André Dusek|Estadão
André Dusek|Estadão

Governo vai redistribuir pastas do PMDB e relação de Dilma e Temer está 'interditada', diz Wagner

Ministro afirma que presidente manterá relação 'educada' com o peemedebista, mas que decisão do partido 'chega em boa hora, porque oferece a Dilma a chance de repactuar o seu governo'

Vera Rosa, Isadora Peron e Gustavo Porto, O Estado de S. Paulo

29 de março de 2016 | 19h35

BRASÍLIA -A saída do PMDB da base aliada do governo agravou a crise política e deixou a presidente Dilma Rousseff mais frágil para enfrentar o processo do impeachment, mas o Palácio do Planalto encerrou o dia tentando passar a mensagem de que tem munição para virar o jogo. O governo intensificou o toma lá dá cá, procurando os partidos aliados para “repactuar a relação” e redistribuir o espólio do PMDB.

Em troca do apoio para barrar o afastamento de Dilma na Câmara dos Deputados, emissários da presidente estão oferecendo cadeiras em ministérios de peso, como Turismo e Esporte, além de postos em empresas estatais e bancos públicos. Pelos cálculos do Planalto, 600 cargos de primeiro, segundo e terceiro escalões ficarão vagos com o rompimento do PMDB e é isso que está na mesa de negociação. A pasta de Esporte era ocupada pelo PRB, que deixou a aliança governista.

“O melhor jeito de buscar votos é ampliar espaço para aliados”, afirmou o ministro-chefe do Gabinete Pessoal da Presidência, Jaques Wagner. “Sai um aliado de longa data, mantêm-se outros.”

Wagner disse que a saída do PMDB da equipe abre caminho para uma “repactuação” com os demais partidos da base do governo no Congresso. Até sexta-feira, o Planalto deve anunciar novos ministros na Esplanada.

O PMDB tem hoje os ministérios de Minas e Energia; Saúde; Ciência e Tecnologia; Agricultura e Pesca; Aviação Civil e Portos. Controlava também Turismo, mas Henrique Eduardo Alves, que chefiava a pasta, pediu demissão anteontem. Alves é próximo do vice-presidente Michel Temer, que comanda o PMDB.

O mapeamento do novo governo, sem o PMDB, foi tema de uma reunião realizada na noite de ontem entre Dilma, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e ministros do núcleo político, no Palácio da Alvorada. Mesmo com a nomeação suspensa na Casa Civil por decisão judicial, Lula tem recebido parlamentares num hotel, em Brasília. Pelos cálculos do Planalto, Dilma precisa fazer tudo para segurar o PP, o PSD, o PR e o PTB – o chamado “centrão” – porque, caso contrário não conseguirá os 171 votos necessários para barrar o impeachment na Câmara.

Mesmo com a situação dramática enfrentada pelo Planalto, Wagner declarou que, a partir de agora, Dilma tem a chance de “começar um novo governo”, embora a relação com Temer esteja “politicamente interditada”. 

‘13 anos em 3 minutos’. Apesar do discurso oficial de normalidade, o governo ficou horas sem saber como reagir, ontem, após o rompimento do PMDB. No Planalto, auxiliares de Dilma diziam que “13 anos de parceria foram embora em 3 minutos”, numa referência ao tempo que durou o encontro do Diretório Nacional peemedebista e à longevidade da aliança com o PT, firmada ainda no governo Lula.

Horas antes do divórcio anunciado, Dilma fez algumas reuniões de emergência. Avisada de que a debandada do PMDB poderia provocar “efeito dominó” na coligação, com fuga de outros aliados, ela conversou com os ministros Gilberto Kassab (Cidades), do PSD; Antônio Carlos Rodrigues (Transportes), do PR; e com o líder do PP na Câmara, Aguinaldo Ribeiro (PB). A todos, pediu ajuda para derrubar o impeachment na Câmara.

Kassab disse que o PSD está dividido e, por isso, a direção liberou os votos dos deputados. O PR foi na mesma linha. Se o afastamento de Dilma for aprovado na Câmara, o PT avalia que será muito difícil deter a “onda” por sua deposição no Senado. Questionado se Temer deveria renunciar para cumprir a decisão do PMDB de deixar o governo, Wagner abriu um sorriso. “Sair do governo é decisão do Temer. Vocês deveriam perguntar a ele se ele vai sair”, respondeu.

O ministro também ironizou o fato de o encontro do PMDB ter durado três minutos. “Eu não sei o que o PMDB queria. Talvez um título no Guinness Book”, provocou. / COLABOROU RICARDO BRITO

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