'Relação bilateral vai além dos governos'

Para diplomata, mérito da visita de Dilma a Obama é criar 'carta de navegação' para cooperação mútua e permanente entre países

ELIANE CANTANHÊDE / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

04 de julho de 2015 | 02h02

A embaixadora dos Estados Unidos no Brasil, Liliana Ayalde, disse que a viagem da presidente Dilma Rousseff a Washington gerou uma "carta de navegação" para os dois países trabalharem juntos em vários temas e avaliou que as crises internas brasileiras não atrapalham em nada: "Há um momento difícil, mas nós acreditamos nas instituições brasileiras e acreditamos no Brasil". Leia os principais trechos da entrevista.

Qual o balanço da viagem?

Muito positivo, superou todas as expectativas, porque se conseguiu fazer muito e elevou a parceria a outro patamar. Como o próprio presidente Obama disse, abriu um novo capítulo nas relações, ainda mais avançado do que nós já tínhamos antes.

Por quê?

Porque apontou para o futuro. Isso era necessário. No último ano e meio, as coisas de governo a governo e as trocas a nível político estavam lentas e não avançavam. Então, o fato de os dois presidentes se reunirem e olharem para o futuro, para o real potencial das nossas relações, é muito importante.

Quais os setores principais?

As duas equipes trabalharam arduamente e conseguimos acordos e memorandos de entendimento que são a moldura para cooperação em várias áreas, como em Defesa, por exemplo. Tínhamos dois acordos que estavam parados, e a presidente pediu para o ministro articular a aprovação no Congresso e eles foram aprovados e ratificados em tempo recorde. Os dois acordos são o de cooperação em Defesa e o que vai permitir a troca de informações classificadas entre as nossas Forças Armadas.

E além da Defesa?

Vamos retomar agora diferentes acordos e garantir avanços em comércio, educação, tecnologia, inovação, energia, agricultura.

Para se chegar ao futuro e a essa relação madura, não é preciso discutir também o passado, as dificuldades a partir da denúncia de espionagem da NSA?

Os dois presidentes conversaram sobre tudo, mas disseram que é o momento de olhar o futuro. Há um reconhecimento do que houve, do que foi, mas é preciso concentrar as energias para trabalhar melhor o nosso grande potencial.

Do que foi acertado, o que terá efeito mais imediato?

Por exemplo, na agricultura. Nossos dois países são os mais importantes produtores agrícolas do mundo e já está publicado o acordo para a liberação da exportação de carne brasileira fresca e congelada para os EUA. Só falta afinar os detalhes.

E na questão dos vistos, que desperta grande interesse aqui?

Já há especialistas trabalhando para por em prática o Global Entry, que os EUA abrem para muito poucos países e que facilita muito o processo de entrada de viajantes mais frequentes, que já têm visto e são geralmente empresários. Acho que isso pode estar já funcionando no primeiro semestre do próximo ano, mas pode até ser antes.

E pode acelerar a discussão sobre vistos de turistas comuns?

Nós relançamos o grupo de trabalho consular que trata de vistos, mas isso é um tema maior, que depende de requisitos legais, mais complicados. De toda forma, já manifestamos o interesse de retomar as discussões.

Obama vem para a Olimpíada? Vai vestir o agasalho verde amarelo que ganhou da Dilma?

Bem, ele mesmo disse que depende. Se o jogo for contra os EUA, aí, não. A presidente disse a ele que o vice Joe Biden veio para a Copa e agora é a vez de ele vir para a Olimpíada. Há, sim, a possibilidade de ele vir. Há interesse, vamos ter uma grande participação, com mais de mil atletas. Vamos ver.

O fato de Dilma estar enfrentando crises graves não dificulta os efeitos concretos da visita?

A visita é o começo de um novo capítulo, não o final. Observamos o momento difícil que o Brasil está atravessando na política, na economia, mas nós também atravessamos momentos difíceis em 2008 na economia e nós acreditamos nas instituições brasileiras e acreditamos no Brasil. Então, nossa visão não é de curto prazo, mas de médio e longo prazo.

Não é relação só governo a governo, mas de Estado a Estado.

É isso, de Estado a Estado. A situação é séria, mas, nas áreas de trabalho e no que nos compete, vamos continuar, independentemente do que esteja acontecendo, porque são benefícios para nossos dois países e nossos dois povos.

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