REUTERS/Lucas Moura
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Reajustes e risco de novos motins preocupam governos estaduais

Chefes dos Estados reclamam de aumento dado por Zema em MG a policiais e temem aumento de violência

Ricardo Galhardo e Pedro Venceslau, O Estado de S.Paulo

22 de fevereiro de 2020 | 05h00

A greve dos policiais militares do Ceará, que culminou com o senador Cid Gomes (PDT-CE) baleado, o apoio ao setor por políticos locais ligados ao bolsonarismo e o aumento de 41,7% dado à PM pelo governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), viraram motivos de preocupação para os demais governadores do país. 

No grupo de WhatsApp que reúne os 27 mandatários estaduais e em conversas bilaterais, eles têm manifestado temor de que casos como o do Ceará se espalhem pelo resto do país, causando uma onda de insegurança na população e ameaçando o equilíbrio fiscal das unidades federativas. 

Segundo relatos, em alguns Estados as entidades que representam os policiais militares têm usado o fato de Minas ter dado aumento além da inflação como argumento para endurecer as negociações. Um secretário estadual revelou ao Estado, sob a condição de que seu nome não fosse revelado, que em uma reunião para negociar aumento de salários o representante dos policiais disse: “Se o Estado de Minas está quebrado e deu 42%, por que aqui vocês dizem que não podem dar?” 

Governadores têm usado expressões como “populismo”, “falta de pulso” e “inexperiência política” para se referir a Zema. Alguns deles disseram no grupo de WhatsApp que simplesmente não têm caixa para bancar aumentos acima da inflação na folha de pagamento. O temor é maior entre os governadores que têm os maiores contingentes de policiais. 

Integrantes do governo Zema têm rebatido as críticas dizendo que o aumento à PM tem lastro financeiro e motivação histórica. Eles citam a morte de um policial durante a greve da categoria em 1997 – desde então, quatro pessoas passaram pelo governo. 

A justificativa financeira é de que o aumento, de 41,74% escalonados até 2022, será coberto com economia em custeio, reforma da previdência estadual – que nem sequer foi aprovada – e aumento da arrecadação. 

No grupo de WhatsApp, os mandatários também têm associado o aumento da agressividade dos policiais nas negociações ao crescimento da participação do setor nos legislativos locais, impulsionado pelo bolsonarismo. Levantamentos mostram que o número de deputados que se elegeram em 2018 usando patentes militares em seus nomes pode ter quadruplicado. A maior parte deles teve grande votação entre policiais com discurso de defesa dos direitos da categoria. 

Um governador lembrou que o próprio presidente Jair Bolsonaro cresceu na política defendendo os interesses deste setor, e se envolveu em casos de insubordinação por aumento de salários quando ainda estava nas Forças Armadas. 

Onda

Em vários Estados, como no Ceará, políticos de origem militar ligados ao bolsonarismo estão por trás dos movimentos por aumento salarial. Em Sobral (CE), onde Cid Gomes foi baleado, o vereador Sargento Ailton estava entre os policiais amotinados. Ontem ele foi expulso de seu partido, o Solidariedade

Na Paraíba, o desembargador Leandro Santos, do Tribunal de Justiça do Estado, atendeu a um pedido de tutela antecipada feito pelo governo e declarou ilegal qualquer possível greve de policiais. Lá, a exemplo do Ceará, foram registrado casos de homens encapuzados em viaturas durante manifestações da categoria. 

Ontem, em reunião com senadores, o governador do Ceará, Camilo Santana (PT), disse que uma anistia para policiais militares em motim é inegociável. Para ele, o benefício chancelaria atos de indisciplina. / COLABOROU LEONARDO AUGUSTO, ESPECIAL PARA O ESTADO

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