Relembre o escândalo dos 'aloprados'

Jair Stangler / SÃO PAULO, estadão.com.br

28 Junho 2011 | 00h40

A imagem do escândalo: foto do dinheiro apreendido com os 'aloprados', divulgada pelo estadão.com.br no dia 29 de setembro de 2006. Foto: AE

 

No dia 15 de setembro de 2006, a apenas duas semanas do primeiro turno das eleições, integrantes do PT foram presos pela Polícia Federal em um hotel de São Paulo ao tentar comprar um dossiê contra o então candidato do PSDB ao governo de São Paulo, José Serra. O então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, tentando diminuir a importância do episódio, afirmou que aquilo era obra de "um bando de aloprados", expressão pela qual o caso é lembrado até hoje.

 

Foram presos em flagrante Valdebran Padilha que tinha US$ 109.800 mil e mais R$ 758 mil em dinheiro e Gedimar Passos, com US$ 139 mil e mais de R$ 400 mil em dinheiro. Ao todo, os dois tinham R$ 1,7 milhão. Valdebran era empresário e havia sido tesoureiro do PT em Mato Grosso em 2004. Gedimar, havia sido agente da PF e se apresentava como advogado do PT. O dinheiro seria usado para comprar um dossiê envolvendo Serra, ex-ministro da Saúde, no escândalo da Máfia dos Sanguessugas. O dossiê, que se revelou ser falso, seria vendido pelos empresários Darci Vedoin e seu filho, Luiz Antônio Vedoin, donos da empresa Planam, pivô do escândalo das sanguessugas.

 

Entre os petistas presos em flagrante, estavam integrantes da campanha de Aloizio Mercadante (PT) ao governo de São Paulo, adversário direto de Serra na disputa, e pessoas próximas ao presidente Lula. Segundo apurou a Polícia Federal, os contatos entre os Vedoin e os integrantes do PT envolvidos no caso se iniciaram no dia 15 de agosto de 2006. No dia 14 de setembro, o "Correio Braziliense" denunciava o envolvimento de Serra com a Máfia das Sanguessugas. Serra negou participação no esquema e acusou o PT de fazer "baixaria". Entre a noite do dia 14 e madrugada do dia 15, foram presos Luiz Antônio Verdoin e seu primo, Paulo Roberto Trevisan - o primeiro em Cuiabá e o segundo em São Paulo. Ambos foram acusados de chantagem e ocultação de documentos. Em São Paulo, foram presos Vadebran e Gedimar. 

 

Ainda no dia 15, circulou a revista IstoÉ com data de 20 de setembro, trazendo na capa a denúncia: "Os Vedoin acusam Serra". Em entrevista, eles diziam que 2002 foi o melhor ano para a Planam. Acusavam Barjas Negri, ex-secretário executivo e ministro sucessor de Serra no Ministério da Saúde, de agir para favorecer a empresa e afirmavam que o então candidato à Presidência pelo PSDB, Geraldo Alckmin, também estava envolvido. Apenas algumas horas depois da denúncia da Isto É, a propaganda política de Orestes Quércia (PMDB), que também disputava o governo de São Paulo, acusou Serra de envolvimento com o escândalo das sanguessugas. No dia 16, o presidente do PT, Ricardo Berzoini, rebateu as acusações contra a sigla e dizia que o partido sempre rejeitou a produção ilegal de dossiês.

 

Os 'aloprados'

 

Freud Godoy deixa a PF em São Paulo após prestar depoimento. Foto: JF Diorio/AE - 29.09.2006

 

Em seu depoimento à PF, no dia 17, Gedimar disse que foi contratado pelo PT para negociar com a família Vedoin a compra de um dossiê contra os tucanos, e que do pacote fazia parte entrevista acusando Serra de envolvimento na máfia. Ele disse ainda que seu contato no PT era alguém de nome "Froud ou Freud". Tratava-se de Freud Godoy, assessor especial de Lula. Ao Jornal Nacional no dia 18 de setembro, Godoy negou participação no episódio. Admitiu encontros com Gedimar, mas disse que eram apenas para tratar de assunto relacionados à segurança do comitê de Lula - a empresa de sua esposa tinha fazia a segurança do Diretório Nacional do PT em São Paulo. No mesmo dia, Lula exonerou Godoy.

 

Freud Godoy falou à PF no dia 18 e apontou mais um envolvido: Jorge Lorenzetti, "churrasqueiro" de Lula e um dos chefes do comitê de reeleição. Seria o mentor da operação. Atuava com Gedimar analista de risco e mídia. Segundo o site Contas Abertas revelou, a ONG Unitrabalho, ligada a Lorenzetti, recebeu R$ 18,5 milhões no governo Lula, 21 vezes mais do que durante os dois governos de FHC. No dia 20, Lorenzetti anunciou seu afastamento da campanha eleitoral e voltou a trabalhar no Banco do Estado de Santa Catarina (BESC), de onde foi exonerado no dia 28.

 

Berzoini antes de prestar depoimento à PF: caso fez com que deixasse coordenação da campanha de Lula. Foto: Roberto Jayme/AE - 17.10.2010

 

No dia 19, a revista "Época" revelou em seu site que foi procurada por Oswaldo Bargas para publicar as denúncias. Bargas fora secretário do Ministério do Trabalho, quando este era comandado por Berzoini, e era responsável pelo capítulo de Trabalho e Emprego do programa de governo de Lula. A revista afirmou ainda que Berzoini tinha conhecimento do encontro. O presidente do PT admitiu o fato.

 

Também no dia 20, o Blog do Noblat revelou outro envolvido: Expedito Afonso Veloso, diretor de Gestão de Risco do Banco do Brasil, citado por Valdebran em seu depoimento à PF. Expedito acabou pedindo afastamento de seu cargo no Banco do Brasil no mesmo dia. Ainda no dia 20, Lula afastou Berzoini da coordenação de sua campanha, nomeando Marco Aurélio Garcia, seu assessor especial, para a função. Berzoini seria afastado da presidência do PT no dai 6 de outubro, dando lugar a Marco Aurélio Garcia. Em janeiro de 2007, ele foi reconduzido ao cargo.

 

Hamilton Lacerda, coordenador de Comunicação de Mercadante, negociou a entrevista dos Vedoin par a IstoÉ. Foto: JF Diorio/AE

 

O nome de Hamilton Lacerda apareceu também no dia 20. Um site de jornalistas que trabalhavam na revista revelou que Lacerda, cordenador de Comunicação da campanha de Mercadante, negociou diretamente com a revista IstoÉ para a publicação da entrevista.  Ele confirmou em nota ter intermediado a entrevista dos Vedoin, mas negou ter feito qualquer oferta em dinheiro. Lacerda foi afastado da campanha por Mercadante. No dia 21, em depoimento à PF, o empresário Luiz Antônio Vedoin afirmou não haver indícios de ligação de Serra ou de Alckmin com a "máfia das sanguessugas."

 

A imagem do escândalo

 

Ao contrário do que fazia em operações similares, a Polícia Federal não estava divulgando as imagens do dinheiro. A justificativa era que essa imagem poderia influenciar as eleições. No entanto, na tarde do dia 29 de setembro, o Estadão.com.br divulgou as imagens do dinheiro. Apontado logo como responsável pelo vazamento, o delegado da PF Edmilson Pereira Bruno primeiro disse ter sido vítima de roubo, mas depois admitiu que entregou um CD com as fotos do dinheiro a jornalistas. A eleição presidencial acabou se decidindo no segundo turno.

 

Julgamento dos 'aloprados'

 

Em 24 de abril de 2007, julgando uma ação movida pelo PSDB e pelo DEM, o TSE absolveu por unanimidade o PT e o presidente Lula de responsabilidade no caso, alegando falta de provas. Também foram inocentados o ex-ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos; o presidente nacional do PT, Ricardo Berzoini; o empresário Valdebran Padilha; o advogado Gedimar Passos; e o ex-assessor da Presidência Freud Godoy.  Por sua vez, o plenário do STF (Supremo Tribunal Federal) havia decidido, em 11 de abril de 2007, arquivar o inquérito contra o senador Aloizio Mercadante (PT-SP) por falta de provas.

 

A volta dos 'aloprados'

 

Quase cinco anos depois, com muitas questões ainda sem resposta, o caso é retomado. A revista Veja teve acesso a gravações em que Expedito Veloso conta que o atual ministro de Ciência e Tecnologia, Aloizio Mercadante, foi o mandante da operação. A oposição tenta ressuscitar o caso.

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