Registros apontam encontros de 21 políticos investigados na Lava Jato com direção da Petrobrás

Ao todo foram 121 visitas, a maioria do deputado Aníbal Gomes a Paulo Roberto Costa, um dos delatores da operação 

Beatriz Bulla e Talita Fernandes, O Estado de S. Paulo

22 de junho de 2015 | 22h41

BRASÍLIA - Registros de entrada e saída do edifício-sede da Petrobrás no Rio de Janeiro, solicitados por investigadores da Operação Lava Jato, apontam encontros de parlamentares investigados por suposta participação no esquema com o ex-diretor da petroleira Paulo Roberto Costa e outras autoridades, inclusive com a ex-presidente da estatal, Graça Foster.

A Polícia Federal solicitou os registros da portaria do prédio a partir de 2007. Não foram verificados dados do escritório da estatal em Brasília. Os investigadores analisaram o registro de entrada dos 39 investigados no inquérito que corre perante o Supremo Tribunal Federal (STF) para investigar suposta formação de quadrilha. No total, dos investigados, 21 políticos estiveram na sede da estatal em 124 visitas.

A investigação aponta mais de 45 registros de entrada do deputado federal Aníbal Gomes (PMDB-CE). O parlamentar é apontado pelo ex-diretor de Abastecimento da Petrobras Paulo Roberto Costa, um dos delatores da Operação Lava Jato, como um "interlocutor" do presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), no contato com a diretoria da estatal. A maioria dos encontros de Gomes foi com o próprio Paulo Roberto Costa.

Gomes se reuniu também com o ex-diretor Néstor Cerveró, com o ex-gerente executivo de Comunicação Institucional da estatal Wilson Santarosa e com o ex-diretor José Alcides Santoro. Não foram encontrados registros de entrada de Renan Calheiros no período analisado.

Depois de Aníbal Gomes, o político investigado no inquérito relativo a formação de quadrilha que esteve mais vezes na Petrobras foi o deputado Eduardo da Fonte (PP-PE), que tem 12 registros de entrada no prédio da estatal, onde esteve reunido com Paulo Roberto Costa. O parlamentar do PP também se encontrou com o ex-gerente da estatal Pedro Barusco, que já confessou ter recebido propinas em contratos da Petrobras com empreiteiras, além de ter se reunido segundo os registros com o ex-presidente da empresa José Sérgio Gabrielli e com o ex-gerente Djalma Rodrigues.

Foram contabilizados ainda no prédio da empresa dez registros de entrada do senador Ciro Nogueira (PP-PI) com visitas a Paulo Roberto, Djalma Rodrigues, Barusco e também à ex-presidente da estatal Graça Foster. Também foram registradas dez entradas do deputado José Otávio Germano (PP).

O lobista Fernando Baiano esteve cinco vezes no prédio da estatal, sendo que os investigadores destacam um encontro com Paulo Roberto Costa no qual ele estaria representando a empresa Iberbras. "É possível que se trate da empresa Iberbras Integración de Negócios Y Tecnologia S.A., citada na denuncia do MPF como uma das destinatárias dos pagamentos oriundos da offshore Piemon Investment Corp, no Banco Winterbothan, no Uruguai, de propriedade de Julio Camargo", escrevem um agente e um escrivão da PF que analisaram o material. 

O senador Edison Lobão (PMDB-MA) esteve no prédio como ministro de Minas e Energia duas vezes, uma com Gabrielli e outra com Graça. Mais dois senadores peemedebistas estiveram no prédio da Petrobras: Romero Jucá (RR), cinco vezes, e Valdir Raupp (RO), três vezes.

PP. Vários parlamentares e ex-parlamentares do PP investigados frequentaram a Petrobras. O deputado do PP e ex-ministro Aguinaldo Ribeiro (PB) teve duas entradas para falar com Paulo Roberto Costa. Também foram duas vezes ao prédio da Petrobras no Rio o senador do PP Benedito de Lira (AL), o deputado do partido Jerônimo Goergen (RS) e o ex-deputado da sigla, Luiz Argôlo . O ex-deputado do PP João Pizzolatti entrou três vezes na Petrobras.

Entraram uma vez no prédio os deputados do PP Arthur de Lira (AL); Waldir Maranhão (MA); Luiz Fernando Faria (MG), Nelson Meurer (PR), Roberto Egídio Balestra (GO), Simão Sessim (RJ) e os ex-deputados do partido Pedro Corrêa e Pedro Henry.

Também do PP, a ex-deputada Aline Corrêa tem registro de entrada na refinaria de Abreu e Lima, em Pernambuco. Já os deputados Sandes Júnior (GO) e Luiz Carlos Heinze (RS) têm cadastro na sede da estatal, mas não possuem registro de entrada. Não foram encontrados registros de entrada dos demais investigados, caso, por exemplo, de Calheiros e do ex-tesoureiro do PT João Vaccari. 

Outro lado. O advogado do deputado federal Aníbal Gomes não atendeu a ligação da reportagem. Já o responsável pela defesa de Eduardo da Fonte (PP), Hamilton Carvalhido, afirmou que o cliente esteve em vários dias na Petrobras para tratar de assuntos do interesse dos eleitores dele e foram "visitas institucionais".

Marcelo Bessa, advogado de José Otávio Germano e de Luiz Fernando Faria, ambos do PP, afirmou que os clientes já prestaram os devidos esclarecimentos sobre o assunto. O advogado Nélio Machado, que defende Fernando Soares, conhecido como Fernando Baiano, afirmou que o fato de o cliente nunca negou conhecer pessoas da Petrobras e o fato de ter entrado na estatal não é comprovação de irregularidade.

O advogado Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, disse que seus clientes visitaram a Petrobrás para tratar de assuntos de interesse dos Estados que eles representam e que as visitas foram confirmadas pelos parlamentares nos depoimentos prestados à Polícia Federal. "A Petrobrás ainda não era um ser que passava câncer para quem a visitava. Ela não era leprosa. Naquela época nós estávamos falando da maior empresa do Brasil", disse. Kakay atua na defesa dos senadores Ciro Nogueira (PP-PI), Romero Jucá (PMDB-RR) e Edison Lobão (PMDB-MA).

O advogado do deputado Aguinaldo Ribeiro (PP-PB), o criminalista Roberto Podval, disse à reportagem que a quantidade de vezes que o deputado foi à Petrobrás "só demonstram a sua inocência". "Durante todo esse período ele só foi duas vezes", disse. Segundo o advogado, uma das visitas foi feita para manter os serviços de um porto na Paraíba e outra para apresentar um projeto para que a mão de obra de seu Estado fosse aproveitada em uma unidade da Petrobrás, projeto que não foi para frente. Os demais advogados não foram localizados em razão do horário.

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