Reforma agrária não vai ser feita no grito, diz Lula

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse, hoje, ao inaugurar a Termoelétrica Três Lagoas, da Petrobras, que a reforma agrária "não vai ser feita no grito". "Neste País, a reforma agrária vai ser feita por uma questão de justiça social e uma necessidade de repartir um pouco melhor o território produtivo, para que nossa gente tenha oportunidade de trabalhar", afirmou. "A reforma agrária não vai ser feita no grito: nem no grito dos trabalhadores, nem dos que são contra ela". Sem se referir diretamente ao líder do MST João Pedro Stédile, que ontem recuou da ameaça de "infernizar" o País que havia feito na semana passada, Lula disse que o processo de reforma agrária continuará respeitando a legislação vigente e será feito num clima de harmonia que, segundo ele, norteia o comportamento do seu governo. Ao reafirmar o compromisso do governo de assentar 400 mil famílias e regularizar 130 mil títulos de terra até o fim de seu mandato, o presidente ressaltou: "São decisões de governo, que ninguém nos obrigou a fazer". Auge da maturidadeLula afirmou que está "no auge da maturidade", tem paciência e não tem raiva do que lê na imprensa nem raiva da oposição que lhe é feita. "Todos nós vamos ficar na fase do Lula Paz e Amor", afirmou, voltando-se para o governador de Mato Grosso do Sul, José Orcírio dos Santos, o Zeca do PT. "Tem gente, no Brasil, que é como ex-marido ou ex-mulher: não quer que a pessoa tenha um novo casamento e seja feliz", afirmou. "Um ex-marido fica torcendo: tomara que ela faça com ele o que fazia comigo". Lula disse ainda que vai provar, com números, o que aconteceu no País em quatro anos e o que aconteceu antes. "No Brasil, tem os ´ex´ que não se conformam que tenhamos alguém que possa fazer mais que eles", observou. Depois, em contradição com o que acabara de dizer, Lula disse que os representantes do seu governo não vão ficar falando de outros governantes. Ele disse, também, que não permitirá obras públicas paradas nem elefantes brancos. Projetos e investimentosO presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a prometer que não faltará dinheiro para empresários que queiram investir. "Se alguém disser que não tem dinheiro, é porque não tem projeto", afirmou. Ele pediu, também, aos dirigentes de fundos de pensões que, em governos anteriores, "aplicaram em títulos já prontos", como os fundos Petros, Funcef e Previ, que invistam em obras que gerem emprego e renda. Ele disse, no entanto, compreender que a função primeira dos fundos é valorizar o dinheiro dos aposentados. Lula rebateu, também, críticas segundo as quais o governo estaria paralisado. "Que bom que tenha oposição que faça críticas!", observou. "Mas, por mais que a gente queira fazer as coisas rápido, uma ferrovia, por exemplo, só vai ficar pronta oito anos depois de iniciada. Estamos no momento exato de fazer este País aflorar". Antes de o presidente discursar, o governador de Mato Grosso do Sul, José Orcírio dos Santos, o Zeca do PT, defendeu o governo Lula, afirmando que ele está sendo atacado por "uma elite preconceituosa". O governador disse, ainda, que sofre e reza todos os dias pelo presidente. Desapropriação de fazendas para reforma agráriaO presidente assinou decretos desapropriando, para fins de reforma agrária, as fazendas Macaco, no município de Angélica, e Bela Manhã, em Taquaruçu, em Mato Grosso do Sul. A assinatura ocorreu logo após a inauguração da termoelétrica Três Lagoas. Durante a solenidade, Lula disse que a desapropriação era um gesto para mostrar que, em Mato Grosso do Sul, o governador José Orcírio dos Santos está fazendo a reforma agrária "em clima de tranqüilidade e harmonia". O presidente, que no discurso feito momentos antes chamou os proprietários rurais de "empresários da agricultura", participou ontem à noite de um churrasco e dormiu na fazenda de Orestes Prata, um dos maiores pecuaristas da região. Ao chegar à cidade, ontem, ele foi recepcionado, no aeroporto, por 140 sem terra que reivindicavam a regularização de títulos de terra. No discurso de hoje, Lula prometeu "mudar, de forma radical, os assentamentos". Ele avaliou que, em governos anteriores, "reforma agrária era pegar um monte de pobres trabalhadores e jogar no meio de uma roça, sem dar condições de sobrevivência". Lula observou que o agronegócio e a agricultura familiar não são antagônicos. "Vamos fazer (reforma agrária) do jetinho que eu acredito que tem de ser feito: desapropriando áreas improdutivas", disse. "Nenhuma terra produtiva será mexida. É preciso que as pessoas parem de falar demais". Investimentos em infra-estruturaO presidente prometeu aumentar os investimentos em infra-estrutura e transporte necessários, segundo ele, para a retomada do crescimento econômico. Ao comemorar o salto na balança comercial, anunciado ontem pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Lula criticou os governos anteriores, por não terem feito melhorias na malha viária, em portos, ferrovias e aeroportos. "É este país que estava encondido e que a imprensa não divulgava, porque se criou o chamado consenso, pensamento único. Estava tudo tão maravilhoso até que nós descobrimos que não estava tão maravilhoso assim", disse. Aeroporto sem iluminaçãoDurante a visita a Três Lagoas Lula usou óculos escuros, por causa de um terçol (inflamação nas pálpebras). Ele relatou à platéia que participava da inauguração da termelétrica da cidade, que foi uma "loucura" a viagem feita por ele, ontem, de Araras (SP) a Três Lagoas, onde a pista de pouso não tinha iluminação.No discurso Lula anunciou que em julho vai inaugurar as obras do aeroporto de Congonhas de São Paulo, onde "todo o santo dia nós amaldiçoávamos alguém (por causa das condições do aeroporto)" e, em outubro, o trem do Pantanal, que vai percorrer o trecho entre o porto de Santos e a região pantaneira de Mato Grosso do Sul.Após o discurso, Lula se deslocou para o aeroporto para iniciar viagem até Bonito (MS).

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