FABIO MOTTA/ESTADÃO-31/10/2017
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‘Redes sociais abrem fissura na centro-direita’, diz pesquisador

Apoiadores de Bolsonaro tensionam ambiente político e afastam possíveis aliados, afirma Marco Aurélio Ruediger

Entrevista com

Marco Aurélio Ruediger, pesquisador do Dapp da FGV-Rio

Daniel Bramatti, O Estado de S.Paulo

11 de abril de 2019 | 05h00

Os simpatizantes do presidente Jair Bolsonaro nas redes sociais tensionam o ambiente político, afastam potenciais aliados e prejudicam a tramitação das próprias pautas do governo, segundo Marco Aurélio Ruediger, da Diretoria de Análise de Políticas Públicas (Dapp) da FGV-Rio, um dos autores de estudo sobre o assunto.

O monitoramento do debate público nas redes feito pela Dapp indica que houve aumento significativo de ataques à chamada “velha política” em março, logo depois que o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), fez críticas públicas à articulação política de Bolsonaro e ao ministro Sérgio Moro.

Para Ruediger, a adjetivação da política como “velha” a criminaliza, e sugere que os parlamentares de centro – potenciais aliados do governo – estão envolvidos em transações nebulosas. O estudo do Dapp mostra ainda que os parlamentares de centro estão bem menos envolvidos em debates sobre a Previdência nas redes do que os integrantes do PSL, partido de Bolsonaro.

O que a análise das redes sociais revela sobre os primeiros cem dias do governo Bolsonaro?

O que salta aos olhos é o tensionamento do processo político gerado pela utilização das redes sociais pelos apoiadores do governo, principalmente no campo mais à direita. Eles ainda reverberam essa noção da campanha eleitoral do “nós contra eles”, da criminalização da política. Qualquer negociação é vista como algo nocivo, quando deveria ser o contrário. Sem a política só existe a guerra. Quando as matilhas nas redes atacam determinados personagens que são chave nos processos políticos, isso bloqueia a possibilidade de sucesso da própria pauta que o governo propõe. A utilização radicalizada das redes inviabiliza o entendimento da política como um espaço de criação de possibilidades. O risco de as reformas não avançarem é bastante alto.

Como ficam os parlamentares de centro nesse processo?  

Pela primeira vez desde setembro percebemos nas redes uma fissura nesse campo da centro-direita, a partir do bloqueio da política. Também é fato que o centro usa muito pouco as redes. O que acontece hoje é que o centro está sem lideranças, mas isso não vai durar para sempre. Em algum momento novas lideranças vão se afirmar e esse grupo vai voltar a ter uma pauta própria. 

O centro tem pouca presença nas redes por causa de uma característica inerente a elas, que é a de dar mais visibilidade a quem tem posições mais extremadas?

Acho que é uma questão cultural do centro, que não incorporou como um fator preponderante em sua estratégia política participar das redes. É algo que eles terão de corrigir. Esse é o seu calcanhar de Aquiles. 

Outros partidos próximos ao governo aparecem no estudo da Dapp como menos envolvidos nos debates sobre a Previdência nas redes. Isso significa falta de engajamento na reforma ou simplesmente é reflexo do fato de que esses partidos são mesmo menos ativos no Twitter e no Facebook?

São menos engajados com a reforma, mas muito menos engajados com o debate da reforma nas redes. São dois níveis que se sobrepõem. Essa reforma não está sendo construída em um ambiente de calibragem política. A direita usa as redes de forma muita habilidosa, mas também muito confrontacional. Isso acaba gerando ataques a personagens de centro, que reagem a isso tensionando os meios tradicionais. Acabamos tendo um ciclo muito negativo na condução da política em geral. O que vemos no dia a dia das redes é um reflexo da inabilidade política que o governo vem apresentando.

Como a Dapp mede o tamanho do debate sobre termos como “velha política” e “nova política”?

Antes de monitorar os termos nas redes, a Dapp identifica uma temática de estudo e, posteriormente, usa técnicas e fundamentos da Linguística para identificar os diferentes termos, expressões, hashtags e construções textuais associados à temática que se deseja analisar. No caso, para identificar a discussão sobre velha e nova política, selecionamos várias referências, além das expressões “velha política” e “nova política”, e que também remontam ao tema, como, por exemplo, “troca de cargos”, “oferta de cargos” e “toma lá, dá cá”, além de subnarrativas contextuais, como negociação de emendas, articulação política no Congresso, etc.

É possível afirmar que esse debate sobre a chamada “velha política” afetou as discussões sobre a Previdência? Como?

É um elemento central, porque esse tipo de adjetivação, o “velha”, dá caráter de criminalização à política. Como se a velha política envolvesse um trânsito irregular de favores, quando na verdade é conciliar, é algo normal, que não necessariamente tem algo de errado. Isso joga num córner muitos elementos que poderiam estar colaborando para essa reforma. Vira um discurso bipolar: nós somos os corretos, eles não. Há um conflito permanente, e o resultado é a obstrução das pautas.

Como interpretar os ataques de governistas a integrantes do próprio governo? 

Acho que os militares estão dando um show de profissionalismo na gestão. Os ataques da direita olavista a eles são um elemento de perturbação à boa política e gestão profissional, além de serem disruptivos e injustificados. Ou seja, nesse sentido, a base nas redes promove um embate totalmente ideologizado, engolfando por vezes o governo e sua pauta, desviando a energia que deveria ser gasta na boa gestão. Para avançar, o governo deveria mudar esse quadro e demarcar limites e distinção dessa militância mais radical pela ação da comunicação institucional.

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