André Dusek|Estadão
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Renan renuncia à liderança do PMDB no Senado

Após afirmar que 'não tem vocação para marionete' e fazer fortes críticas ao presidente Michel Temer, senador alagoano disse que

Isabela Bonfim e Thiago Faria, Agência Estado

28 de junho de 2017 | 17h51

 

BRASÍLIA - Renan Calheiros (PMDB-AL) anunciou no plenário do Senado, nesta quarta-feira, 28, sua saída da liderança do PMDB, mas também aproveitou para fazer críticas ao governo. O peemedebista afirmou que não irá ceder a Michel Temer e disse que o presidente tem "postura covarde" diante dos direitos trabalhistas. 

"Deixo a liderança do PMDB. Não seria jamais líder de papel, nem lideraria o PMDB contra trabalhadores e aposentados. Estou me libertando de uma âncora pesada e injusta. Permanecer na função seria ceder a um governo que trata o partido como um departamento do poder Executivo e optou por massacrar os trabalhadores", anunciou Renan.

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O senador aproveitou o momento para tornar a criticar a reforma trabalhista do governo. "Não tenho a menor vocação para marionete. O governo não tem legitimidade para conduzir essas reformas complexas que, ao invés de resolver o problema, agravam", afirmou. 

Renan afirmou que defende as reformas e que o Brasil precisa atualizar as legislações trabalhista e previdenciária. Entretanto, o senador criticou aspectos dos projetos que, segundo ele, "cassa direitos dos trabalhadores". "Votar a terceirização ampla e irrestrita sem passar pelo Senado e a reforma trabalhista sem que o Senado possa alterar uma linha é de mais."

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O senador afirma que deixou a liderança do PMDB ciente de que fez críticas e sugestões ao governo mas que, em sua opinião, mais ajuda o governante quem faz críticas do que elogios.  "Convencido de que o problema para o governo sou eu, me afasto da liderança. Vou exercer minha função com total independência", disse.

Delação. Renan reviveu em seu discurso a gravação do delator Sérgio Machado e do líder do governo, Romero Jucá (PMDB-RR), e tornou a dizer que Michel Temer é influenciado, ainda hoje, pelo ex-presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), deputado cassado que se encontra atualmente preso.

"Surgiu uma frase de Romero Jucá, que afirmou que o impeachment não saía porque eu, Renan, tinha certeza que o Eduardo Cunha mandaria no governo Michel Temer. Jucá disse que Eduardo Cunha estaria politicamente morto. Antes fosse assim. Foi um ledo engano. Eduardo Cunha permanece nomeando ministros, dando as ordens diretamente do presídio e apequenando um governo cuja República periclita nas suas mãos", afirmou. 

Renan disse que, ao contrário do que dizem, ele "sinceramente" não detesta o presidente Michel Temer. "O que eu não tolero é sua postura covarde diante do desmonte da consolidação do trabalho", afirmou. 

O peemedebista encerrou o discurso dizendo que deixava a liderança sem qualquer traço de ressentimento com os demais colegas de bancada.

A notícia da saída de Renan já era conhecida desde manhã. Discursos contrários ao governo na noite dessa terça-feira fortaleceram a movimentação na bancada do PMDB para que o líder fosse afastado. Após votação da reforma trabalhista na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), prevista para o fim desta tarde, senadores do PMDB vão se reunir para escolher novo líder. 

Independência. Em entrevista a jornalistas depois de seu pronunciamento, Renan afirmou que não terá uma postura de oposição, mas de independência em relação ao governo Temer. Segundo ele, fora da liderança ficará mais “à vontade” para criticar o governo.

“Deixei a liderança para ficar à vontade sem as limitações do cargo. Se eu fosse governante eu preferiria ser cercado por pessoas que fazem críticas, não por quem ficasse bajulando o governo”, afirmou o senador. “Nunca deixei de ser independente, até no governo Dilma eu fiz oposição.”

A saída de Renan do cargo ocorre em meio ao acirramento da crise política que atinge o Palácio do Planalto, com Temer sendo alvo de denúncia por corrupção passiva pela Procuradoria-Geral da República.

“Pessoas que queriam fazer as reformas trabalhista e da Previdência achavam que bastava tirar a Dilma (Rousseff) para resolver a economia. Mas não foi isso que aconteceu. Isso foi um erro”, afirmou o peemedebista.

Segundo Renan, que há algum tempo já havia adotado postura crítica às reformas propostas pelo governo, sua defesa não será pela renúncia de Temer, mas de que o presidente encontre uma solução que ajude o País a sair da crise. “Não defendo a permanência do presidente Michel Temer pela permanência, nem a saída pela saída. Acho que ele precisa aproveitar a oportunidade para construir a transição, para garantir avanços constitucionais. O Brasil está precisando disso.”

A decisão de se afastar da base de Temer envolve também um cálculo eleitoral. Renan deve tentar se reeleger no Senado em 2018 e, para isso, terá que enfrentar a alta rejeição à gestão peemedebista no Planalto em Alagoas, seu Estado. 


 

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