Renan volta, agora como ''tabelião''

Restabelecido, líder do PMDB é quem ?carimba? acordos no Senado

Christiane Samarco, BRASÍLIA, O Estadao de S.Paulo

22 de junho de 2009 | 00h00

Em seus bons tempos de poder, o senador Antonio Carlos Magalhães (1927-2007) dizia que reuniões sem a sua presença não tinham valor. Hoje, cabe ao líder do PMDB no Senado, Renan Calheiros (AL), o papel de tabelião chefe do Senado: seu "carimbo" é o que empresta validade aos acordos na Casa.Ao tentar escapar da chancela do peemedebista, o líder do PT, senador Aloizio Mercadante (SP), deu-se mal. A negociação conduzida pelo petista com os tucanos para acertar a divisão de poder na CPI da Petrobrás não passou das primeiras conversas de bastidor ao esbarrar no veto de Renan. Já o líder do governo no Senado, Romero Jucá (PMDB-RR), ensaiou uma manobra para assumir a relatoria da CPI e acabou descartado por Renan, que não o perdoou pelo ato de independência. Agora é o ex-presidente da República e presidente do Senado José Sarney (PMDB-AP) quem precisa do líder peemedebista - como nunca -, para sobreviver à crise dos atos secretos e do nepotismo cruzado que atingiu a família e os aliados.Renan é hoje o mais poderoso articulador e operador do Senado. Um político que fala cada vez menos em público e faz cada vez mais no bastidor. "Não há nenhum outro articulador como ele. Nem Sarney, nem o presidente da Câmara, Michel Temer, nem meu pai", atesta o senador Lobão Filho (PMDB-MA), incluindo na lista o ministro de Minas e Energia, o Edison Lobão pai. Na síntese de um "olheiro" do Palácio do Planalto, ele é também "o dono de um lote precioso de votos da base aliada", imprescindível a qualquer vitória do Planalto no Congresso. Para esse "olheiro", Renan só não é dono do PMDB porque "não tem a chave do cofre dos votos da convenção nacional", que decidirá as alianças na corrida sucessória de 2010 - propriedade controlada, não é de hoje, pelos deputados que comandam a bancada da Câmara. Recordista na velocidade de recuperação do prestígio político, voltando à cúpula do Congresso um ano depois de enfrentar dois processos de cassação que lhe custaram a presidência do Senado, Renan passou a ser reconhecido como "o homem mais forte da Casa". É o que dizem até velhos adversários de lutas partidárias, como o senador Pedro Simon (PMDB-RS). A ironia é que, no tamanho do líder peemedebista, que no momento supera até a figura de Sarney, mora sua fragilidade. A débâcle de Sarney enfraquece Renan e ameaça seu projeto de poder, que foi ancorado em um parceiro forte na presidência da Casa, em 2010.?FALSO ESCÂNDALO?Os processos de cassação, que ele chamou de "falso escândalo que a Nação estarrecida acompanha", foram por suspeita de quebra de decoro parlamentar. Ele admitiu publicamente uma relação extraconjugal com a jornalista Mônica Veloso, que lhe deu uma filha, mas documentos da jornalista revelaram fortes indícios de que um lobista da construtora Mendes Júnior pagava as despesas com a pensão e a moradia da menina. Vieram outras suspeitas - como uso de laranjas na compra de rádios e jornal, além de espionagem de senadores da oposição -, mas Renan sobreviveu.Superado o estarrecido, 11 em cada 10 senadores admitem que não se vota nada hoje no Senado sem o beneplácito do ressuscitado e fortalecido Renan. Mais do que isso: ele nunca entra numa disputa de poder na Casa para perder. Quando o governo foi derrotado pela oposição na prorrogação da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF), o imposto do cheque, Renan já não estava mais na cadeira de presidente, da qual abrira mão para manter o mandato com o apoio de 52 dos 81 senadores.A sua trajetória é recheada de embates. Para chegar ao comando do Congresso, Renan perdeu o primeiro confronto com Sarney, mas depois virou o jogo. Levou a melhor em uma queda de braço com o então poderoso ministro da Casa Civil, José Dirceu (PT), que não admitia vê-lo à frente do Congresso, e ainda ganhou o apoio do ex-adversário Sarney para se eleger presidente pela primeira vez, no ano de 2005. De quebra, fez do amigo e conterrâneo Aldo Rebelo (PC do B-SP) o presidente da Câmara.Nas disputas dos últimos seis meses, da sucessão do Congresso para cá, ganhou todas contra o PT e o PSDB. Garantiu os votos do PTB para Sarney e pagou o preço combinado: fez do senador Fernando Collor de Mello o presidente da Comissão de Infraestrutura do Senado, por onde passam todos os projetos do Plano de Aceleração do Crescimento (PAC), e do líder petebista Gim Argello (DF), um aliado e fiel seguidor. Para sustentar o cacife político no jogo sucessório do ano que vem, Renan contava com a perspectiva de reeleger Sarney no primeiro biênio do próximo governo, fosse quem fosse o presidente da República.DESAFIOSem os votos para ganhar uma convenção nacional e diante da crise que ameaça até encurtar o mandato atual de Sarney, no entanto, será difícil manter a força política do atual líder do PMDB frente ao Palácio do Planalto e à base aliada do governo no Congresso."Me atribuem um poder maior do que eu realmente tenho. Não tenho esse poder todo", diz Renan, que faz questão de repetir que "quem elegeu Sarney foi Sarney". A frase é a expressão de cordialidade com que trata adversários e aliados, sempre munido de paciência para ouvi-los. A história explica o empenho em manter a majestade de Sarney, no momento em que parlamentares e funcionários o apontam não só como o responsável pela eleição do presidente como o peemedebista que mais manda no Senado.Para Simon, o enredo lembra um filme semelhante protagonizado por Sarney, no início da Nova República.Nos primeiros tempos em que assumiu a Presidência no lugar de Tancredo Neves, Sarney foi assombrado pela figura do então presidente do PMDB, deputado Ulysses Guimarães (SP). Quando todos começaram a comentar que Ulysses mandava mais no governo que o próprio presidente, Sarney dava risada. "Mas no fim, acabou escanteando o doutor Ulysses", lembra Simon.Hoje, Sarney não acha graça das insinuações do poder de mando de Renan, e mais: já tratou de estabelecer um canal independente de conversa com o colega presidente da Câmara, Michel Temer (PMDB-SP), que, por sinal, o considera um interlocutor mais confiável do que Renan. Outra sequela da briga da sucessão do Senado, em que Temer responsabiliza o líder Renan pelas dificuldades que teve para fechar o apoio do PT à sua candidatura. FRASESRenan CalheirosLíder do PMDB no Senado"Não tenho esse poder todo"Lobão FilhoSenador"Não há nenhum outro articulador como ele"

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