Renan faz ofensiva em busca de votos contra cassação do mandato

Ele será julgado na quarta sob a acusação de que teve despesas pagas por lobista da empreiteira Mendes Júnior

Christiane Samarco, BRASÍLIA, O Estadao de S.Paulo

07 de setembro de 2010 | 00h00

Depois de ameaçar senadores de oposição que se manifestaram pela sua cassação, o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), adotou, a três dias do julgamento que decidirá seu futuro político, um tom emocional. Renan usou boa parte do feriado prolongado para uma ofensiva ao telefone, articulando com os aliados e contatando senadores da oposição, em uma cartada final para escapar da cassação no plenário da Casa. Nas conversas, reclamou principalmente do peso da pena - 12 anos fora da política, o que chegou a qualificar de "um absurdo".Nos telefonemas, Renan repetiu a cada interlocutor que é inocente e insistiu na tese de que as acusações de que é alvo se tratam de uma questão pessoal. O diálogo com senadores que prometeram votar contra ele ou ainda figuram na pequena lista dos indecisos foi curto.Renan não hesitou em pedir voto a vários dos que defendem a cassação de seu mandato na quarta-feira, quando o plenário julgará a representação. Segundo relato de um tucano influente na bancada do Senado, no telefonema, Renan tratou-o como amigo, elogiando a forma como vinha se conduzindo em relação a seu caso e dizendo que iria precisar dele. PROCESSOSO processo pelo qual o presidente do Senado será julgado agora é o que se refere à acusação de que teve despesas pessoais pagas por um lobista da empreiteira Mendes Júnior. A denúncia, apresentada pelo PSOL, foi acolhida por 11 votos a 4 no Conselho de Ética, na semana passada.Renan, contudo, vem sendo alvo de uma enxurrada de acusações desde maio. Se for poupado no julgamento de quarta-feira, continuará na mira de outras três denúncias. A primeira é a venda, por preço muito acima do valor real, de uma pequena fábrica de bebidas em Alagoas para a cervejaria Schincariol. A segunda, a compra não declarada de um jornal e duas emissoras de rádio, em nome de laranjas, numa sociedade secreta com o usineiro e ex-deputado João Lyra. E a terceira, que pode ou não chegar ao conselho, o implica como suposto recebedor de propinas para ajudar o banco BMG a operar o crédito consignado a aposentados e pensionistas do INSS sozinho, antes dos concorrentes.Em relação à compra de empresas de comunicação em Alagoas - única representação contra o presidente do Senado que não foi apresentada pelo PSOL, mas pelo DEM e pelo PSDB -, a denúncia está repleta de indícios e provas, conforme revelou o Estado, no domingo. São documentos encaminhados por João Lyra ao Senado, que contêm16 provas de como a transação foi efetuada, além dos indícios de que Renan se utilizou de terceiros para ser dono oculto de veículo de comunicação.CHANCESO Palácio do Planalto e os líderes governistas no Senado acham que Renan se salva da cassação no plenário. De qualquer maneira, sairá desgastado e na mira de novas acusações. Segundo um interlocutor no Palácio do Planalto, o senador alagoano vai para a votação com o suporte do governo, apoiado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva e pelos ministros das Relações Institucionais, Walfrido Mares Guia, e da Casa Civil, Dilma Rousseff. Os petistas estão sendo trabalhados para dar o maior número de votos possível a Renan, com o argumento de que a "traição" do PT causaria um desconforto e uma desestabilização da base aliada que não interessa ao governo. Segundo um auxiliar do presidente, o PT "não fará maluquice" porque não pode desestabilizar o Senado às vésperas da votação da CPMF. A contabilidade mais pessimista dos aliados aponta para uma vitória com o voto favorável de 46 dos 81 senadores. Mas todos concordam que o que vai definir o day after de Renan é o placar da votação.

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