DIDA SAMPAIO/ESTADÃO
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CPI da Covid inclui Pazuello, Queiroga e outras 12 pessoas em lista de investigados

Em um gesto de protesto contra o depoimento de dois médicos que defendem o chamado ‘tratamento precoce’ contra a covid-19, senadores esvaziaram a sessão desta sexta-feira, 18

Daniel Weterman e Amanda Pupo, O Estado de S.Paulo

18 de junho de 2021 | 11h52
Atualizado 18 de junho de 2021 | 21h25

BRASÍLIA – Em nova etapa após quase dois meses de funcionamento, a CPI da Covid transformou 14 testemunhas em investigados, sendo a maioria dos nomes ligada ao presidente Jair Bolsonaro. Anunciada nesta sexta-feira, 18, pelo relator da CPI, senador Renan Calheiros (MDB-AL), a lista inclui o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga; o general Eduardo Pazuello, ex-titular da pasta e o ex-chanceler Ernesto Araújo, além de integrantes do chamado “gabinete paralelo”, núcleo de assessoramento do presidente na condução da pandemia.

A investigação representa uma derrota para o governo na CPI e expõe a estratégia para responsabilizar Bolsonaro pelo descontrole da pandemia do novo coronavírus, que está prestes a atingir a marca de 500 mil mortes. Renan afirmou que avalia incluir o próprio presidente como investigado. Para integrantes da CPI, a crise sanitária no Brasil se agravou porque Bolsonaro incentivou o tratamento com medicamentos sem eficácia comprovada, como a cloroquina, apostou na imunidade de rebanho e promoveu aglomerações. 

“Nós estamos numa situação difícil porque tem um louco na Presidência da República, que todo dia atenta contra os brasileiros”, disse Renan. “Se pudermos investigar, se a competência nos permitir, vamos investigar, sim. Não podendo, a CPI vai ter de responsabilizá-lo porque diante de provas não há como não responsabilizar. Seria um não cumprimento do nosso papel”.

Na prática, quando alguém passa da condição de testemunha para investigado significa que a CPI já levantou indícios e provas que podem responsabilizar sua atuação na pandemia. Ao mesmo tempo, em novo depoimento, o investigado pode ficar em silêncio para evitar produzir provas contra si mesmo.

Renan abandonou a sessão da CPI e anunciou fora da sala a lista com os 14 nomes investigados. Em um gesto de protesto ao depoimento de médicos que defendem o tratamento precoce contra covid-19, o relator e outros senadores do G-7, grupo que inclui parlamentares de oposição e independentes, decidiram se retirar.

Enquanto governistas ouviam o infectologista Ricardo Zimerman, um dos apontados como integrante do “gabinete paralelo”, Renan falava com os repórteres. Apesar de esvaziada com o boicote da oposição, a CPI também ouviu o médico Francisco Cardoso Alves, outro defensor de cloroquina.

“Eu não tenho o que perguntar”, disse Renan, ao sair da sala. “Não tem o que não lhe interessa”, devolveu o senador Luiz Carlos Heinze (Progressistas-RS), aliado de Bolsonaro.

O relator justificou a inclusão de Queiroga na lista de investigados sob o argumento de que o ministro “mentiu muito” ao depor. “Ele teve participação pífia e ridícula na CPI”, resumiu. Renan também citou documentos enviados pelo Itamaraty, mostrando que Queiroga tentou “vender o tratamento precoce e a cloroquina” em reunião no dia 3 de abril, por teleconferência, com o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus.

Aos senadores, porém, o titular da Saúde admitiu que os medicamentos não são eficazes contra covid-19. “Ele finge que é ministro, defende o uso de máscara e o presidente diz que ele estará obrigado a fazer um decreto minimizando o uso de máscara”, criticou Renan. De acordo com o senador, Queiroga levou um “puxão de orelha” da OMS ao cobrar agilidade no envio de vacinas ao Brasil após o Ministério da Saúde ter atrasado os pedidos, no ano passado, e optado por comprar imunizantes para 10% da população no consórcio Covax Facility.

O empresário Carlos Wizard e o ex-assessor especial da Presidência Arthur Weintraub também entraram na lista dos investigados da CPI. Os dois são apontados como integrantes do gabinete paralelo, que, segundo a comissão parlamentar de inquérito, aconselhava Bolsonaro a investir primeiro em medicamentos sem eficácia contra covid-19, deixando de lado a compra de vacinas.

Wizard deveria ter comparecido anteontem à CPI, mas faltou, sob a alegação de estar em viagem aos Estados Unidos. A Justiça Federal de Campinas autorizou a apreensão do passaporte do empresário depois que a Polícia Federal fez buscas no seu escritório, mas não o encontrou. O ministro do STF, Luis Roberto Barroso, autorizou a condução coercitiva do empresário. 

Ao prestar depoimento, Pazuello disse que Wizard ajudou muito o governo com ações para enfrentar a pandemia. O ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta confirmou, por sua vez, que Bolsonaro contava com um aconselhamento de fora nessa área. Logo que foi convocado, o empresário pediu para ser ouvido por videoconferência, mas não foi atendido. O presidente da CPI, Omar Aziz (PSD-AM), decidiu acionar a Justiça para a condução coercitiva e a apreensão do passaporte de Wizard.

“O que eles estão fazendo, porque têm dinheiro, é uma espécie de turismo de impunidade”, atacou Renan, numa referência ao empresário e a Arthur Weintraub. “Viajam para o exterior para driblar o prazo da CPI. Isso, evidentemente, põe obstáculos no caminho da investigação, mas nós não vamos concordar que essas coisas aconteçam”.

O vice-presidente da CPI, Randolfe Rodrigues (Rede-AP), contou que o ex-governador do Rio Wilson Witzel afirmou ter sido ameaçado. Witzel depôs na última quarta-feira. Disse que os hospitais federais do Rio “têm um dono”, mas se comprometeu a revelar nomes somente em sessão secreta.

Veja a lista dos investigados pela CPI da Covid:

  • Elcio Franco: ex-secretário-executivo do Ministério da Saúde. Foi número 2 de Eduardo Pazuello na pasta no período em que o governo é acusado de ter ignorado ofertas de vacinas, incentivado o tratamento precoce e ser omisso na crise de oxigênio em Manaus.

     

  • Arthur Weintraub:  ex-assessor internacional da presidência da República. Apontado como integrante do gabinete paralelo que assessorou Jair Bolsonaro com protocolos contrários a evidências científicas para combater a pandemia.

     

  • Carlos Wizard: empresário. Investigado por ser conselheiro de Bolsonaro e ter atuado como integrante do gabinete paralelo na condução da pandemia do novo coronavírus.

     

  • Eduardo Pazuello: ex-ministro da Saúde. Chefiou a pasta por 10 meses, ocupando o cargo por mais tempo durante a pandemia. Acusado de ter ignorado ofertas de vacinas, incentivado o tratamento precoce e ter sido omisso na crise de oxigênio em Manaus.

     

  • Ernesto Araújo: ex-ministro das Relações Exteriores. Ocupou a pasta no período em que o Brasil recebia oferta de vacinas de fabricantes e autoridades de outros países. Fez críticas à China, principal fonte comercial de oferta de vacinas e insumos.

     

  • Fabio Wajngarten: ex-secretário de Comunicação. Investigado por promover campanha contra o isolamento social e por ter influenciado na demora por compra de vacinas da Pfizer.

     

  • Francieli Fantinato: coordenadora do Programa Nacional de Imunização (PNI). Investigada por gerir o programa de vacinação contra a covid-19 e apontada como responsável por editar nota técnica recomendando a aplicação do imunizante em gestantes.

     

  • Hélio Angotti Neto: secretário de Ciência e Tecnologia do Ministério da Saúde. Investigado por ter atuado para aplicar cloroquina em Manaus no período de colapso do sistema de saúde da capital amazonense. 

     

  • Marcellus Campêlo: ex-secretário de Saúde do Amazonas. Investigado por negligência no tratamento da covid-19 em Manaus durante os picos da doença que levaram a um colapso no sistema de saúde com falta de oxigênio.

     

  • Marcelo Queiroga: ministro da Saúde. Alvo da CPI por dar aval à postura do presidente Jair Bolsonaro pelo tratamento precoce e pelo confronto a Estados e municípios. Também é acusado de ter mentido a falar que tem autonomia na pasta.

     

  • Mayra Pinheiro: secretário de Gestão do Trabalho e Educação do Ministério da Saúde. Conhecida como "capitã Cloroquina", é apontada como uma das principais articuladoras do chamado tratamento precoce, sem eficácia comprovada, para tratar a covid-19 e enviar medicamentos a Estados e municípios.
  • Nise Yamaguchi: médica oncologista. Apontada como integrante do gabinete paralelo do presidente Jair Bolsonaro e autora de uma receita indicando medicamentos sem eficácia comprovada para pacientes de covid-19.

     

  • Paolo Zanotto:  virologista. Apontado como integrante do gabinete paralelo de Jair Bolsonaro. Em setembro, ele sugeriu a formação de um “gabinete das sombras”na condução da crise e questionou a eficácia de vacinas.

     

  • Luciano Azevedo:  anestesista. Citado como responsável pela elaboração de uma minuta de decreto para ampliar o uso da hidroxicloroquina nos casos de contaminação pelo novo coronavírus.

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