Valter Campanato|Agência Brasil
Valter Campanato|Agência Brasil

Renan mostra a senadores carta em que chama Temer de 'mordomo de filme de terror'

Após troca de farpas, presidente do Senado pediu opinião de colegas sobre esboço de texto no qual dizia, segundo relatos, que vice poderIa ter emprego de "mordomo de filme de terror ou carteiro" se perdesse o cargo

Isabela Bonfim, O ESTADO DE S.PAULO

17 de dezembro de 2015 | 09h41

BRASÍLIA - O presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), cogitou enviar uma carta ao vice-presidente Michel Temer depois que os dois trocaram farpas, nessa quarta-feira, 16, em torno da decisão da Executiva Nacional do PMDB de aprovar resolução destinada a interferir em filiações ao partido. Renan levou um esboço de seus escritos e pediu a opinião de colegas no plenário. Segundo relatos, ele disse que iria sugerir ao vice que, se perdesse o cargo, Temer poderia pensar em outros empregos, como  “mordomo de filme de terror ou carteiro”.

A referência a “carteiro seria uma alusão à carta privada que o vice endereçou à presidente Dilma Rousseff na qual reclamava de que não tinha a confiança da petista. “Mordomo de filme de terror” foi ironia lançada contra Temer, em 1999, pelo ex-senador Antônio Carlos Magalhães, já falecido. Na época, ACM era presidente do Senado e reagiu a nota enviada pelo peemedebista, então presidente da Câmara.

“Não envie carta alguma, o senhor não deve se rebaixar”, aconselhou um senador petista a Renan ainda, nessa quarta, no plenário.

As considerações não foram suficientes e o presidente do Senado resolveu consultar outros colegas no jantar de Natal oferecido por ele na residência oficial. Bem-humorado, Renan se uniu a uma roda de senadores de oposição e confessou o plano de escrever uma carta, sugerindo as novas qualificações de Temer. Os senadores se divertiram com a possibilidade, mas recomendaram temperança. “Escreve, dorme e amanhã o senhor avalia se deve enviar”, sugeriram.

Alguns parlamentares, no entanto, levantaram a hipótese de que Renan não enviaria a carta. Mostrando seus escritos de roda em roda durante o jantar, ele já faria com que o recado chegasse facilmente a Temer, sem precisar mandar selar o envelope.

O vice-presidente não foi convidado para a festa. “Se foi, já foi desconvidado”, suspeitou um tucano. Outro avaliou que o jantar é para o Senado e que, nos últimos anos, também não contou com o vice. Temer e Renan trocaram críticas, nessa quarta-feira, após a Executiva decidir que a direção nacional do PMDB, sob comando do vice-presidente, dará a palavra final em filiações partidárias. O objetivo seria impedir a entrada de nomes pró-governo suficientes para reverter a troca do líder do PMDB na Câmara. O presidente do Senado, que é presidente do diretório estadual do partido em Alagoas, chamou a medida de "retrocesso" e "um horror". Em resposta, Temer disse que “o PMDB não tem dono e nem coronéis”. 

Jantar. Os senadores compareceram em peso ao jantar de confraternização promovido por Renan. A rua que dá acesso à residência oficial do Senado estava abarrotada de carros oficiais. A exceção foi um modesto modelo hatch, estacionado inconvenientemente na esquina pelo senador Reguffe (PDT-DF), que se recusa a usar o carro oficial. “O Senado está todo aí, o que reforça o esteio que Renan representa hoje. Ele é um dos poucos pilares que ainda sustentam o governo”, analisou Cássio Cunha Lima (PSDB-SP).

Muito diferente da badalada festa oferecida pelo líder do PMDB no Seando, Eunício Oliveira (CE) há uma semana, o jantar de Renan teve ares de confraternização oficial. A maior parte dos convidados deixou a casa após duas horas de evento. O cardápio não teve extravagâncias. Na saída, os convidados ganhavam de lembrança um bolinho e uma mensagem com os votos da família Calheiros.

Ministros peemedebistas também marcaram presença. Celso Pansera, responsável pela pasta de Ciência e Tecnologia, alvo de buscas da Operação Lava Jato nesta semana, apresentou-se a cada um dos convidados, cumprimentando-os. Houve quem criticasse, relembrando que, noutros tempos, era o ministro quem era recebido com pompas de autoridade.

Nas rodinhas de conversa, os senadores se ativeram às amenidades e preferiram evitar temas políticos. A exceção foi Romero Jucá (PMDB-RR), que apresentou uma tese para amenizar o insucesso da política de concessões. Ele sugeriu crédito subsidiado às empresas participantes para compensar as altas taxas de retorno. Como prêmio, demais senadores lhe concederam o título de futuro ministro da Fazenda, com a esperada saída do cargo do ministro da Fazenda, Joaquim Levy.

Não faltaram também paródias do desentendimento entre a ministra da Agricultura Kátia Abreu (PMDB) e o senador José Serra (PSDB-SP), ocorrido na festa anterior. A ministra jogou vinho em Serra após ser chamada por ele de "namoradeira"  Elogiada pelo seu vestido, a senadora Vanessa Grazziotin (PC do B-AM) brincou, avisando que estava com a taça de vinho na mão.

Kátia Abreu também não perdeu a festa. Desta vez, foi acompanhada do marido. Serra não apareceu.

 

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