Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

Relator pede cassação do mandato de Vargas por elo com doleiro

As denúncias contra Vargas fizeram com que o parlamentar renunciasse ao cargo de vice-presidente da Câmara no início do ano

Ricardo Della Coletta, O Estado de S. Paulo

06 de agosto de 2014 | 07h15

BRASÍLIA - O deputado Júlio Delgado (PSB-MG), relator do processo no Conselho de Ética contra André Vargas (sem partido-PR), pediu nessa terça,5,  no Conselho de Ética a perda do mandato do ex-petista, acusado de envolvimento com o doleiro Alberto Youssef.

Após uma tumultuada sessão na tarde dessa terça-feira, em que Vargas e Delgado trocaram acusações, o Conselho de Ética retomou os trabalhos à noite e o pessebista leu seu parecer pela cassação do parlamentar. Caso a maioria dos membros do Conselho aprovem o relatório proposto por Delgado, a perda de mandato de Vargas - que se desfiliou do PT e não disputa a reeleição neste ano - precisará ser chancelada pelo Plenário da Casa. A votação no Conselho de Ética, no entanto, deve ocorrer só nas próximas semanas, uma vez que houve um pedido de vistas conjunta nesta madrugada.

Youssef está preso pela Polícia Federal no âmbito da operação Lava Jato, deflagrada em março e que apura um esquema de lavagem de dinheiro suspeito de movimentar cerca de R$ 10 bilhões. A ligação do deputado com Youssef veio a público quando foi revelado, no início do ano, que ele pegou carona em um jatinho do doleiro. Além do mais, ele é apontado pela Polícia Federal como o responsável por indicar um ex-assessor do Ministério da Saúde para trabalhar no Labogen, laboratório que, de acordo com a PF, centralizava o esquema de lavagem de dinheiro comandado por Youssef. O laboratório havia fechado uma parceria com a pasta para o fornecimento de remédios, operação desfeita após a investigação da PF. Vargas nega ter feito essa indicação.

"Como se vê, o deputado Vargas insere-se no contexto da imensa rede criminosa especializada na lavagem de dinheiro e na evasão de divisas", disse Delgado em seu voto. "O deputado representava, perante a administração pública federal, os interesses das empresas controladas por Alberto Youssef e seus testas-de-ferro. Ora intermediando reuniões, ora cobrando favores, ora abrindo portas, André Vargas foi a pedra de torque que permitiu à Labogen percorrer, sem percalços, todo o iter burocrático necessário para ver aprovada a sua Parceria para Desenvolvimento Produtivo com o Ministério da Saúde", concluiu o socialista.

Em seu voto, Delgado, aliado do candidato do PSB à presidência Eduardo Campos, critica ainda o PT. Sem nomear o partido adversário, ele afirma: "quando se pensava que a engenhosidade do grupo político que atualmente ocupa as posições de governo para o aparelhamento do Estado, a apropriação privada das oportunidades de contratação pública e a perpetração de crimes contra a administração pública e o sistema financeiro havia se exaurido com o esquema debelado na Ação Penal 470 (mensalão), vêm à tona novos fatos que dão conta de que a Hydra de Lerna chamada corrupção está viva e espalhou cabeças pelos mais diversos órgãos da administração pública federal".

Vargas disparou críticas contra a condução da relatoria por Delgado, disse que as acusações se basearam apenas em notícias veiculadas pela imprensa e que todos as declarações das testemunhas ouvidas foram no sentido de absolvê-lo. "A única coisa se que tem contra este deputado e que força a cassação são as notícias de jornais", disse. "Todos os depoimentos corroboraram que não houve tráfico de influência", disse o parlamentar.

O parlamentar também queixou-se que não foi convocado a depor no colegiado, que tinha arrolado testemunhas que ainda precisavam ser ouvidas e que seu direito de defesa estava sendo cerceado. "Não houve quebra de decoro parlamentar", disse. Delgado, por sua vez, afirmou que o ex-petista foi chamado a prestar esclarecimentos por diversas vezes, sem nunca comparecer. Para o relator, a defesa de Vargas tem agido no sentido de protelar o processo.

Pressão. As denúncias contra Vargas fizeram com que o parlamentar, ainda no início do ano, renunciasse ao cargo de vice-presidente da Câmara. Ele também foi pressionado pelo PT a abrir mão do mandato para evitar danos às campanhas pela reeleição da presidente Dilma Rousseff, do ex-ministro da Saúde Alexandre Padilha ao governo de São Paulo e da ex-ministra da Casa Civil Gleisi Hoffmann ao governo do Paraná. Isolado, ele pediu a desfiliação do partido, mas não renunciou ao mandato. 

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