Relação com vizinhos é alvo de críticas

Garcia, assessor de Lula e vice-presidente do PT, criou situações de tensão, avaliam diplomatas

João Domingos e Denise Chrispim Marin, Brasília, O Estadao de S.Paulo

19 de janeiro de 2009 | 00h00

O Itamaraty dominou a diplomacia brasileira com exclusividade até o início do governo Lula, quando passou a dividir algumas frentes com novos atores. No primeiro mandato, o principal deles foi o assessor de Lula Marco Aurélio Garcia, que, com sua inclinação pela América Latina, cultivou situações de tensão com sua diplomacia cordial com "vizinhos-problema".A política externa sempre foi área de interesse do PT e neste governo, ao contrário da política econômica, tornou-se sua órbita de influência. Garcia é vice-presidente do PT e chegou a ocupar a presidência do partido no fim de 2006 e início de 2007. O trio Celso Amorim, Samuel Pinheiro Guimarães e Garcia dominou o cenário durante quase seis anos, mas nem sempre em total harmonia. Além do episódio em que Garcia desqualificou o exército de Israel, várias investidas dele acabaram em desastre - como o apoio à eleição de Evo Morales, na Bolívia, em 2005 - e tiveram de ser consertadas pela diplomacia.Agora, sob o olhar compassivo do presidente Lula, Mangabeira Unger sugere um quarteto ainda menos harmonioso. Ao propor a construção de uma cooperação mais efetiva entre Brasil e Estados Unidos nas áreas de defesa, de educação e de biocombustíveis, entre outras, o ministro colocou em pauta uma posição de inflexão na política seguida pelo Itamaraty."As ideias de Mangabeira nessa área trazem lucidez para dentro do governo. Mas, curiosamente, não deixam de ser uma grande contradição em relação à linha seguida, com o aval do presidente Lula", avaliou o embaixador Rubens Barbosa, presidente do Conselho de Comércio Exterior da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).Sob a ordem de Amorim de não provocar confusões internas no governo, a diplomacia apenas observa as investidas de Mangabeira no plano internacional. Foi assim, por exemplo, durante sua visita oficial à Rússia, França, Áustria, Israel e Ucrânia, em novembro, em busca de cooperação nas áreas de defesa, educação, agricultura, tecnologia e ciência.Embora não ponha fé nos resultados práticos dessas ações, o Itamaraty está atento para o caso de Mangabeira pisar em alguma mina diplomática.Em 2005, o Itamaraty agiu da mesma forma quando o então ministro da Casa Civil, José Dirceu, tentou abrir um canal direto com a secretária de Estado, Condoleezza Rice - autoridade americana a quem Amorim, publicamente, se refere como Condee.Para uma fonte do governo, a ideia de que Mangabeira terá mais acesso à administração de Obama porque foi seu professor em Harvard é "puro mito". Conforme essa análise, Mangabeira aproveita-se do fato de que não interessa nem ao Brasil nem aos EUA complicar a agenda bilateral.

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