Jussara Soares/Estadão
Jussara Soares/Estadão

Relação com Brasil não pode ser abalada por irresponsáveis, diz porta-voz da Embaixada da China

Ministro-conselheiro Qu Yuhui se referiu ao deputado Eduardo Bolsonaro e ao ministro Abraham Weintraub, que fizeram críticas consideradas racistas ao país nas redes sociais

Jussara Soares, O Estado de S.Paulo

10 de abril de 2020 | 17h51
Atualizado 10 de abril de 2020 | 20h14

BRASÍLIA – O porta-voz da Embaixada da China no Brasil, o ministro-conselheiro Qu Yuhui, disse, nesta sexta-feira, 10,  que a relação entre os dois países não será facilmente abalada por “um ou dois indivíduos irresponsáveis”, se referindo ao deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do presidente Jair Bolsonaro, e ao ministro da Educação, Abraham Weintraub. Ambos usaram as redes sociais para fazer críticas consideradas xenófobas e racistas ao país asiático. 

Em videoconferência com jornalistas brasileiros, o porta-voz afirmou que esse tipo de declaração não favorece o ambiente de negócios e de cooperação. “Não são favoráveis à manutenção de um bom ambiente de negociação e cooperação entre dois países. Por outro lado, as relações entre Brasil e China são muito maduras. Essa parceria é um trabalho de várias gerações, de muitos esforços de muitas pessoas dedicadas a essas causas que não vai ser abalada ou danificada facilmente por um ou dois indivíduos irresponsáveis”, disse. 

O  ministro-conselheiro reforçou que a China segue sem compreender a razão dos comentários “lamentáveis e irresponsáveis”. “Até hoje não conseguimos entender por que eles fizeram este tipo de declarações. Ou é pela ignorância, ou é por outras intenções que não sabemos quais são. Como figuras públicas, eles devem ter uma noção do peso da responsabilidade.”

Weintraub usou redes sociais no sábado, 4, pra fazer insinuações sobre supostos benefícios que a China teria com a crise do coronavírus. O ministro usou o jeito de falar do personagem Cebolinha, criado por Maurício de Sousa, que troca o r pelo l. A intenção do ministro era ridicularizar o fato de alguns chineses, quando falam o português, também trocarem o som das letras

No texto, Weintraub insinuou que a pandemia da covid-19 seria um plano infalível chinês para dominar o mundo. Depois da repercussão negativa, ele apagou a mensagem. 

Eduardo culpou China pela disseminação do coronavírus

No fim de março, Bolsonaro conversou com presidente da China, Xi Jinping, após Eduardo ter culpado o país pela disseminação do coronavírus. “Quem assistiu Chernobyl vai entender o que ocorreu. Substitua a usina nuclear pelo coronavírus e a ditadura soviética pela chinesa. Mais uma vez, uma ditadura preferiu esconder algo grave a expor, tendo desgaste, mas que salvaria inúmeras vidas. A culpa é da China e liberdade seria a solução”, escreveu o deputado ao compartilhar postagens acusando o governo chinês pela pandemia. 

Segundo o Ministério da Economia, o fluxo de comércio (exportações e importações do Brasil com a China é de cerca de US$ 100 bilhões. Os chineses respondem por 27,8% das exportações e 20% das importações, o primeiro país tanto nas vendas como nas compras. O superávit para o Brasil é de US$ 30 bilhões. 

“Nossas economias são muito complementares. Temos necessidades cotidianas e estratégicas para fomentar a nossa cooperação. Mas isso requer um cuidado, um carinho muito especial. Temos que colocar tijolos nessa parceria, em vez de tirar os alicerces desse edifício”, disse o porta-voz.

Um estremecimento nas relações com o país asiático alerta líderes do agronegócio brasileiro, que recentemente pediu cautela e pacificação na relação dos dois países diante das incertezas causadas pelo avanço da pandemia do coronavírus. 

Na conversa com os jornalistas, o porta-voz chinês disse ainda que as declarações do filho do presidente e do ministro da Educação alimentam “um certo sentimento anti-China, racista ou xenófobo contra China” que já existiu.  

Qu Yuhui afirmou que a parceria entre China e Brasil será importante não apenas para superar o novo coronavírus, mas, sobretudo, para depois que a pandemia for superada.  “A parceria continuará sendo importante para os dois lados. Por isso lamentamos só querem atrapalhar”, disse.

O Estado procurou Eduardo Bolsonaro e Weintraub, mas até a publicação deste texto eles não haviam se manifestado.

Apesar do estremecimento diplomático, a China, segundo o porta-voz, seguirá cooperando com o Brasil no enfrentamento ao coronavírus, mantendo contato com o Itamaraty e o Ministério da Saúde.  No último dia 7, o ministro Luiz Henrique Mandetta procurou a embaixada chinesa para pedir um esforço comum para a entrega de equipamentos médicos.  

O ministro-conselheiro disse que médicos chineses estão em contato com médicos brasileiros trocando experiência sobre atuação na pandemia, bem como recebendo demandas do governo federal e dos estados brasileiros. Ao todo, o governo da China já ofereceu ajuda a 127 países e  quatro organizações internacionais, incluindo o envio de equipes médicas para 11 países.

Principal fornecedor de equipamentos de proteção individual (EPIs) e respiradores do mundo,  a China, segundo o porta-voz,  está trabalhando com sua capacidade máxima de produção para tentar atender aos pedidos de vários países.  “O maior desafio agora é alcançar o equilíbrio entre demanda e a oferta. Até agora 58 países que fecharam acordo de aquisição com empresas chinesas”, disse Qu Yuhui.

Segundo o porta-voz, o governo chinês está indicando fornecedores confiáveis e atuado para que os produtos não sejam desviados para que empresas tenham lucros especulativos. Entretanto, destacou que o governo não pode interferir nas negociações comerciais e  admitiu que compradores podem oferecer vantagens para arrematar os produtos.

“O governo não tem como interferir na relação entre fornecedor, comprador ou intermediários. Não sabemos quais os temos de contrato.  A nossa recomendação é uma negociação cautelosa porque a corrida por materiais é muito grande. Tem compradores que podem oferecer vantagens, pagamento antecipado, facilitação na logística, por exemplo”, disse.

‘Não vejo com bons olhos afrouxamento de isolamento’, diz porta-voz chinês

As medidas de afrouxamento do isolamento social que começam a ser adotadas em diversos Estados brasileiros foram criticadas pelo porta-voz da Embaixada da China no Brasil. Em videoconferência com jornalistas na tarde desta sexta-feira, 10, o ministro-conselheiro Qu Yuhui disse ainda que a China é cautelosa com o uso da cloroquina, que usada apenas em testes clínicos enquanto não há dados sobre a segurança e eficácia do medicamento. 

No Brasil, o presidente Jair Bolsonaro tem incentivado que a população retome suas atividades para evitar um colapso na economia. O chefe do Executivo também defende o uso da cloroquina para o tratamento de casos da covid-19, mesmo sem estudos conclusivos.

“Pelo lado chinês, somos cautelosos ao uso de certo medicamento que não tem 100% de segurança e 100% de que é eficiente. No caso de cloroquina, ela está sendo usada em teste, mas ainda não está sendo aplicado no tratamento clínico.”

O diplomata disse que, embora a China começa a retomar suas atividades após três meses de isolamento, ainda “não é hora de relaxar”, pois há o receio de uma segunda onda de contaminação por coronavírus e casos importados. “Portanto, eu, pessoalmente, não estou olhando com bons olhos as medidas de afrouxamento tomadas por alguns estados no Brasil, porque aqui a curva ainda está em ascensão. Não é hora de afrouxar. Lá na China continuamos fazer enormes esforços”, disse.

Segundo o porta-voz, o isolamento é fundamental para ganhar tempo pra conhecer melhor a pandemia. O fechamento da cidade de Whuan, onde os primeiros casos foram registrados, foi fundamental para evitar que a contaminação se espalhasse rapidamente pelo mundo, disse o diplomata. Na entrevista, ele negou que a China tenha negado informações sobre a doença. 

“Temos que estar preparado para o pior para que possamos tentar conseguir o melhor. Ou seja, estamos diante de uma doença perigosa e desconhecida. Talvez a gente só conheça 10% dessa doença. Neste tipo de circunstância, cuidado nunca é demais”, pontuou.

Sem comentar as ações do governo Bolsonaro no controle da pandemia, o porta-voz disse que cabe aos governos adotar medidas de quarentena e equilibrar ações para manter o desenvolvimento-econômico e social.

“A população tem muito a contribuir, tem que tem um senso de disciplina e sacrifício para vencer pandemia, Não adianta 90% fazer quarentena, e 10% não fazer. Isso só vai arruinar os esforços do restante da população”, disse.

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