Recepção com desconfiança, curiosidade, paz e história

O avião da Polícia Federal se aproxima de uma pista esburacada na área indígena Cuminapanema, no norte do Pará, em meio à Floresta Amazônica ainda preservada. Ao lado, algumas dezenas de índios aguardam, sisudos, o pouso da aeronave e a descida dos visitantes. Assim que estaciona e a hélice para de girar, o avião é cercado. A aeronave não é mais novidade, apesar de ainda despertar a curiosidade dos zo?é, mas cada homem branco que desce na região é alvo do interesse dos índios. Do avião descem o ministro da Justiça, Tarso Genro, o diretor da PF, Luiz Fernando Corrêa, e o presidente da Funai, Márcio Meira. Os índios se aproximam sem cerimônia. Os homens enfeitados com pedaços de madeira cravados pouco abaixo do lábio inferior, o poturu, e um pequeno filete de palha amarrado na ponta do pênis; algumas mulheres enfeitadas com um arco feito de penas brancas retiradas do urubu real, outras poucas com o corpo pintado de vermelho. Do tronco linguístico Tupi, os zo?é são afáveis, pacíficos, passam longe da guerra.Logo eles estendem a mão e fazem a pergunta que se repetirá insistentemente. "Nome?", uma das poucas palavras que alguns conhecem do português. Em seguida, os visitantes caminham em direção ao posto da Funai localizado na Frente de Proteção Etnoambiental Cupinapanema, uma área de 2,1 milhões de hectares entre os rios Cuminapanema, Urucuriana e Erepecurú destinada aos 245 zo?é, uma das últimas etnias preservadas do não-índio. O pouco contato com pessoas de fora estimula a vontade dos zo?é de viajar, de conhecer as cidades. "Brasília grande? Brasília bonita?", questiona um dos zo?é ao ministro Tarso. Os zo?é mantêm ainda hoje inalterados seus costumes e hábitos alimentares. São nômades, revezam-se entre as 11 aldeias. Vivem da caça, coleta de frutas, da farinha de mandioca e de castanhas. Não há cacique. "Chefe não tem", diz um zo?é. As lideranças são descentralizadas. É como se cada família tivesse uma figura mais importante e respeitada. Os homens podem ter mais de uma mulher, e vice-versa. Os poucos objetos que recebem da Funai - facões, enxadas e lanternas - não substituem os já usados pelos índios. Justamente por não dependerem dos bens vindos de fora, são considerados índios de recente contato. Para manter os zo?é assim, os poucos visitantes autorizados a entrar na área são submetidos a um controle rígido. Assim como a área dos zo?é, a Funai mantém outras cinco frentes de proteção: no Amazonas, Acre, Mato Grosso e Rondônia. Nessas outras, os índios permanecem isolados, sem qualquer contato com o branco. Indigenistas da Funai sabem apenas que é preciso preservá-los após o inevitável contato com o homem branco.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.