DIDA SAMPAIO/ESTADAO
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Recuo de Bolsonaro após participar de ato foi pedido por militares

Presidente também recebeu recados da cúpula do Supremo sobre o perigo da escalada autoritária no País e advertências sobre o que suas atitudes têm provocado

Vera Rosa e Tânia Monteiro, O Estado de S.Paulo

20 de abril de 2020 | 13h16

BRASÍLIA - O presidente Jair Bolsonaro foi alertado por militares do governo de que sua participação no ato deste domingo, 19, convocado para defender o fechamento do Congresso e do Supremo Tribunal Federal, não só pegou mal como expôs as Forças Armadas a uma situação constrangedora. Houve pedidos para que ele recuasse e se explicasse à população. Não foi só: Bolsonaro também recebeu recados da cúpula do Supremo sobre o perigo da escalada autoritária no País nesses protestos e advertências a respeito da leitura política que sinais emitidos por ele têm provocado.

Na saída do Palácio da Alvorada, na manhã desta segunda, o presidente tentou, então, culpar a imprensa por vincular sua participação no ato que pediu intervenção militar no País e pregou a “deposição” de governadores. Sob aplausos , ele perguntou aos jornalistas: “Onde vocês estão com a cabeça? Falta um pouco de inteligência para aqueles que me acusam de ser ditatorial”.

Bolsonaro disse que não poderia conspirar contra ele próprio. “O pessoal geralmente conspira para chegar ao poder. Eu já estou no poder. Então, eu estou conspirando contra quem, meu Deus do céu? Eu sou, realmente, a Constituição”, afirmou ele.

Apesar das declarações e até mesmo de interromper um seguidor para dizer que “aqui não tem essa conversa de fechar nada” – ao contrário do que fez neste domingo, quando se calou diante de pedidos de volta da ditadura e de um novo AI-5 –,  Bolsonaro deu uma estocada indireta no presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ). “O meu time não trabalha de madrugada. O meu time trabalha à luz do dia”, afirmou o presidente, convencido de que Maia age para derrubá-lo.

Na prática, o comando do Congresso e integrantes do Supremo avaliam, nos bastidores, que não há mais conciliação possível com Bolsonaro. Para políticos e magistrados ouvidos pelo Estado, a  pandemia do novo coronavírus deixou evidente que o presidente age sem consultar as instituições e não respeita nem mesmo recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS). Foi por isso que o Supremo decidiu, por exemplo, que  Estados e municípios têm autonomia para decretar o isolamento social.

Os militares do governo, por sua vez, receberam com alívio o passo atrás dado pelo presidente, nesta segunda-feira, 20. Até aqui havia muito desconforto com o fato de ele ter participado da manifestação do domingo diante do QG do Exército.

Para generais consultados pelo Estado, Bolsonaro muitas vezes é mal interpretado por não ter o dom da palavra. Embora condene a forma como o presidente se expressa, o núcleo militar do governo avalia que ele é movido por um “ideal patriótico” e jamais desrespeitaria a Constituição.

Na avaliação dessa ala, Bolsonaro reage com agressividade por se sentir injustiçado. O presidente sempre se queixa com militares com quem convive nunca ter havido uma oposição assim a um inquilino do Palácio do Planalto.

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