Renan pede voto por telefone e aliados temem reviravolta

PSDB se reúne para fechar voto da bancada a favor da cassação do mandato do presidente do Senado

Cida Fontes, Agencia Estado

11 de setembro de 2007 | 09h51

Em busca de apoio para salvar seu mandato na votação de quarta-feira, 12, o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), reforçou o apelo aos colegas e está concluindo um documento de defesa, que será entregue aos senadores. Renan está telefonando a cada senador, para repetir que nada foi provado contra ele. Mesmo causando constrangimento ao interlocutor, pede o voto que será secreto. Os aliados de Renan apostam em vitória apertada no plenário, por isso mesmo estão preocupados e apreensivos com uma eventual reviravolta, em função das pressões da opinião pública.  Ao chegar nesta tarde ao Congresso, Renan descartou a possibilidade de renunciar ao cargo ou pedir licença da presidência da Casa. "Qualquer coisa que diga respeito a licença ou renúncia não faz parte da minha personalidade', disse. Renan lembrou que durante 120 dias "com sofrimento e com exposição da minha família venho lutando para provar minha inocência". E acrescentou: "Por isso, não tem sentido, absolutamente nenhum sentido que agora se faça isso (renúncia ou licença)." O PSDB reunirá nesta quarta-feira sua Executiva Nacional para fechar questão pela cassação do mandato de Renan. Mais do que isso, a cúpula do partido já tem até nome para presidir a Casa em lugar de Renan: o presidente tucano, senador Tasso Jereissati (CE), anunciou que o senador Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE) é o seu candidato a ocupar a presidência do Senado. O anúncio foi feito após o líder tucano no Senado, Arthur Virgílio Neto (AM), ter proposto à bancada o veto a uma eventual candidatura do senador José Sarney (PMDB-AP).  Veja também: Planalto vê fim da linha para senador Lobista ligado a Renan recebeu dólares em NY  Veja especial do caso Renan   A possibilidade de Renan deixar a presidência do Senado em troca da absolvição não é alimentada por senadores nem mesmo da oposição. O entendimento é de que ele recusou os sucessivos apelos tempos atrás e não é agora que vai ceder. Se absolvido, mesmo por pequena diferença de votos, Renan continuará enfraquecido mas não deixaria o cargo. Sem traições, Renan confidencia que sua contabilidade chega a 55 votos favoráveis à absolvição - são necessários 41 de 81 votos para aprovar o parecer do Conselho de Ética que pede a cassação do seu mandato. Muitos aliados foram alvos de cobrança em seus Estados e chegam à Brasília dispostos a atender essas pressões a favor de Renan.  A incógnita é o PT, que tem uma bancada de 12 senadores. "Cada um vai formar sua consciência", disse a líder do partido, Ideli Salvati (SC), considerado voto certo em favor de Renan. Mas o senador Flávio Arns (PT-PR) disse que a maioria vota contra Renan. O senador petista Paulo Paim (RS) anunciou que vota pela cassação. Sessão aberta Às vésperas do julgamento em plenário, na sessão que decidirá o futuro político de Renan, os senadores petistas Delcídio Amaral (MS) e Eduardo Suplicy (SP) apresentaram à Mesa Diretora da Casa um projeto de resolução para "abrir" a sessão. Diante disso, Renan admitiu em conversa com aliados que vive o dilema de já não saber quem está ou não ao seu lado.  A Constituição (Art. 55) e o Regimento Interno do Senado (Art. 197) dizem que, além de o voto dos senadores ser secreto, a sessão também terá de ser fechada - sem a presença da imprensa e de funcionários do Legislativo, só com os parlamentares no plenário.  A tentativa de Suplicy e Delcídio de alterarem o regimento para "abrir" a sessão dificilmente será bem-sucedida. O problema maior é conseguir aprovar o projeto a tempo de valer para a sessão de quarta.  "Se a maioria não aprovar o projeto de resolução, então a votação não deverá ser eletrônica, pelo painel, mas por meio de cédula", disse o senador Gerson Camata (PMDB-ES). A idéia de votar em cédula é para permitir que os senadores usem os celulares para fotografar seus votos. Em entrevista à Rádio Jovem Pan, o senador Álvaro Dias (PSDB) disse que não defende a alteração do regimento interno do Senado para que a sessão seja aberta. Dias advertiu que, se o pedido dos petistas for feito, Renan não será julgado pelo plenário em 2007.  O julgamento se refere à acusação de que Renan teria tido despesas pessoais pagas pelo lobista Cláudio Gontijo, da empreiteira Mendes Júnior. Entre as despesas, pensão e aluguel à jornalista Mônica Veloso, com quem o senador tem uma filha fora do casamento. Antes de chegar ao plenário, a denúncia foi investigada pelo Conselho de Ética, que, na semana passada, aprovou parecer em defesa da cassação por 11 a 4. PSDB No plenário, Virgílio foi firme a vetar uma eventual candidatura de Sarney. "Não sei quem será meu candidato, mas sei quem eu não quero. Não quero nada com essas oligarquias. Nosso candidato tem que ter estatura moral e ser de renovação", disse Virgílio, para concluir: "Se for candidato, Sarney não levará meu voto e espero que não leve o voto da bancada que tenho a honra de liderar." O líder arrancou aplausos entusiasmados da platéia tucana que participava de um seminário, ontem, em Brasília, mas, àquela altura, Tasso ainda estava viajando, vindo do Ceará, e não pôde ouvi-lo.  Alguns dirigentes do partido interpretaram a fala de Virgílio como uma provocação ao presidente do partido, por conta da ligação pessoal de Tasso com a líder do governo no Congresso, senadora Roseana Sarney (PMDB-MA), e com o pai dela, proscrito pela fala de Virgílio. Provocado ou não, Tasso reagiu de pronto e, sem rejeitar explicitamente o nome de Sarney, colocou um nome novo na disputa, o do ex-governador de Pernambuco.  "Eu sei o que eu quero e tenho um nome na cabeça. Meu candidato é o Jarbas", disse o presidente do PSDB, parodiando a fala anterior de Virgílio. Tasso preferiu não comentar o veto do líder do partido ao senador Sarney, extensivo à filha Roseana. "Primeiro vamos ouvir o resultado da votação de quarta-feira. Prefiro ter a certeza da cassação para depois discutir a sucessão", ponderou.  "Faremos uma reunião para ratificar o voto de cada um (dos 13 senadores tucanos)", disse Tasso. Sobre os três tucanos que figuram na lista dos indecisos, o presidente do partido admitiu que há apenas uma dúvida: o senador João Tenório (PSDB-AL), suplente do governador de Alagoas, Teotônio Vilela, que é amigo e aliado de Renan no Estado. "O Papaléo Paes (AP) e o Flexa Ribeiro (PA) já colocaram o voto aberto para nós e fecham com o relatório da Marisa", antecipou Tasso.  PT e DEM Além do PSDB, o  PT e DEM  também marcaram para esta terça-feira, 11, reuniões com suas bancadas no Senado para discutir a votação do pedido de cassação do presidente da Casa.  Os partidos de oposição devem votar pela cassação e o PT anunciou que liberou a bancada para escolher o voto. Para aprovar a cassação ou a absolvição são necessários a maioria simples dos 81 senadores, ou seja, 41. PSDB e DEM respondem por 30 votos. PMDB, o partido de Renan, tem 19 senadores. O PT responde por 12 parlamentares, e outros partidos têm 20 cadeiras.    (Com Rosa Costa, Christiane Samarco e Ana Paula Scinocca) Texto atualizado às 14h20

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