Região é palco de conflitos entre índios, garimpeiros e desmatadores

Colniza, no Mato Grosso, registrou ao menos nove mortes de integrantes do MST na última quinta-feira (20)

José Maria Tomazela, O Estado de S. Paulo

22 de abril de 2017 | 14h27

O município de Colniza, no extremo noroeste do Mato Grosso, está numa região marcado por conflitos entre fazendeiros, índios, trabalhadores rurais, madeiros e garimpeiros. Cercado por reservas indígenas, como a Roosevelt, dos índios cinta-larga, e Tenharim-Marmelos, dos tenharins, quatro grandes parques nacionais – Juruena, Campos Amazônicos, Jaru e Aripuanã -, além de três reservas estaduais, o município nasceu de um projeto da empresa Colniza Colonização, que deu o nome à cidade.

Em 1986, quando se tornou município, concentrava três garimpos de ouro, e atraía aventureiros de todo o País. A chegada de fazendeiros e madeireiros incluiu o município no chamado “arco de fogo”, o grande cinturão de desmatamento que avança em direção à floresta amazônica. Nos últimos cinco anos, Colniza foi o município com maior registro de desmatamento no Mato Grosso, com 54,8 mil hectares derrubados, segundo a Secretaria Estadual de Meio Ambiente.

Em 2004, com 27,9 mil habitantes, Colniza registrou 165,3 mortes por 100 mil habitantes e foi considerado o mais violento do País. O isolamento é a marca da cidade, distante 1.065 de Cuiabá, capital do Estado. A gleba Taquaruçu do Norte, onde os nove assentados foram assassinados na quinta-feira (20), fica a 200 quilômetros da sede urbana, mais próxima da divisa com Rondônia e sob a influência de Porto Velho, capital desse Estado.

Os assentados chegaram ao local quando as áreas eram inóspitas, levados pelo projeto de colonização do governo federal, na década de 1980. Atrás deles vieram os garimpeiros e, assim que estradas precárias foram abertas, os madeireiros. A derrubada das matas atraiu criadores de gado e produtores de soja que passaram a adquirir as glebas de colonização. Os conflitos foram inevitáveis.

Em abril de 2004, na Reserva Roosevelt, área vizinha, 29 garimpeiros foram assassinados pelos índios cinta-largas num garimpo de diamante, às margens do Rio Roosevelt. Eles haviam invadido a terra indígena. Em junho do mesmo ano, o assentamento Taquaruçu foi atacado por homens armados que destruíram as plantações, incendiaram barracos e ameaçaram as 185 famílias.

Ainda em 2004, em agosto, a Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag) denunciou uma onda de crimes contra assentados e trabalhadores rurais em Colniza, durante reunião da Comissão Nacional de Combate à Violência com a Ouvidoria Nacional do Incra, em Cuiabá. Dois dias depois, no distrito de Guariba, foi assassinado a tiros de armas calibre 9 mm, de uso restrito, o casal Josias Paulino de Castro e Ireni da Silva Castro.

Em 2007, dez trabalhadores foram vítimas de tortura e cárcere privado durante nova invasão do assentamento por capangas de madeireiros. Os agricultores João Pereira de Andrade e Olivar Ferreira Melo foram assassinados – os crimes foram atribuídos à ação dos pistoleiros.

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