Relatório de CPI diz que armas da polícia abastecem o crime

Relatório parcial divulgado pela CPI do Tráfico de Armas mostra que uma em cada cinco armas apreendidas no Rio de Janeiro pertenceu ao poder público antes de chegar nas mãos de criminosos. O rastreamento de 10.549 armas apreendidas entre 1998 e 2003 no Estado do Rio mostra que 1.928 (18,3%) pertenciam principalmente à Polícia Militar ou eram de uso particular de policiais militares. Segundo o deputado Raul Jungmann (PPS-PE), sub-relator da CPI, além dos casos de roubos e furtos, é provável que policiais vendam para bandidos suas armas pessoais. O deputado identificou o que considera a raiz desse comércio ilegal entre policiais e criminosos: o fato de que, a cada dois anos, PMs e militares das Forças Armadas podem comprar três armas para uso pessoal, além de milhares de cartuchos e munições. Policiais civis podem comprar uma arma a cada dois anos. "O fato de uma em cada cinco armas presas com bandidos vir do poder público e de 59% dessas armas terem pertencido à Polícia Militar ou a policiais militares é um detalhe aterrador", afirmou Jungmann ao apresentar o sub-relatório. A Secretaria de Segurança Pública não comentou o caso, sob a alegação de que desconhece o relatório parcial da CPI do Tráfico de Armas. O rastreamento apresentado no sub-relatório mostra ainda que 22% das armas originalmente pertencentes ao poder público eram do Exército, seja da instituição ou de uso particular dos militares. Oito por cento eram de secretarias estaduais de Segurança, 4% da Aeronáutica e percentuais bem menores pertenciam à Polícia Federal, Corpo de Bombeiros, Marinha, empresas estatais, polícias civis e outros. Das 10.549 rastreadas, todas de fabricação brasileira, 67% foram originalmente adquiridas em lojas no mercado formal, 18% eram do poder público e 14% foram exportadas e retornaram ao Brasil de forma clandestina. Entre as que entraram ilegalmente no País, a grande maioria passou pelo Paraguai, a principal porta de entrada das armas ilegais. De acordo com o documento, grande parte das armas apreendidas nos últimos anos é de fabricação nacional. Segundo Jungmann, em São Paulo, o número chega a 85% das armas em três anos e meio; no Rio de Janeiro, 78% das 78.011 apreendidas entre 1998 e 2003; e, no Distrito Federal, o porcentual é de 87% das 25.446 armas desde 2003. Nos três levantamentos, os casos referem-se a armas apreendidas pelas polícias estaduais. "Embora o contrabando de armas e munições exista e deva ser combatido (...), o maior problema está aqui dentro", diz o documento, que atribui os desvios "à falta de controle dentro do território nacional", diz o deputado.

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