Renan pede licença da presidência do Senado

Desde a sessão de terça-feira, quando recebeu saraivada de críticas em plenário, foram 40 horas de muita conversa e pressão da cúpula do PMDB

Christiane Samarco e Ana Paula Scinocca, BRASÍLIA, O Estadao de S.Paulo

12 Outubro 2007 | 00h00

Com um pronunciamento que durou apenas 2 minutos e 16 segundos, o senador Renan Calheiros (PMDB-AL) encerrou ontem às 19 horas uma jornada de 139 dias de resistência e anunciou o licenciamento da presidência do Senado por 45 dias. Em sua breve fala, transmitida pela TV Senado, ele admitiu que a relutância em deixar o cargo foi quebrada com a sessão plenária de terça-feira. "Saio para evitar a repetição dos constrangimentos ocorridos na sessão do dia 9 de outubro", afirmou. Veja especial do caso RenanCom a licença, o vice Tião Viana (PT) assume a presidência da Casa. "Eu vou atuar para recuperar a relação com os partidos na Casa", disse Viana, em tom diplomático. Os articuladores políticos do governo esperam que o afastamento de Renan possa serenar os ânimos.Na terça-feira, uma dezena de senadores se revezou na tribuna para uma avalanche de críticas e pedidos contundentes para que deixasse o cargo e parasse de usar a instituição como trincheira contras as representações que enfrenta no Conselho de Ética. Foi também nesse dia que o PT abandonou sua defesa e o senador Demóstenes Torres (DEM-GO) exibiu uma gravação mostrando que Francisco Escórcio, assessor de Renan, tentara armar um esquema para espioná-lo. De terça-feira até a decisão de se afastar do cargo, foram cerca de 40 horas de muita conversa e pressão da cúpula do PMDB e também de muito aconselhamento do amigo e governador de Alagoas, Teotônio Vilela (PSDB). Coube ao presidente nacional do PMDB, deputado Michel Temer (SP), o recado mais duro. Chamado na manhã de quarta-feira, por um Renan já acuado, Temer ouviu um pedido de ajuda e um desabafo: "Eu não tenho saída. Não tenho mais nada a perder", disse Renan. "Você tem muito a perder. Tem a perder o seu mandato", devolveu Temer. No pronunciamento, o senador quis mostrar que deixava o cargo por decisão pessoal. "Com meu gesto, que é unilateral, preservo a harmonia do Senado, deixo claro meu respeito pelos interesses do País e homenageio as altas responsabilidades das funções que exerço. O poder é transitório, enquanto a honra é um bem permanente, que não sacrifico em nome de nada", afirmou.O senador José Sarney (PMDB-AP) e o líder do governo no Senado, Romero Jucá (PMDB-RR), tiveram papel fundamental na negociação da licença. Argumentaram que, no cargo, ele perderia por completo o apoio que tivera para se livrar da cassação no primeiro julgamento, há um mês. O que mais irritou os aliados foi sua recusa em tirar uma licença depois da absolvição com o apoio de 46 senadores na sessão do dia 12. Do ponto de vista do PMDB, a trapalhada final foi a truculência da operação para destituir os senadores Jarbas Vasconcelos (PE) e Pedro Simon (RS) da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ). Mas, para o PT e o próprio Planalto, o mais grave foi a "demonstração de força" dada com a derrubada da medida provisória que criava a Secretaria de Planejamento de Longo Prazo. Foi ali que os petistas e o governo se deram conta do quanto era arriscado mantê-lo na presidência.OPERAÇÃOUm dos indicativos de que a licença de Renan era questão de horas, foi dada aos funcionários da Casa ainda na véspera. Na noite de quarta-feira, quando deixava o gabinete de trabalho em direção à residência oficial, dispensou todo o aparato de segurança que o acompanha 24 horas, sem dar nenhuma explicação.Ontem, os funcionários do plenário ficaram de plantão, na expectativa da chegada de um comunicado que deveria ser lido em plenário, pelo presidente da sessão. Ao longo da tarde, Mão Santa (PMDB-PI), Magno Malta (PR-ES) e Edison Lobão (PMDB-MA) revezaram-se na tribuna e no comando da mesa, para arrastar a sessão à espera da chegada do pronunciamento de Renan. Avisados de que ele estava a caminho do Congresso, Malta encerrou os trabalhos às 17h37. Àquela altura, Renan já estava no gabinete com a equipe da TV Senado, gravando o pronunciamento.

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