Relator da CPI quer investigação sobre Gurgel

A pedido do PT, Odair Cunha pede que Conselho Nacional do Ministério Público apure por que ele suspendeu ação da PF contra Demóstenes em 2009

Eugênia Lopes e Ricardo Brito, de O Estado de S. Paulo,

21 de novembro de 2012 | 00h55

BRASÍLIA - O relator da CPI do Cachoeira, deputado Odair Cunha (PT-MG), cedeu à pressão da cúpula petista e propôs que o Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP) investigue o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, que sustentou a denúncia do processo do mensalão no Supremo Tribunal Federal. O texto também pede o indiciamento do jornalista Policarpo Junior, redator-chefe da revista Veja, e outras 45 pessoas, incluindo o governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB), e o prefeito de Palmas, Raul Filho (PT).

 

No relatório, o deputado afirma que Gurgel suspendeu "sem justificativa" as investigações da Operação Vegas, ação da Polícia Federal iniciada em 2009 que apontou os primeiros indícios de ligação do contraventor com parlamentares, entre eles o senador cassado Demóstenes Torres (sem partido-GO). O procurador-geral informou à comissão que decidiu parar as investigações da Vegas para encontrar elementos mais fortes da atuação de Cachoeira. Segundo Gurgel, isso só ocorreu quando foi deflagrada a Operação Monte Carlo, que prendeu Cachoeira em 29 de fevereiro. Ontem, ele obteve o direito de deixar a prisão.

 

Entretanto, o relator sustenta que as duas operações têm origens distintas, não havendo motivo para a paralisação da Vegas. "Não estou afirmando nada, estou colocando essa questão do PGR na pauta. Ele precisa se explicar", afirmou Cunha ao Estado. O deputado apresenta hoje seu parecer, que só irá à votação na semana que vem.

Alvos. Desde o início da CPI, Gurgel tornou-se alvo dos petistas e do ex-presidente e hoje senador Fernando Collor (PTB-AL). O chefe do Ministério Público foi o responsável por defender a condenação das principais personalidades do PT no mensalão, como o ex-ministro José Dirceu. Incentivado pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a comissão foi idealizada para tentar neutralizar o julgamento no STF. O relator nega ter sido pressionado a incluir Gurgel no relatório.

 

Cunha pediu o indiciamento do jornalista Policarpo Junior por formação de quadrilha, sob a alegação das relações "constantes e permanentes" com Cachoeira. As conversas entre o jornalista e o contraventor levaram à produção de reportagens publicadas na revista. "Todas as pessoas que, de alguma forma, contribuíram em favor dos interesses da quadrilha tiveram o pedido de indiciamento. E ele (Policarpo Junior) sabia dos interesses da quadrilha", afirmou Cunha. O Estado não localizou o jornalista ontem, mas a revista já afirmou que Cachoeira era apenas uma fonte do jornalista.

 

No texto, o relator da CPI sugere o indiciamento de Perillo por seis crimes, entre eles corrupção passiva e formação de quadrilha. Para Cunha, o esquema de Cachoeira estava incrustado no governo do tucano. Oito pessoas ligadas a Perillo, entre secretários, ex-secretários e assessores, tiveram o indiciamento pedido.

 

O relatório de 5 mil páginas livrou o governador do Distrito Federal, Agnelo Queiroz (PT). Havia a suspeita de que o governo de Brasília havia favorecido a empreiteira Delta, ligada a Cachoeira, em contrato para a coleta de lixo. Outro governador excluído do texto final é Sérgio Cabral (PMDB-RJ).

Cunha destacou no relatório que Cachoeira mantinha empresas-fantasmas que receberam R$ 98 milhões da Delta. A comissão, contudo, não conseguiu rastrear o destino da maior parte desse dinheiro - uma das suspeitas era o pagamento de propina a políticos. Ele pediu o indiciamento por lavagem de dinheiro e formação de quadrilha de Fernando Cavendish, dono da empreiteira, e a investigação de diretores da construtora.

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