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Renúncia de Genoíno, um gesto político calculado

Passada a angústia da doença na prisão, de dramaticidade desfeita pelos laudos médicos da universidade de Brasília e da própria Câmara, e já em casa com a família, a renúncia de José Genoíno ao mandato parlamentar se apresenta como saída política calculada para ele e para o PT.

João Bosco Rabello, O Estado de S. Paulo

03 Dezembro 2013 | 19h21

O insucesso na obtenção imediata da aposentadoria por invalidez e o parecer do Procurador Geral por nova perícia em 90 dias, estendem a exposição negativa do caso e, por extensão, do mensalão, cujo desfecho tem a aprovação de mais de 70% dos eleitores petistas, segundo as pesquisas.

São as mesmas pesquisas que orientam o Planalto a manter distância do assunto e que moderaram a reação do ex-presidente Lula, provocando a cobrança por solidariedade política do seu ex-ministro José Dirceu. Cuja cassação, aliás, no curso de uma CPI, seguiu o mesmo princípio de reduzir os danos do mensalão para o partido.

O cálculo ficou claro na cronologia da crise no Legislativo. Frustrados com a negativa do presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), de adiar a decisão sobre a abertura de processo contra Genoíno, o PT tirou do bolso a carta de renúncia, abortando a prorrogação do assunto.

Se Alves deixasse a discussão sobre o processo para depois do recesso parlamentar, não só o assunto sairia de cena, como se manteria a perspectiva de obtenção da aposentadoria por invalidez no prazo estipulado pela área médica da Casa.

Mas, aberto o processo, a cassação ocuparia o cenário desde já para ter seu desfecho com a campanha formal já em curso. Quando a votação da mesa registrou 4 a 2 a favor da abertura do processo de cassação, o vice-presidente da Casa, André Vargas (PT-PR) sacou a carta do bolso e anunciou a renúncia.

A carta de Genoíno preserva o conteúdo que faz do agora ex-deputado e de seu partido, vítimas de um julgamento político, de uma conspiração das elites. Não há, portanto, novidade. O novo é a declaração de seu porta-voz, André Vargas, culpando o presidente da Câmara pelo desfecho.

O tom equivale a um juramento de morte política do PT ao PMDB ao atribuir a Alves mais severidade que o Ministério Público. "O MP deu mais 90 dias e a Câmara nem um a mais", registrou Vargas.

É de Vargas também a confirmação de que tudo obedeceu ao contexto eleitoral: "Está se confirmando que as decisões estão sendo tomadas mais com base na opinião pública do que com a análise efetiva dos casos".

O anúncio por Vargas indica que a decisão foi em conjunto - entre Genoíno e o PT -, e sua efetivação condicionada ao andamento da reunião da Mesa sobre a abertura ou não de processo de cassação.

Se não ameaça o exame do pedido de aposentadoria por invalidez de Genoíno - anterior ao desfecho de hoje -, a renúncia encerra também a discussão sobre os demais casos de cassação e determina a revisão imediata da preservação do mandato do deputado Natan Donadon (PMDB-RO).

Em tempo inferior ao estimado, a decisão do Supremo Tribunal Federal se impôs como determinante da perda imediata do mandato pelo parlamentar condenado em última instância.

O espírito corporativo, travestido de independência de Poder, sucumbiu à realidade ante a insustentabilidade do deputado-presidiário.

Aos casos que se seguem a Genoíno não haverá mais espaço à discussão, entre eles, o ex-presidente da Câmara, João Paulo Cunha (PT-SP), cuja sentença aguarda recurso parcial.

 

 

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