Ueslei Marcelino/Estadão
Ueslei Marcelino/Estadão

Relembre atos e falas de Mourão nas vezes em que substituiu Bolsonaro na Presidência

Presidente interino até quinta-feira, 12, aliados de Bolsonaro avaliam que o general da reserva encontra-se em ‘nova fase’ e não deve gerar polêmica; nesta terça, 10, ele rebateu declaração de Carlos Bolsonaro

Vinícius Passarelli, especial para O Estado

10 de setembro de 2019 | 17h21

Apesar do “novo momento”, o presidente em exercício Hamilton Mourão rebateu nesta terça-feira, 10, as falas do vereador Carlos Bolsonaro (PSC-RJ), filho do presidente Jair Bolsonaro, que disse que por meios democráticos não haverá as mudanças rápidas desejadas no País. Mourão disse que as declarações são “problema” de Carlos e defendeu a democracia e a possibilidade de promover mudanças no Brasil a partir dela. 

"Lógico, senão a gente não tinha sido eleito. Temos que negociar com a rapaziada do outro lado da Praça (dos Três Poderes). É assim que funciona. Com clareza, determinação e muita paciência", afirmou ao ser questionado sobre a postagem do "filho 02".

Com o presidente Jair Bolsonaro internado após passar por cirurgia de uma hérnia incisional no último domingo, 8, o vice-presidente assumiu a interinidade da presidência da República e ficará no cargo até quinta-feira, 12. 

Diferentemente de outros momentos em que substituiu o presidente, Mourão deve cumprir uma agenda discreta e não fazer declarações de grande repercussão. Aliados do presidente também avaliam que o vice-presidente encontra-se em uma “nova fase” e que sua passagem pelo cargo desta vez não deve ser turbulenta, mas mantém a vigília sobre o general.

Na segunda-feira, 9, o general da reserva foi a São Paulo, onde participou da Conferência Anual do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC) e visitou Bolsonaro no hospital Vila Nova Star, onde o presidente está internado. Nesta terça-feira, 10, Mourão despachou de seu gabinete e teve encontros com empresários.

O “protagonismo” assumido por Mourão nos primeiros meses do governo em que teve de substituir o presidente no exercício do cargo - quando este participava de viagens oficiais ou esteve internado em decorrência das cirurgias após o atentado a faca sofrido durante a campanha - trouxe desconfortos no entorno de Bolsonaro e chegou a gerar um pedido de impeachment do deputado aliado Marco Feliciano (Podemos-SP).

As declarações de Mourão, que muitas vezes adotava um tom mais moderado e se contrapunha a posições do presidente, o tornaram alvo de críticas de bolsonaristas, de Carlos Bolsonaro e do escritor Olavo de Carvalho, tido como o “guru” de Bolsonaro. 

Em entrevista concedida ao Estado no no final de agosto, o vice negou conflito com Bolsonaro e disse que o presidente havia decidido “tratar pessoalmente” da comunicação do governo. “Estou apenas cuidando do meu quadrado”, afirmou.

Relembre, a seguir, algumas ações e falas de Mourão nas ocasiões em que esteve como presidente interino:

Decreto sobre documentos “ultrassecretos”

Na sua primeira passagem como presidente interino, quando Bolsonaro foi a Davos, no final de janeiro, para participar do Fórum Econômico Mundial, Mourão assinou um decreto que ampliava o número de autoridades com poder de classificar informações com sigilo “ultrassecreto” e, com isso, impedir que fossem obtidas via Lei de Acesso à Informação. 

Antes restrita apenas a autoridades como o presidente, vice-presidente, ministros, comandantes das Forças Armadas e embaixadores, o decreto estendeu o poder de classificação a chefes de órgãos ligados aos ministérios, como bancos públicos e fundações. Posteriormente, o decreto foi derrubado pela Câmara dos Deputados, gerando a primeira derrota do governo no Legislativo.

Intervenção na Venezuela

No dia 23 de janeiro, horas depois do presidente americano, Donald Trump, afirmar que “todas as opções estavam na mesa” em relação à Venezuela, o presidente em exercício rechaçou a possibilidade do Brasil participar ou apoiar uma intervenção militar no país vizinho.

 "O Brasil não participa de intervenção, não é da nossa política externa intervir nos assuntos internos de outros países", disse Mourão.

Fechamento da embaixada na Palestina

Na mesma ocasião, Mourão se contrapôs ao discurso de campanha de Bolsonaro e afastou a possibilidade do País fechar sua embaixada na Palestina. "Nada disso. Os dois Estados são reconhecidos, o resto tudo é retórica e ilação", disse.

Decreto do porte de armas 

O vice também provocou desconforto no entorno do presidente Bolsonaro ao afirmar, enquanto presidente interino, que não enxergava o decreto que flexibiliza o porte de armas como uma medida de combate à violência, mas como cumprimento de uma promessa de campanha.

"Não vejo como uma questão de medida de combate à violência. Vejo apenas, única e exclusivamente, como atendimento de promessa de campanha do presidente e que vai ao encontro dos anseios de grande parte do eleitorado dele", disse no dia 21 de janeiro.

Diretoria da Vale 

Durante sua segunda interinidade na Presidência da República, quando Bolsonaro se ausentou para fazer a cirurgia de retirada da bolsa de colostomia após mais de 140 dias do atentado a faca que sofreu em Juiz de Fora, durante a campanha, Mourão afirmou que o governo poderia afastar a diretoria da Vale de suas funções enquanto as investigações sobre o rompimento da barragem em Brumadinho.

“Essa questão da diretoria da Vale está sendo estudada pelo grupo de crise. Vamos aguardar quais são as linhas de atuação que eles estão levantando", disse a jornalistas. Mourão, no entanto, admitiu não saber se o grupo pode fazer tal recomendação. "Tenho que estudar, não tenho certeza", afirmou.

Economia na aposentadoria dos militares

No dia 19 de março, Mourão disse que informou um valor errado sobre a economia para o sistema de Previdência dos militares. Mais cedo, ele havia informado que o projeto de lei que vai alterar as regras para militares possibilitaria uma economia de R$ 13 bilhões aos cofres públicos em dez anos. 

Mais tarde, a assessoria de imprensa do presidente interino, no entanto, transmitiu a jornalistas uma declaração para corrigir a informação. "Eu me enganei. O que prevalece é o número da área econômica. Lidei com muita coisa hoje de manhã e me equivoquei", disse.

Nazismo e Comunismo

Em mais uma demonstração de contraponto a Bolsonaro, que durante visita a Israel havia afirmado que o nazismo era de esquerda, Mourão afirmou, no dia 2 de abril, que “de esquerda é o comunismo”

"De esquerda é o comunismo, não resta a mínima dúvida. Se a gente for olhar, sabe que sou um crítico contumaz desta questão de direita e esquerda. Eu acho que são ambos visões totalitárias. Nazismo e comunismo são duas faces de uma moeda só, a do totalitarismo”, afirmou.

Vídeo institucional sobre o golpe militar

Ao ser questionado sobre um vídeo distribuído pelo Whatsapp do Palácio do Planalto que defendia o golpe de 1964, o presidente interino afirmou a ação era uma “decisão do presidente”. "Foi divulgado pelo Planalto, é decisão dele (do presidente)", disse.

No vídeo distribuído pelo Planalto no dia 31 de março, data em que o golpe de 1964 completou 55 anos, um homem diz que o Exército "salvou" o País. "O Exército nos salvou. O Exército nos salvou. Não há como negar. E tudo isso aconteceu num dia comum de hoje, um 31 de março. Não dá para mudar a história", dizia o apresentador do vídeo em um trecho do material.

Protestos contra cortes da Educação 

Um dos momentos de maior turbulência do governo ocorreu enquanto Mourão era presidente interino, em maio: as manifestações contra o contingenciamento na Educação levaram milhares de estudantes e professores às ruas no Brasil inteiro, promovendo a maior reação popular até agora contra o governo Bolsonaro.

Enquanto o presidente afirmava em Dallas, nos EUA, que os manifestantes eram “idiotas úteis” e “massa de manobra”, o presidente interino classificou os protestos como “parte do sistema democrático”. “A manifestação faz parte do sistema democrático, desde que seja pacífica, ordeira e não limite o direito de ir e vir das outras pessoas, é uma forma que aqueles que se sentem inconformados têm de apresentar o seu protesto. Então, normal”, declarou Mourão a jornalistas.

Mourão também afirmou que o governo havia “falhado na comunicação” sobre o contingenciamento dos gastos na educação. “Eu acho que se o ministro [da Educação, Abraham Weintraub] souber explicar direitinho, acho que vocês entenderam o que eu quis transmitir aqui, as coisas como estão acontecendo. Então, nós temos falhado na nossa comunicação, e agora é uma oportunidade, lá dentro do Congresso, que o ministro vai ter para explicar isso tudo.”

Suspeitas contra o ministro do Turismo

No final de Junho, Mourão assumiu a Presidência de forma interina devido à viagem de Bolsonaro para a reunião do G20. No dia 27, ele foi taxativo ao afirmar que o ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, pode deixar o cargo caso as investigações da Polícia Federal comprovem sua participação no esquema de candidaturas laranjas no PSL de Minas Gerais.

“Óbvio que se houver alguma culpabilidade dele neste processo, o presidente não vai ter nenhuma dúvida em substituí-lo. Mas vamos lembrar que sempre que a gente colocar a culpabilidade na frente dos acontecimentos as coisas não funcionam corretamente. Então, não vamos linchar a pessoa antes de todos os dados serem esclarecidos”, afirmou.

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