Receita defende partilha de cargos por sindicalistas

Chefe do órgão considera ''normal'' rodízio de nomeados, para que ninguém se sinta ''dono'' do posto; oposição denuncia ''partidarização''

Adriana Fernandes, Eugênia Lopes e Rosa Costa, O Estadao de S.Paulo

30 de outubro de 2008 | 00h00

A ocupação de postos estratégicos na Receita Federal por sindicalistas foi classificada de "natural" pela nova secretária do órgão, Lina Maria Vieira. Ao comentar o loteamento dos cargos, revelado ontem pelo Estado, a secretária disse que servidores não podem ficar muito tempo em postos de chefia para não se sentirem "donos do cargo". No Congresso, a oposição reagiu ao que considerou uma "partidarização" da Receita."As pessoas têm de ter um período. Não estamos ali para ficar ad aeternum nos cargos. Nós somos auditores, analistas, agentes administrativos. Mas a função gratificada exercida deve sempre ter um período. Não pode ser muito longo para que você não se sinta dono do cargo", argumentou. Na avaliação de Lina, a "temporalidade" dos cargos é importante e natural. "Isso é normal (mudança de cargos) em uma organização quando se tem um novo secretário. Mudar os colaboradores é uma coisa normal", afirmou. Segundo ela, é dessa forma que "a organização" enxerga as mudanças. A Associação dos Auditores Fiscais da Receita Federal do Brasil (Unafisco) divulgou nota de apoio às mudanças implementadas pela secretária, que privilegiam sindicalistas. "A verdade é que algumas das pessoas recentemente nomeadas, além de terem participado de diretorias da entidade sindical, diferencial que apenas as dignificam e qualificam, têm um largo histórico de dedicação ao órgão e à entidade de classe que representa os auditores", diz a nota da associação. A Unafisco destaca ainda na nota que as mudanças feitas na estrutura da Receita "se faziam, de longa data, necessárias".GRAVÍSSIMO"O que está sendo feito na Receita Federal é um dos maiores erros que o governo já cometeu. Tirar um profissional competente e respeitado num momento de crise é total falta de habilidade e experiência. Nunca ocorreu nada parecido. Isso tudo é gravíssimo", afirmou o senador Tasso Jereissati (PSDB-CE). "Temo que a Receita venha a se partidarizar e passe a diferenciar o tratamento entre aliados e não-aliados do governo", emendou a senadora Katia Abreu (DEM-TO). Já o presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Armando Monteiro Neto, adotou discurso conciliador. "Esse fato pode ser traduzido por alguns como um processo de apropriação do Estado pelos sindicalistas, mas essa não é a única visão que existe. O sindicalismo criou quadros importantes e qualificados", argumentou. "Sou contra essa idéia de demonização: há quadros oriundos do sindicalismo que são bem qualificados, mas evidentemente há casos de figuras cuja única credencial para estar no cargo é a estrutura sindical à qual estão vinculados."

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