UESLEI MARCELINO|Reuters
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Receita vai investigar venda de terrenos de Bumlai para empresa ligada ao PT

Estado revelou venda de terrenos para CRLS Consultoria e Eventos

Andreza Matais e Adriano Ceolin, O Estado de S. Paulo

05 de dezembro de 2015 | 15h11

BRASÍLIA – A Receita Federal decidiu investigar indícios de ilícito em transação imobiliária feita pelo pecuarista José Carlos Bumlai que beneficiou o segundo maior fornecedor da campanha de reeleição da presidente Dilma Rousseff, o empresário Carlos Roberto Cortegôso. O Estado revelou que Bumlai vendeu para sete terrenos para a CRLS Consultoria e Eventos entre três e quatro anos após tê-los incorporado ao seu patrimônio sem obter quaisquer vantagem financeira na transação.

Bumlai recebeu os terrenos da família Demarchi, cujos integrantes são amigos do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em troca de ter quitado uma dívida deles com o banco Bradesco no valor de R$ 3,9 milhões. Os onze bens estão localizados em São Bernardo do Campo e, em 2007, quando foram incorporados ao patrimônio de Bumlai, conforme registrado em cartório, valiam R$ 3 milhões.

Auditores fiscais ouvidos pelo Estado disseram que o fato de não ter obtido vantagem financeira com a transação é um indício de ilícito a ser apurado e levanta suspeitas de lavagem de dinheiro ou sonegação fiscal. Nesse último caso, Bumlai pode ter vendido os terrenos a preços maiores, mas registrado valor menor para pagar menos imposto. A Receita também vai ampliar a investigação para outros negócios de Bumlai. O empresário esta preso em Curitiba acusado pela Operação Lava Jato de fraudar empréstimos.

Mais conhecido como pecuarista em Mato Grosso do Sul e pela amizade com Lula, Bumlai não frequentava São Bernardo do Campo. Mas ficou com terrenos da tradicional família Demarchi, cujo maior negócio sempre foi o restaurante São Judas Tadeu, situado na mesma cidade.

No começo dos anos 1980, o PT e o Sindicato dos Metalúrgicos usavam o restaurante para festas, confraternizações e encontros. Neste ano, amigos de Lula haviam marcado no São Judas a festa de 70 anos do presidente. Antes de virar prestador de serviços do PT, Cortegôso foi garçom em outro restaurante da família Demarchi, o Florestal, que também era frequentado por Lula.

As operações dos terrenos ganharam contornos mais suspeitos quando a ligação de Cortegôso com a Focal Comunicação veio a tona após ele admitir ser o dono da empresa que faturou R$ 24 milhões na campanha de Dilma à reeleição em 2014. Técnicos do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) apontaram como irregulares as notas fiscais da empresa apresentadas na prestação de contas da petista.

Negócio privado. Cortegôso sustenta que fez um "negócio privado" e que "não há nenhuma irregularidade". Ele ressaltou que nunca foi amigo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. "Falei poucas vezes com ele", disse. Procurado pela reportagem, o advogado de José Carlos Bumlai, Arnaldo Malheiros, afirmou que seu cliente revendeu os terrenos pelo mesmo preço que comprou - sem correção ou reajuste - porque estava precisando de dinheiro. A família Demarchi explicou que os terrenos foram "dados em pagamento" a Bumlai depois que o empresário quitou uma dívida do restaurante com um banco.

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