Rede elétrica segue vulnerável até 2004, diz ONS

O sistema elétrico brasileiro, principalmente em São Paulo e Rio de Janeiro, tem problemas estruturais de controle e segurança e deverá demorar cerca de dois anos para ter sua confiabilidade melhorada e ficar menos vulnerável a apagões, segundo o presidente do Operador Nacional do Sistema (ONS), Mário Santos. "Com os recursos do sistema e dos controles, não era possível evitar o blecaute", afirmou. Ele disse que o sistema suporta perder uma grande linha de transmissão, uma usina ou uma grande subestação. "Mas se perdemos duas, simultaneamente, isso pode forçar um processo de avalanche". Santos disse que seria "ironia e falta de auto-estima" achar que um blecaute do porte do ocorrido no último dia 21 de janeiro pode ser causado "por apenas um parafuso, uma pecinha que cai". Ele lembrou que isso ocorre a todo instante, e que diariamente existem dois ou três "não-apagões".Mas o presidente do ONS disse que o sistema "não pode dar mais do que aquilo para o qual foi preparado, da mesma forma que um carro não pode andar com três pneus". Ele apresentou essa mesma avaliação ao grupo de trabalho que foi criado pela Câmara de Gestão da Crise de Energia Elétrica (GCE) para estudar os blecautes mais recentes e apontar soluções para melhorar a confiabilidade do sistema.Somente agora, após o apagão de janeiro, o governo está fazendo um programa profundo e global para solucionar a fragilidade elétrica do sistema brasileiro, como reconhece o próprio presidente do ONS. "Com a intensidade e a sistemática de agora, sim", revela Santos. Ele argumentou que, após o apagão de 1999, foram adotadas algumas medidas que melhoraram alguns subsistemas, mas nada do que foi feito impediria o que ocorreu em janeiro deste ano. As medidas anteriores foram voltadas mais para os chamados barramentos, que permitem isolar as áreas com problemas, numa tentativa de evitar a propagação do apagão ou permitir uma rápida recuperação das áreas afetadas. Mas os sistemas de segurança brasileiros, segundo o presidente do ONS, são antigos, e datam de 30 anos nos principais centros consumidores, como São Paulo e Rio de Janeiro. "O sistema sempre teve problema de confiabilidade", afirmou Santos. Segundo ele, o problema agravou-se com o aumento da carga, gerado pelo crescimento do consumo no País, e com os atrasos em obras de ampliação e de modernização. O próprio ONS tem dificuldades de controle, pois não tem acesso automático às informações das empresas. "Hoje eu preciso que eles me tragam as informações", reclamou. Os sistemas de controle do operador também não foram desenvolvidos especialmente para este sistema centralizado. "Nós herdamos os sistemas das empresas", contou Santos.O governo deve adotar medidas de curto , médio e longo prazo para dar segurança ao sistema elétrico brasileiro, segundo Mário Santos. Ele disse que algumas das medidas que estão sendo adotadas para aumentar a segurança energética (garantia de suprimento), como a ampliação de usinas térmicas, também servirão para aumentar a segurança elétrica (operação do sistema). As medidas mais imediatas, que devem ser concluídas no prazo de seis meses a dois anos, envolvem a realocação dos sistemas de geração de energia, a ampliação das linhas de transmissão e o melhoramento dos sistemas de controle operacionais. As dificuldades maiores de São Paulo e Rio de Janeiro, segundo Santos, são o fato de serem grandes consumidores e suas fontes de suprimento estarem distantes, há cerca de 800 km. Neste caso, a instalação de geração próxima ao consumo, principalmente das térmicas, dará mais confiabilidade ao sistema, segundo Santos. Ele cita o caso das linhas de transmissão Bateias-Ibiúna e da Londrina-Campinas (ou, alternativamente, Araraquara). A ampliação da térmica Piratininga e a reestruturação da hidrelétrica de Henry Borden, ambas em São Paulo, também deverão auxiliar nessa melhoria, segundo o presidente do ONS. As áreas onde já houve melhoria na segurança são o Sul e a região central do País, no bloco Minas Gerais, Goiás e Distrito Federal, como mostrou o último apagão. "Em Brasília a energia voltou em apenas seis minutos, e em Goiás demorou 10 minutos", argumentou Santos. Como São Paulo não tinha energia suficiente em sua área, não se pôde fazer o mesmo "ilhamento" do problema. As medidas melhorarão a segurança, mas Santos lembrou que é impossível garantir que não haverá apagão, pois em nenhum lugar do mundo o sistema é perfeito. "Da mesma forma que não existe transporte a prova de acidentes, e nem mesmo usina nuclear", comparou.

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