Recebida como candidata pelo PT , Dilma ataca tucanos

Ministra diz que crise mundial produzirá ?pequena barrigada? no País

Ana Paula Scinocca, O Estadao de S.Paulo

13 de dezembro de 2008 | 00h00

Definitivamente, Dilma Rousseff não é mais a mesma. Nome petista para a disputa presidencial de 2010, ontem ela trocou a roupa de ministra-chefe da Casa Civil pela camiseta de candidata à sucessão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, de quem, inclusive, incorporou o estilo. Seguindo à risca as receitas de seu mentor, fez um discurso político forte e disse que a crise econômica mundial produzirá no País "uma pequena barrigada". No início da crise, Lula havia tratado o baque financeiro como uma "marolinha".Estrela do Encontro Nacional de Prefeitos do PT, em Brasília, foi aplaudida de pé e repetiu seu padrinho político até ao comparar o governo do PT com o do PSDB, utilizando o habitual "nós e eles" do presidente. Otimista, disse que o País vive "um processo de crescimento muito forte, que tem todas as condições de ser mantido".Para, em seguida, admitir: "Nós vamos dar uma pequena barrigada e depois vamos retomar essa plataforma (de desenvolvimento)." À moda do chefe, comparou o governo de Lula com o do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, sem citá-lo nominalmente. "Nós somos capazes de fazer política fiscal. Antes, eles (o governo FHC) faziam duas coisas: aumentavam os juros estratosfericamente e davam uma paulada no imposto. O imposto no Brasil subiu sempre que foi necessário fazer face à todas as dificuldades fiscais que o País passava." Agora, destacou ela, pode-se fazer política fiscal diferenciada. Na seqüência, mencionou o pacote anticrise lançado por Lula na véspera. "A nossa visão de Estado não é neoliberal. É uma visão comprometida com projeto de desenvolvimento. Somos governo com responsabilidade fiscal, mas também social", alfinetou.Por meio da assessoria do PSDB, o ex-presidente Fernando Henrique respondeu à ministra: "Dilma começou mal. Se quiser ser candidata, tem de dizer o que pretende fazer. Esse discurso de olhar para trás é inadequado para quem quer pensar o futuro."GAFEMais solta, Dilma lembrou o presidente também quando cometeu uma gafe na abertura do evento. Saudou o líder do governo na Câmara, Henrique Fontana (RS), e, ao ser advertida de que ele ainda não chegara, brincou: "Mas já fica aqui a minha saudação." Visivelmente mais magra, ela chegou com terninho vermelho, a cor do PT, e sem óculos - há quinze dias, incorporou as lentes de contato.Afiada, voltou a listar diferenças entre o governo Lula e de seu antecessor e criticou a oposição. "Tem muita gente que torce para os Estados Unidos darem certo e torce para o Brasil dar errado. Para o Obama dar certo, eu diria que tem até um oba-oba." Ao falar do estilo do PT de governar, disse que "poucas vezes na história" - Lula habitualmente diz "nunca antes na história" - houve um processo tão forte de resgate da cidadania brasileira e da soberania de um País. Afirmou que o Brasil tem "armas" para manter o desenvolvimento e pediu aos cerca de 500 prefeitos eleitos do PT que ajudem o governo a manter os programas sociais e as obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). "Desta vez é diferente. Temos instrumentos, armas e, sobretudo, o caminho e a resposta", discursou, referindo-se à reação da gestão Lula frente a crise. "As crises que ocorriam nos anos 90 e no início dessa década, até 2002 (a gestão FHC terminou em dezembro daquele ano), começavam lá fora e contaminavam o Brasil através do câmbio. Éramos frágeis e quebrávamos. Quando a gente quebrava, ia para o Fundo Monetário Internacional (FMI), que mandava a receita: cortem investimento; gasto social nem pensar e rede de proteção para a população não ter todas as mazelas da crise na veia, nem pensar", observou.Otimista, característica que é marca dos discursos de Lula, disse fazer parte de um governo que tem clareza de que, se não houver consumo, não há produção e, sem produção, há desemprego. "E nós não vamos, através do efeito psicológico do pânico e do medo, interromper o crescimento do País." Ainda que qualquer semelhança seja mera coincidência, Dilma exibiu simpatia até com jornalistas. "Calma, gente, eu vou responder", disse, tentando desfazer um tumulto provocado pela ansiedade dos repórteres na saída do evento. Nascia ali a versão feminina do "Lula paz e amor".

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