Reação inclui ideia de 'Operação Mãos Limpas'

Reação inclui ideia de 'Operação Mãos Limpas'

Objetivo do discurso de Dilma para responder a denúncias na Petrobrás é ressaltar que governo combate a impunidade

VERA ROSA / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

17 de novembro de 2014 | 02h00

A presidente Dilma Rousseff vai encontrar uma crise política em ebulição quando retomar suas atividades no Palácio do Planalto, amanhã, após uma semana fora do País. Mesmo antes de desembarcar, porém, ela já começou a ensaiar o discurso de reação ao escândalo que tomou conta da Petrobrás, no qual destaca uma espécie de "Operação Mãos Limpas" em curso no País, para acabar com a impunidade. Esse era o nome de uma operação que, na Itália dos anos 90, investigou a fundo as ligações entre a Máfia e os partidos políticos.

Essa foi a forma que o governo encontrou, até agora, para contornar as acusações sobre o desvio de dinheiro da estatal para pagamento de propina a integrantes de sua base de sustentação. O Palácio do Planalto e os aliados estão perplexos com a sétima fase da Operação Lava Jato, não por acaso batizada de Juízo Final.

Há preocupação com o impacto do escândalo na seara política, que pode atingir 70 deputados e senadores, e também com os efeitos na economia, com a paralisia da Petrobrás e a imagem da companhia em frangalhos dentro e fora do País. "Ninguém sabe onde isso vai parar", resumiu um auxiliar da presidente.

O receio de que a crise na Petrobrás prejudique ainda mais os investimentos no Brasil levou Dilma defender ontem a estatal. "Não se pode condenar a empresa", disse a presidente na reunião do G-20 na Austrália.

De volta ao Brasil, Dilma reforçará o tom desse discurso, que tende a jogar para o colo do PSDB o engavetamento de investigações num passado não muito distante. A presidente voltará ao Planalto no mesmo dia da sessão da CPI da Petrobrás no Congresso, que será agitada pela oposição.

Ministério. Dilma também vai se reunir com dirigentes de partidos aliados, ainda nesta semana. Ela tenta montar o xadrez da composição do novo ministério - mas os aliados prometem cobrar mais caro para reforçar o apoio ao governo.

Ela já avisou que a primeira definição será o novo ministro da Fazenda. "É a escolha de Sofia", resumiu a presidente, antes de embarcar para a Austrália.

Para o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a escolha do sucessor de Guido Mantega é difícil porque o perfil de quem pode assumir a vaga está em falta no mercado. "Quando eu era oposição, reunia uns 30 economistas para discutir os problemas do País. Hoje, a gente conta aí uns três", disse ele, em recente reunião com senadores do PT, ao lembrar que muitos de seus interlocutores envelheceram e outros não aceitam essa tarefa.

Na lista dos cotados ainda para a Fazenda estão o ex-presidente do Banco Central Henrique Meirelles - o preferido de Lula -, o ex-secretário executivo da Fazenda Nelson Barbosa, o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, e do Bradesco, Luiz Carlos Trabuco.

Alvo de críticas até mesmo no PT, o secretário do Tesouro, Arno Augustin, responsável pelas chamadas "pedaladas fiscais", também deve ser deslocado de posto. Dilma gosta de Arno, e estuda agora transferi-lo para a presidência da Itaipu Binacional.

Os percalços na economia têm ainda um ingrediente político. O Planalto depende do Congresso para aprovar o projeto de lei que desconte da meta do superávit primário - economia de gastos para pagamento dos juros da dívida pública - as despesas com o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e com as desonerações tributárias.

Há ainda a tentar vencer a articulação do líder do PMDB na Câmara, Eduardo Cunha (RJ), desafeto de Dilma, para ser presidente da Casa. "O presidente da Câmara não é para defender o governo, mas também não é para atacar", emendou Arlindo Chinaglia (SP), que deve ser o candidato do PT para enfrentar Cunha. "Tudo indica que teremos muita emoção pela frente".

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