Religiosos pedem concílio Vaticano 3º

Um movimento internacional de bispos, padres, teólogos, religiosos e leigos enviou petição ao papa João Paulo II sugerindo a convocação de um novo concílio ecumênico que, ?em continuidade com o espírito do Vaticano 2º?, ajude a Igreja Católica a enfrentar ?os grandes desafios da humanidade?. Com mais de 10 mil assinaturas e aberto a adesões pela internet, o documento conta com o apoio do cardeal d. Paulo Evaristo Arns, arcebispo emérito (aposentado) de São Paulo e de mais 25 bispos brasileiros, além de membros dos episcopados da Argentina, Bolívia, Equador, Guatemala, México, Peru, Espanha e Japão.Os signatários da petição argumentam que um novo concílio ecumênico poderia ser uma oportunidade para a Igreja responder aos desafios internos e às circunstâncias do mundo de hoje, ?especialmente às realidades de desigualdade, pobreza, exclusão, abusos e violência que afetam grande parte da humanidade?.Além de 34 bispos, 917 sacerdotes e 1.471 religiosos, já assinaram o documento 7.397 leigos e mais 342 pessoas que não se incluíram em nenhum desses grupos. Eles se apresentam, num texto que acompanha a petição, como ?pessoas com cargos de elevada responsabilidade na Igreja Católica que desejam oferecer uma contribuição positiva ao desejo de diálogo e comunhão expressado por boa parte da comunidade eclesial?.Dos representantes do episcopado brasileiro, os mais conhecidos são os arcebispos d. Moacyr Grechi, de Porto Velho, e d. José Maria Pires, emérito da Paraíba, e os bispos d. Mauro Morelli, de Duque de Caxias (RJ); d. Pedro Casaldáliga, de São Félix do Araguaia (MT); d. Demétrio Valentini, de Jales (SP); d. Waldir Calheiros, emérito de Volta Redonda (RJ), e d. Tomás Balduíno, emérito de Goiás e presidente da Comissão Pastoral da Terra (CPT). O papa não respondeu à petição, mas o cardeal Joseph Ratzinger, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, reagiu com um argumento que, com certeza, reflete a posição oficial da Cúria Romana. ?Ainda não aplicamos totalmente o Vaticano 2º?, declarou o cardeal, advertindo que a assimilação de um concílio não se faz de um dia para outro.?Não vai ser fácil, mas é preciso botar a procissão na rua?, diz o padre e teólogo José Oscar Beozzo, um dos brasileiros que assinam o documento, definindo o movimento pela convocação do concílio como a instalação de um processo para não deixar a idéia morrer. ?Estamos já em processo conciliar?, reforça outro teólogo, o monge beneditino Marcelo Barros, entusiasta defensor da iniciativa.A resposta de Roma pode demorar e provavelmente não viria de João Paulo II, que não tem saúde nem disposição para presidir um encontro que reuniria mais de 4.500 bispos, sem contar centenas de peritos e convidados ? o dobro dos participantes do Vaticano 2º, convocado por João XXIII e levado adiante pelo seu sucessor, Paulo VI.Diante da objeção de que não haveria espaço na Basílica de São Pedro para tantos participantes, Marcelo Barros responde que o concílio poderia se reunir em qualquer outra parte do mundo, de preferência numa cidade da África, Ásia ou da América Latina. Seria possível até uma concentração em campo aberto, como no Fórum Social Mundial de Porto Alegre. ?Uma boa data seria 2012?, sugere o monge beneditino, jogando com dez anos de prazo para preparação da agenda e montagem da estrutura.Aberto à participação das bases ? os fiéis leigos, que formam com a hierarquia o povo de Deus ?, o concílio discutiria uma pauta ampla, da qual não escapariam questões como o celibato dos padres e a ordenação de mulheres. São dois temas polêmicos, sobretudo a proposta do sacerdócio feminino. ?É uma questão já resolvida pela solene declaração do papa?, afirma o padre José Afonso de Moraes Passos, livre docente de Pré-História da Universidade de São Paulo (USP), referindo-se a pronunciamento de João Paulo II, no qual ele lembrou que não tem poder para estender o sacerdócio às mulheres. O sociólogo Luiz Alberto Gómez de Souza, diretor do Centro de Estatística Religiosa e Investigações Sociais (Ceris) e autor do livro "Do Vaticano 2º a >um novo concílio", acredita que o pobre será um dos temas centrais em discussão, ao lado de questões como a ética da reprodução (aborto, contracepção, sexualidade, etc), a ligação dos leigos com os clérigos e o diálogo inter-religioso.?A preocupação é recuperar portas abertas pelo Vaticano 2º que foram fechadas, porque se estancou o impulso renovador?, diz d. Demétrio Valentini. O concílio, acrescenta ele, tem de enfrentar o desafio de fazer com que o evangelho seja uma resposta ao mundo de hoje, ?não apenas em continentes como a Ásia e a África, mas também numa Europa envelhecida?.Para o bispo de Jales, o último concílio representou um momento privilegiado para a Igreja, ?por mérito de João XXIII e por haver se reunido numa época de muito otimismo, como foi a década de 60?, mas quase 40 anos depois ele parece ter sido bloqueado em sua aplicação. ?A Igreja precisa ser repensada a partir do evangelho?, diz d. Demétrio.O bispo emérito de Goiás, d. Tomás Balduíno, teme que o novo concílio venha a ser um retrocesso em relação ao Vaticano 2º, se prevalecer nele a correlação de forças que se vê hoje no governo da Igreja. ?O concílio não pode ser como o sínodo, que se tornou um conselho consultivo do papa?, adverte o bispo. Em setembro, d. Tomás defendeu a proposta de um novo concílio durante o Encontro Internacional para a Renovação da Igreja Católica, que reuniu em Madri mais de 500 pessoas vindas de 30 países.Ele disse que a iniciativa faz sentido, ?porque houve um retrocesso muito forte e é importante resgatar o que foi apagado do Vaticano 2º?. D. Tomás, o único bispo presente na reunião, observa que a reivindicação de maior participação dos fiéis no governo da Igreja não significa demolição da hierarquia. Por via das dúvidas, o episcopado espanhol emitiu uma nota advertindo para sinais de contestação no encontro de Madri.

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