Reforma ou mudança, vai ter que acontecer

Helena Chagas*

O Estado de S. Paulo

20 de março de 2015 | 17h31

Seja qual for o nome que se dê, se vamos chamar de reforma ministerial ou de alterações pontuais, as mudanças virão porque são inevitáveis. Por mais que resista às investidas de  aliados e do próprio partido - e as informações são de que anda resistindo bastante -  a presidente Dilma Rousseff sabe qual é o dever de casa a fazer para assegurar que haverá futuro: dar mais espaço ao PMDB e reconstruir o núcleo de articulação política do governo. De uma forma ou de outra, mais dia, menos dia, ela o fará. 

A operação de reaproximação com os peemedebistas aliás, está em pleno curso e vai de vento em popa. Maior prova disso foi a demissão-relâmpago do ministro da Educação, Cid Gomes, nesta quarta, pedida, obtida e anunciada em pouco mais uma hora pelo presidente da Câmara, Eduardo Cunha, com quem o ministro acabara de bater-boca no plenário.  

Nove entre dez peemedebistas sabem também que mais espaço virá nos próximos dias com a nomeação do ex-deputado Henrique Alves para o Ministério do Turismo ou da Integração. Alforriado da Lista de Janot, Alves presidiu a Casa e é ligado a Cunha. Sua principal missão no governo será cuidar do sucessor do outro lado da rua. 

Outra figura chave na votação do ajuste fiscal, o presidente do Senado, Renan Calheiros, tem hoje a paternidade do ministro do Turismo, Vinicius Lages, mas não deve ficar no prejuízo. Ou migra para a Integração, ou obtém compensação no segundo escalão. 

Para a presidente Dilma, a parte mais difícil da  mudança vai ser em casa. É grande a pressão por alterações profundas na cozinha do Planalto, substituições que iriam além do atual ministro da Articulação Política, Pepe Vargas - que vem sendo injustamente usado como bode expiatório das desgraças políticas que se abateram sobre o governo. Afinal, lembram os mais sensatos, o sujeito está no cargo há menos de três meses e não pode ser responsabilizado por tudo de ruim. 

Se há uma rara convergência hoje entre PMDB e  PT é a de que o principal responsável pelos estragos seria o ministro chefe da Casa Civil, Aloísio Mercadante. Apontam a digital de Mercadante numa extensa lista, que começa pelas negociações para  formação do atual ministério e termina na derrota do Planalto na eleição para o comando da Câmara, passando pela fracassada operação destinada a turbinar um novo partido para diluir a maioria peemedebista no Congresso.

Petistas ligados ao ex-presidente Lula e peemedebistas pedem a cabeça de Mercadante porque acham que sua permanência no Planalto, ainda que restrita à gerência das questões administrativas do governo, inviabilizaria o trabalho de um eventual sucessor de Pepe na Articulação. Nem Jesus Cristo, dizem alguns, conseguiria trabalhar junto com Mercadante. Descontado o  exagero, o que se diz é que políticos que fariam um bom trabalho na Articulação, por ter amplo trânsito no Congresso, pensariam duas vezes antes de aceitar se o ministro chefe da Casa Civil permanecer no cargo.

A vaga aberta de surpresa no Ministério da Educação animou muita gente. Agora há um grande e poderoso ministério para receber de volta seu ex-titular - a cuja competência administrativa ninguém impõe reparos. Mercadante, o retorno,  seria um sinal inequívoco da prioridade da presidente ao "Brasil, Pátria Educadora".

Só tem um probleminha: Mercadante não quer sair do Planalto e Dilma não dá sinais de querer tirá-lo. Alguns próximos contam que a presidente começa a reconhecer erros do ministro, e a admitir a necessidade de reestruturar sua coordenação política. Mas, para  Dilma, é difícil abrir mão da onipresença de Mercadante no Planalto.

A presidente da República e o ministro chefe da Casa Civil são almas gêmeas no pensamento econômico, ambos egressos da escola da Unicamp, e possuem muitas afinidades políticas. Com sua inteligência, o ministro soube conquistar a confiança da presidente, com quem não tinha grandes proximidades, ao longo do primeiro mandato. Foi ampliando suas influência nos mais diversos assuntos de governo e galgando postos cada vez mais importantes. Ocupou um espaço de solidão, o vazio que era o "PT da Dilma" - aquele PT que não é o do Lula e nem da turma que a pressiona. 

Tirar Mercadante do Planalto, portanto, não é trivial. Os que tentam convencer Dilma argumentam que sua ausência ajudaria a construir um novo cenário no Congresso, sem dúvida muito mais favorável à aprovação do ajuste fiscal e de tudo o mais que o governo precisar - por exemplo, o arquivamento de requerimentos descabidos que pedem o impeachment da presidente, que Cunha promete fazer, mas sabe-se lá...

O espaço seria preenchido por nomes de peso e larga experiência, como o ex-governador Jaques Wagner, na Casa Civil, em dobradinha com um articulador de mão cheia como Eliseu Padilha ou mesmo Aldo Rebelo - também um bom nome para, eventualmente, substituir Wagner na Defesa.

Esse xadrez está diante de Dilma, que não sabe se joga com as pedras brancas ou pretas.  

A única certeza que há hoje no Planalto é que a aprovação do ajuste fiscal pode não ter o poder de tirar manifestantes das ruas, mas sua rejeição levará o país a despencar num buraco sem fundo. Depois de domingo passado, e da semana de horror político que se seguiu, consertar as coisas na área política passou a ser questão de sobrevivência, ainda que isso implique sacrifícios de vontades e de pessoas.

*Colunista do Análise Política, parceiro do Broadcast

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