Mackenzie/ Divulgação - 18/10/2018
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Religião e preconceito

O que interessa sobre o professor Milton Ribeiro é se ele pode ser um bom ministro da Educação

J.R.Guzzo, O Estado de S.Paulo

15 de julho de 2020 | 16h22

O novo ministro da Educação do governo Jair Bolsonaro, o professor Milton Ribeiro, ex-vice-reitor da Universidade Mackenzie, acaba de ser nomeado para o cargo – e o público foi imediatamente informado, num tom de alarme e quase-denúncia, que ele é “evangélico”. E se fosse católico – haveria algum problema ou aí estaria tudo bem? O que interessa sobre Ribeiro é uma coisa só: ele pode ser um bom ministro da Educação? É uma questão-chave, levando-se em conta que o homem já é o quarto ministro da Educação que o presidente nomeia em um ano e meio de governo, sucedendo a três calamidades que não conseguiram se manter na função; o último, por sinal, não chegou nem a assumir, ao se descobrir que não tinha os títulos universitários que anunciava ter. Mas a preocupação, ao ser anunciado o nome de Ribeiro, não foi em relação à sua competência. O problema é a sua religião.

O Brasil de 2020 avança cada vez mais depressa, e com empenho cada vez maior, na estrada do preconceito. Um deles, presente sobretudo nas classes AAA e chegando até a camada superior da classe B, é contra os evangélicos. Eles são considerados, nesses meios, como gente de direita, admiradora das Forças Armadas e em geral simpática ao presidente Bolsonaro – um pacote que para os nossos sociólogos, formadores de opinião e especialistas em comparecer à mesas redondas na televisão não está à altura das suas expectativas para o Brasil. Imaginem, só para se ter uma ideia, se o novo ministro, em vez de ser evangélico, fosse gay, negro ou umbandista; seria terminantemente proibido mencionar esses aspectos, por não terem nada a ver com a sua capacidade para exercer o cargo. Mas como ele é “pastor presbiteriano”, vale falar de religião.

No Brasil, pelo que diz o inciso VI, um dos 77 que compõem o artigo 5 da Constituição e que relacionam os direitos fundamentais do cidadão, há liberdade plena de culto religioso – mas essa é uma regra que está em baixa, no entender daquilo que passa por “elite intelectual” neste país e pela galeria de gigantes do nosso liberalismo civilizado. É uma surpresa, pensando bem, que nenhum ministro do Supremo ainda tenha começado um inquérito secreto contra os evangélicos; eles podem concluir a qualquer momento (talvez até em “decisão monocrática”), que o inciso VI do artigo 5 da Constituição é, na verdade, inconstitucional. Por que não? Se podem vetar o nome que o presidente da República escolhe para chefiar a Polícia Federal, proibir a redução de salários dos funcionários públicos e suprimir direitos dos advogados cujos clientes desagradam os ministros, podem tudo. O ministro-pastor que se cuide.

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