
Clayton de Souza/Estadão

Denunciado, Cunha nega intenção de retaliar Dilma, mas se manterá opositor

Mesmo após acusação contra ele ser enviada ao Supremo, presidente da Câmara reafirma disposição de permanecer no cargo e diz que não vai abrir mão de seus ‘direitos e deveres’

 , O Estado de S. Paulo

21 de agosto de 2015 | 11h32

Atualizado às 21h32

São Paulo - O presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (RJ), disse nesta sexta-feira, 21, que “não vai retaliar quem quer que seja”, mas também não vai abrir mão de seus “direitos e deveres” no cargo. Um dia após ser denunciado ao Supremo Tribunal Federal por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, o peemedebista participou de um evento da Força Sindical, em São Paulo, que se transformou em um ato de desagravo a ele. Cunha voltou a alegar inocência e reafirmou que não vai renunciar ao comando da Casa.

As declarações do peemedebista indicam que ele vai manter a postura hostil ao governo federal no Parlamento adotada desde quando assumiu o cargo – em fevereiro – e agravada após o rompimento formal com o Palácio do Planalto – no mês passado. 

No entorno da presidente Dilma Rousseff, embora a percepção seja de que a tese do impeachment ficou enfraquecida, acredita-se que o peemedebista já se movimenta para aceitar um dos pedidos de impedimento da petista protocolados na Câmara. Seria uma retaliação pela condição de acusado no escândalo da Lava Jato. 

Após apresentação da denúncia do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, ao STF por envolvimento no esquema de corrupção na Petrobrás, Cunha voltou a atribuir a decisão contra ele a uma articulação entre o Planalto, o PT e o chefe do Ministério Público Federal para incriminá-lo.

O presidente da Câmara foi recebido ontem no ato da Força com gritos de “Fora Dilma” e “olê, olê, vamos prender essa quadrilha do PT”.

Em seu discurso, Cunha afirmou que renúncia não faz parte de seu vocabulário. “Não há a menor possibilidade de eu não terminar meu mandato à frente da Câmara. Renúncia é um ato unilateral.” Ele também disse que não é do time “Fora Dilma”, nem do time de “dentro” – de apoio ao governo. “Não vou retaliar quem quer que seja, tampouco vou abrir mão dos meus direitos e deveres”, declarou. “O que está acontecendo é um processo que virou jurídico e esse jurídico vai ser resolvido juridicamente.”

O Supremo ainda vai decidir se acolhe ou não a acusação contra Cunha. O peemedebista classificou ontem de “muito estranho” o fato de a denúncia começar por ele e de ter ocorrido no dia de manifestações pró-governo pelo País. “É estranho que essa lama tem que ir para o colo de quem não participou, nós não vamos admitir isso”, disse.

O auditório em que foi realizado o evento, na região central da capital paulista, ficou lotado de sindicalistas. Alguns cartazes lembravam pautas aprovadas na Câmara na gestão do peemedebista, como o fim fator previdenciário, o aumento para aposentados, a PEC das domésticas e a correção do FGTS, entre outros. “Esses projetos não foram aprovados por mim, sou apenas o presidente. A Câmara aprovou por maioria e é assim que tem que ser”, disse Cunha, destacando a “independência” proporcionada à Casa com uma maioria agora “exercida e não controlada” pelo Executivo. 

‘Decantar’. O presidente da Câmara não preparou uma “pauta-bomba” para o plenário da próxima semana. Como principal item da pauta está um projeto que revisa os limites do Supersimples. A proposta, que foi discutida entre Cunha e o ministro Guilherme Afif Domingos nesta semana, modifica o Estatuto da Micro e Pequena Empresa e revê os valores para enquadramento no regime tributário do sistema de R$ 360 mil para R$ 900 mil (receita bruta por ano) para microempresas e de R$ 3,6 milhões para R$ 14,4 milhões (receita bruta por ano) para pequenas empresas.

A avaliação feita por aliados de Cunha é de que a próxima semana será de “decantar” os efeitos da denúncia e de muita conversa política. O objetivo é tomar o pulso da situação: saber se aliados do governo vão ingressar com um pedido de afastamento do presidente da Casa e se parte da oposição que defende o impeachment de Dilma se manterá alinhada com ele. “Se a denúncia implicasse que o dólar e o desemprego iriam cair imediatamente e a inflação diminuir, tudo bem”, afirmou o deputado Lúcio Vieira Lima (PMDB-BA), para quem o governo está interessado em jogar a crise política no Congresso. 

Líderes de oposição foram convocados pelo presidente do PSDB, senador Aécio Neves (MG), para uma reunião na próxima semana. O objetivo é traçar uma estratégia conjunta de ação no Congresso. Os oposicionistas se dividem entre os que querem aproveitar o momento para não deixar esfriar o movimento que prega o impeachment de Dilma e outros que defendem cautela. / ANA FERNANDES, RICARDO BRITO, ADRIANA FERNANDES e DAIENE CARDOSO

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