Renan resiste a pressão e nega licença da presidência do Senado

Planalto quer que senador retribua ajuda com licença e facilite a tramitação da CPMF; petista seria substituto

ELDER OGLIARI, do Estadão,

13 de setembro de 2007 | 14h42

Um dia após ser absolvido da primeira acusação de quebra de decoro parlamentar, o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), deixou claro que vai permanecer do cargo, descartando a hipótese de uma licença, sugerida pelo senador Aloizio Mercadante (PT-SP). Um dos líderes do governo confidenciou ao Estado que a estratégia do Planalto no julgamento contra Renan era dar "uma demonstração incontestável de que estava ao lado dele". Com isso, poderia cobrar dele que "fizesse a sua parte": pedisse licença, deixando o Senado sob o comando do primeiro vice-presidente, Tião Viana (PT-AC).  Renan resiste e proclamou também que, por ter sobrevivido a uma campanha que tentava substituí-lo sem apresentar provas de irregularidades, está apto a comandar votações polêmicas como a prorrogação da CPMF. "Se eu não tiver condições de presidir o Senado, quem é que vai ter, num quadro de absoluta divisão?", perguntou, durante entrevista nesta quinta-feira, 13, à Rádio Gaúcha.  E considerou sua absolvição no processo de cassação como uma espécie de recondução ao cargo.  "Fui eleito a primeira vez com 56 votos, a segunda, com 41 votos, e agora tive 40 votos. (O resultado) foi um renovação de voto (dos senadores) em seu presidente", afirmou.  Veja também: Contra Renan, oposição ameaça não votar CPMFOposição ajudou a livrar Renan, afirma petista Para Lula, importante é o Senado voltar a funcionar Saiba tudo sobre o Caso Renan e dê sua opinião  A avaliação do Planalto é de que, com a licença, seria possível baixar a temperatura da crise e ao menos adiar a abertura do processo sucessório para o comando do Senado, que certamente vai tumultuar ainda mais o ambiente político. Setores do governo e do próprio PMDB começaram a trabalhar para que Renan se licencie. Neste caso, quem estará no comando da sessão que vai votar a emenda que prorroga a Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF) será o PT. Também ao Estado, um interlocutor do Planalto explicou que a articulação pela licença não é para já. Renan, segundo esse interlocutor, pode aproveitar o fim de semana para capitalizar a vitória em Alagoas, licenciando-se na semana que vem. Já Renan, para justificar sua convicção de que deve permanecer no cargo, deu a entender que manteve sua capacidade de articulação política, necessária para fazer funcionar uma Casa dividida. O resultado da votação que o absolveu, por 40 votos contra 35 e seis abstenções, seria uma demonstração de força porque, ao longo de 110 dias de processo e de muitas acusações, o senador diz ter perdido apenas cinco apoios.  "Não adianta tirar o presidente do Senado sem ter provas e colocar alguém com menos capacidade de conversação, de articulação, porque, ao invés de melhorar, as coisas vão piorar", sustentou Renan, que qualificou a absolvição como sua terceira eleição para a presidência do Senado. "Foi uma renovação da confiança da Casa no seu presidente", afirmou.  Para o ataque O senador alagoano também atacou seus adversários e a imprensa. "Os acusadores não apresentaram uma prova sequer de nada, acusaram por acusar, por ouvir dizer, e nada do que eu disse foi editado da forma que eu disse, mas sempre de uma forma a me prejudicar", reiterou. "Me acusaram dizendo que era uma questão política e que como questão política tinha que ser resolvida, mas retrucamos que era uma questão jurídica, que tinha que ter prova, delito e crime para ter uma condenação".  Ao falar de suas relações com a jornalista Mônica Veloso, com quem tem uma filha de três anos fora do casamento, Renan sustentou que assumiu suas responsabilidades, registrou a paternidade, paga pensão e não misturou questões pessoais com sua atividade política.  O senador recorreu a uma hipótese para justificar suas explicações. "Bastava que eu contratasse a produtora de televisão da Mônica Veloso e pago aqui no Senado, aí sim era motivo de cassação porque estaria misturando o público com o privado".  Absolvido em sessão secreta, Renan admitiu que é contra o voto aberto em situações específicas, para que o eleitor fique protegido de pressões políticas, econômicas e da imprensa, que, segundo o senador, "nos momentos de crise vira partido político". Entre as informações que Renan considera deturpadas estão suspeitas sobre suas atividades agrícolas. O senador afirmou que a fazenda que possui em Alagoas é do espólio de seu pai e está com a família há 35 anos. E também assegurou que os processos que ainda vai enfrentar, por suposto uso de laranjas em empresas de comunicação e associação com lobistas, não vão encontrar nada. "Vai ser impossível provar isso porque isso jamais aconteceu". Durante a entrevista, Renan anunciou que vai passar uns dias recolhido para descansar com a família, depois de 110 dias de trabalho ininterrupto. "Quem mais perdeu com esse processo todo fui eu, porque a fama é efêmera, mas a infâmia é eterna", ressaltou. (Com João Domingos e Christiane Samarco, do Estadão)(Com Reuters)

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