Relatório da PF indicia 13 e chama Dantas de ''capo''

Ex-deputado Greenhalgh e lobista Sodré, segundo delegado Protógenes, serão alvos de inquérito à parte

Fausto Macedo, O Estadao de S.Paulo

23 de julho de 2008 | 00h00

Daniel Dantas é o "capo" de organização criminosa que movimentou US$ 1,9 bilhão em paraísos fiscais, segundo relatório final do delegado Protógenes Queiroz, da Polícia Federal. "É nele que se concentram todas as decisões em se tratando de estratégias, investimentos, aporte de recursos ou qualquer saída dos respectivos caixas do Grupo Opportunity", assinala o documento de 152 páginas, juntado ao inquérito 120233/08.São 13 os indiciados da Satiagraha - além de Dantas, a PF enquadrou Verônica, sua irmã, a quem atribui graduação de "subchefe central da organização", e diretores e gerentes do Opportunity Fund, uns apontados como laranjas, outros como testas-de-ferro. O banqueiro foi indiciado por corrupção ativa e gestão fraudulenta de instituição financeira (artigo 4º da Lei 7.492/86, que trata dos crimes do colarinho branco).A Luiz Eduardo Greenhalgh, ex-deputado e fundador do PT, o relatório imputa o papel de "integrante de escalão especial". No mesmo patamar de Greenhalgh, a PF coloca o lobista Guilherme Henrique Sodré, o Guiga. Os dois, informa Protógenes, serão alvo de inquérito policial apartado.O ato de indiciamento dos 13 investigados ocorreu sexta-feira, quando Protógenes despediu-se de Satiagraha, que ele próprio levou às ruas dia 8 no comando de um esquadrão de 300 agentes.Sob fogo cerrado da cúpula da corporação, a quem acusa de ter obstruído a maior investigação de sua vida, Protógenes saiu do caso - oficialmente para fazer o Curso Superior de Polícia, em Brasília.O relatório esmiúça a conduta de cada personagem da operação e revela passo a passo os movimentos de Dantas e seus subordinados no fundo registrado em Ilhas Cayman. Ao longo do texto em que incrimina seus alvos, o delegado junta transcrições de interceptações telefônicas e reitera informações, qualificações e adjetivos inseridos em termos anteriores que deram sustentação aos pedidos de prisão, acolhidos pelo juiz Fausto De Sanctis, da 6ª Vara Federal.O documento será analisado pelo procurador da República Rodrigo de Grandis. O inquérito deverá retornar à PF, que agora deu início à perícia em 200 HDs recolhidos pelos agentes de Satiagraha.DEFESA"O relatório contém linguagem totalmente imprópria, deselegante e que não traduz a realidade dos fatos", protestou o criminalista Nélio Machado, defensor de Dantas e de todos os dirigentes do Opportunity. "A autoridade policial deve investigar. Como chamar de fraudulenta uma gestão marcada pelo sucesso? O relatório não chega a ser peça literária, mas é ficção. Não vejo dificuldade em reduzir essa acusação ao nada e ao vazio que ela representa."Greenhalgh afirma que foi contratado como advogado por Dantas e que sua atuação está dentro dos limites da profissão que exerce há 30 anos. Nega tráfico de influência. O QUE DIZ O RELATÓRIODaniel Dantas: "Sua conduta pode ser classificada como uma espécie de alter ego. É nele que se concentram todas as decisões em se tratando de estratégias, investimentos, aporte de recursos ou qualquer saída dos respectivos caixas do Grupo Opportunity, utilização do mercado paralelo de moeda estrangeira, habituais e sucessivas transferências de cotas societárias entre a cúpula do grupo. A concentração de gerir fraudulentamente as instituições financeiras que controla está mais do que materializada nas vigilâncias telefônicas, telemáticas, documentos identificados durante o monitoramento e nos laudos periciais." Verônica Valente Dantas: "Irmã do cabeça da organização, discute diretamente com ele as estratégias e posteriormente as repassa para o testo do grupo. É dela que saem as primeiras ordens, depois do irmão e capo D. Dantas, repassa para os demais membros. Seria uma espécie de subchefe central da organização, figura sócia gerente e cotista em mais de 2 centenas de empresas vinculadas ao Grupo Opportunity." Carlos Bernardo Torres Rodemburg: "Ex-marido de Verônica, é um dos operadores do grupo." Arthur Joaquim de Carvalho: "Cunhado do líder da organização, controla toda a parte de investimentos e reestruturação dos negócios." Dório Ferman: "O capo da organização começou a carreira com ele em uma corretora." Norberto Aguiar Tomaz: "Homem de inteira confiança do cabeça, realiza pagamentos de propinas, controla o caixa 2 do Grupo Opportunity e, na atual conjuntura, tenta reestruturar o fundo de investimento estrangeiro Opportunity Fund, tentado transferir toda a carteira de investidores para um outro, Unique Fund, um fundo novo, sem qualquer passagem no noticiário policial, investigações e livre de qualquer mácula de processos judiciais." Maria Amália Delfim de Melo Coutrin: "Uma espécie de funcionária laranja." Eduardo Penido Monteiro: "Uma espécie de testa-de-ferro." Daniele Silbergleid: "Figura da real importância do grupo, travestida de diretora jurídica do Grupo Opportunity. Atua na ponta com operadores do grupo, está ligada diretamente ao líder da organização criminosa D. Dantas, fornecendo não só conselhos na área jurídica, repassados por outros escritórios de advocacia contratados, mas também estratégias que ultrapassam o limite da legalidade. Conduta esta igualada aos demais integrantes na prática de ilícitos financeiros e cambiais." Itamar Benigno: "Testa-de-ferro." Paulo Moisés: "Contador das empresas do Grupo Opportunity e responsável pela abertura de empresas, alterações e parte contábil." Rodrigo Andrade: "Laranja que já foi muito usado no passado como sócio-cotista de diversas empresas do grupo, inclusive do próprio Banco Opportunity." Humberto Braz: "Já denunciado por corrupção ativa." Guilherme Henrique Sodré: "Vulgo Guiga, integrante de escalão especial, sua conduta será analisada em inquérito separado." Luiz Eduardo Greenhalgh: "O LEG ou Gomes, integrante de escalão especial, sua conduta será analisada em inquérito separado."

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