Reforma de porta-aviões frustra festa de Lula

Ideia era usar o A-12 para ir a reserva do pré-sal, mas ele continua inativo

Roberto Godoy, O Estadao de S.Paulo

23 de março de 2009 | 00h00

A festa que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva quer fazer no dia 1º de maio, para marcar o início das operações de extração de petróleo no campo de Tupi, na reserva do pré-sal, não vai ter o cenário espetacular pretendido: o porta-aviões A-12 São Paulo, capitânia da frota da Marinha, está em reforma, depois de sofrer um incêndio em maio de 2005. A operação de recuperação, inicialmente limitada ao reparo do dano causado pelo fogo, deveria terminar em 90 dias, eventualmente seis meses.Passou por modificações, virou programa de atualização parcial e teve os recursos de caixa congelados várias vezes. Com tudo isso, a operação já dura quatro anos. O Comando da Marinha não revela quanto terá gasto até o fim da longa revisão.O Palácio do Planalto planejava reunir, talvez, 250 convidados, levados pelo porta-aviões, até bem perto da plataforma da Petrobrás, a 300 km do litoral. O grupo seria recebido no hangar de bordo, um salão com 180 metros de comprimento e 7 metros de altura. Não deu certo. Outras possibilidades foram consideradas, como o uso de navios de transporte militar. Todavia, garante uma fonte do cerimonial da Presidência, deve prevalecer a fórmula conservadora: Lula e pequeno grupo vão até o campo, cumprem o ritual e só depois comemoram, no Rio.De volta ao mar em três meses, o retorno do porta-aviões às operações navais vai exigir longo período de testes e de treinamento. Um ano, no mínimo, só para qualificar a tripulação, de acordo com a estimativa de um ex-comandante da Marinha. E ainda pode haver surpresas, como a ocorrida no ensaio de máquinas. A vibração em um eixo provocou a troca da peça - e o alongamento no tempo de permanência no estaleiro. A retomada das atividades da aviação embarcada é incerta. O A-12 está sem seus aviões, os caças subsônicos AF/1/A1 Skyhawk. Foram compradas 23 unidades, usadas, no Kuwait, no ano 2000, por US$ 70 milhões. Com o orçamento contingenciado e sem poder investir na revitalização dos jatos, a Marinha desativou as aeronaves gradativamente. Em março de 2008 apenas duas tinham condições de voo. No mês passado, só uma.O almirante Júlio Moura Neto, comandante da Força, espera assinar em abril o contrato de modernização com a Embraer. Até o fim de 2014, 12 AF-1/A1 terão passado pelo procedimento. O custo de referência é de US$ 60 milhões. Toda a eletrônica será atualizada. Os caças poderão atuar com bombas guiadas.ACIDENTEMorreram 3 tripulantes no acidente que imobilizou o navio. Outros 10 ficaram feridos. Veterano da guerra da Bósnia e dos conflitos do Oriente Médio - quando ainda era o Foch, da esquadra da França -, o A-12 tem 49 anos. Pode lançar 15 jatos, com canhão de 20mm e mais 4,5 toneladas de mísseis, bombas ou foguetes livres. Garante, também, o controle do mar com largos helicópteros caçadores de submarinos, recheados de sensores e bem armados.Essa condição ideal nunca foi atingida no porta-aviões brasileiro, grande como dois campos e meio de futebol.Sem navio há quatro anos, os pilotos brasileiros treinam em terra, simulando na pista de asfalto de São Pedro da Aldeia, no litoral do Rio.O porta-aviões revitalizado será um navio melhor. No Arsenal da Ilha das Cobras, no Rio, pelo menos 20 diferentes obras foram desenvolvidas, da revisão dos motores até a instalação do sistema Mage, de medidas de apoio à guerra eletrônica. Ganhou piso novo, não derrapante, no convés. E, sem confirmação, teria recebido sistemas de defesa com performance expandida. O Skyhawk voa a 1.100 km/hora e tem alcance de 3.220 km. Os pilotos não decolam exatamente do porta-aviões: com a turbina no limite máximo, são disparados por catapultas a vapor que aceleram da imobilidade até além de 260 km/hora em pouco mais de 200 metros.

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