Tomaz Silva/Agência Brasil
O senador Flávio Bolsonaro e o presidente Jair Bolsonaro Tomaz Silva/Agência Brasil

Reação de Bolsonaro à morte de 'capitão Adriano' faz parte de guerra de narrativas

Círculo próximo do presidente avalia que ele se adiantou a uma possível exploração política do caso por parte dos governadores adversários Rui Costa (PT), da Bahia, e Wilson Witzel (PSC), do Rio

Felipe Frazão, O Estado de S.Paulo

18 de fevereiro de 2020 | 21h08

BRASÍLIA - A reação do presidente Jair Bolsonaro e de seus filhos à morte do ex-oficial da Polícia Militar do Rio Adriano Magalhães da Nóbrega, conhecido como “capitão” Adriano, faz parte de uma guerra de narrativas que envolve a família Bolsonaro e seus opositores. Na prática, o círculo próximo do presidente avalia que ele se adiantou a uma possível exploração política do caso por parte dos governadores adversários Rui Costa (PT), da Bahia, e Wilson Witzel (PSC), do Rio.

Policiais que respondem aos dois governadores conduziram a operação de busca que terminou com a execução de “capitão” Adriano. Oficialmente, não há informações sobre a atuação de agentes federais nas investigações da morte do ex-policial acusado de chefiar a milícia “Escritório do Crime”, radicada na favela de Rio das Pedras, na zona oeste do Rio. No ano passado, ex-policiais militares acusados de fazer parte da organização criminosa foram presos na investigação do assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL), adversária política dos Bolsonaro.

O presidente e os filhos têm dito que existe potencial de “armação” contra eles na apuração da morte de Adriano e de seu elo com a milícia de Rio das Pedras e organizaram uma ofensiva de ataque. Há vínculos entre o miliciano morto e a família Bolsonaro, embora todos neguem que tenham ciência de qualquer atividade criminosa.

Nóbrega era parceiro de batalhão de Fabrício Queiroz, o ex-PM que virou assessor do senador Flávio Bolsonaro (sem partido-RJ) e comandava, segundo o Ministério Público do Rio, um esquema de lavagem de dinheiro e peculato a partir da prática de “rachadinha” – nome popular para a apropriação de parte dos salários de servidores nomeados em gabinetes parlamentares. Quando o senador era deputado estadual no Rio, parentes de Adriano foram empregados em cargos de confiança no gabinete de Flávio. Além disso, o ex-policial -- que foi da tropa de elite da PM do Rio, o Batalhão de Operações Especiais (Bope), recebeu homenagem dos Bolsonaro em discursos no Legislativo, apesar de suspeito de cometer crimes enquanto vestia a farda.

O presidente tem sido abastecido pela rede de policiais fiéis à família com informações da investigação. Dias depois de a revista VEJA publicar fotos com detalhes periciais que lançaram dúvida sobre a circunstância da morte -- a versão oficial é que houve uma troca de tiros --, tanto Bolsonaro como Flávio deram sinais de acesso privilegiado a dados do inquérito. O pedido de nova autópsia por parte do Ministério Público da Bahia, por exemplo, foi antecipado pelo presidente e o senador publicou nas redes sociais um vídeo mostrando o corpo manipulado por legistas no Instituto Médico Legal. O ato do senador pode ser considerado um crime por expor o cadáver, avaliou o professor de Direito da Fundação Getúlio Vargas Michael Mohallem. "Agride a memória do morto", afirmou ele.

O Estado apurou que Bolsonaro concordou com a postagem do vídeo, sugerindo que Adriano foi torturado antes de ser morto, versão descartada pela necrópsia oficial.

Com receio do que pode surgir, o clã Bolsonaro passou a cobrar publicamente, depois de alguns dias de silêncio, a preservação do cadáver. Além de uma necropsia “independente”, eles também pedem uma “perícia imparcial” nos 13 aparelhos de telefone celular e sete chips apreendidos. Lançam de antemão, ainda, suspeitas sobre dados que poderão ser extraídos desses telefones, atualmente sob custódia do Ministério Público do Rio, responsável pela Operação Intocáveis. Não é só: com a estratégia, o próprio presidente ajuda a difundir dúvidas sobre o que ocorreu na cena do crime, a partir das lesões encontradas no corpo, que podem indicar não apenas um tiroteio com resistência à prisão, mas indícios de um assassinato e até tortura.

Para o advogado Paulo Emílio Catta Preta, representante da família de Adriano em Brasília, o laudo pericial contém uma “coleção de estranhezas” e “reforça a possibilidade de execução”. O defensor citou até mesmo uma perfuração no pescoço, um corte no tórax, outro na testa -- “a sugerir uma coronhada”, de acordo com ele --, sete costelas quebradas, além de marcas na pele que podem ter sido provocadas pelo contato do cano de armas longas com o corpo, um indicativo de tiros a curta distância.

Catta Preta advoga em Brasília e nega contato com os Bolsonaro, embora os discursos estejam afinados em alguns pontos, como na defesa da preservação do corpo -- inicialmente, a família havia optado pela cremação, como seria desejo do ex-integrante do Bope -- e de uma nova perícia.

Apesar de idas e vindas e também de decisões contraditórias das Justiças do Rio e da Bahia, a federalização do crime, por enquanto, não está na ordem do dia do governo, tampouco da família. Se isso ocorresse, faria com que a Polícia Federal -- subordinada ao ministro da Justiça, Sérgio Moro -- entrasse na investigação. Guardiã dos segredos e da intimidade de Adriano, a viúva Júlia Emília Mello Lotufo não pediu proteção ao governo federal nem à do Rio, de acordo com o advogado Paulo Emílio Catta Preta./COLABOROU TÂNIA MONTEIRO.

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MP da Bahia pede que corpo de Adriano seja preservado e periciado

Promotoria baiana entende que é preciso preservar o corpo de Adriano para que pontos ainda obscuros sobre a operação que levou à sua morte possam ser esclarecidos por novos exames

Caio Sartori, enviado especial

18 de fevereiro de 2020 | 19h23

SALVADOR - O Ministério Público da Bahia requereu à Justiça nesta terça, 18, que o corpo do miliciano Adriano Magalhães da Nóbrega, morto há dez dias, seja preservado para que seja submetido a novos exames periciais. A defesa de Capitão Adriano, como era conhecido o homem acusado de chefia a quadrilha Escritório do Crime, também entrou com um pedido - “mais amplo”, segundo o advogado Paulo Emilio Catta Preta. Nele, solicita a possibilidade de a família fazer uma perícia independente. 

O documento do MP é assinado pelos promotores Dario Kist e Gilber de Oliveira, que atuam em Esplanada, onde Adriano foi morto pela PM da Bahia. Teve como base a revogação - pelo juiz Gustavo Kalil, da Justiça do Rio - do impedimento de cremação do corpo. A Promotoria baiana entende que é preciso preservar o corpo de Adriano para que pontos ainda obscuros sobre a operação que levou à sua morte possam ser esclarecidos por novos exames.

O impasse em torno do enterro, sepultamento ou cremação do corpo já dura dez dias . Cresce na medida em que o presidente Jair Bolsonaro e sua família repetem declarações para reforçar a narrativa de que Adriano foi torturado e executado pela polícia baiana. Ontem, o presidente defendeu a realização de perícia independente ao citar o pedido feito pelo MP.

O senador Flávio Bolsonaro (sem partido-RJ), filho do presidente, que propôs que o miliciano recebesse a Medalha Tiradentes, mais alta honraria do Legislativo fluminense, e empregou a ex-mulher e a mãe dele em seu gabinete, voltou a se manifestar sobre o caso no Twitter. Ele publicou na rede social um vídeo com imagens de um cadáver que seria de Adriano. Também voltou a provocar o governo da Bahia, comandado pelo governador Rui Costa (PT)

“Perícia da Bahia (governo PT), diz não ser possível afirmar se Adriano foi torturado. Foram 7 costelas quebradas, coronhada na cabeça, queimadura com ferro quente no peito, dois tiros a queima-roupa (um na garganta de baixo p/cima e outro no tórax, que perfurou coração e pulmões.”, escreveu o senador. As imagens do vídeo, porém, não mostrarem nenhum indício do que ele afirma. O cadáver aparece nu, deitado sobre o lado direito e de costas. 

Segundo o Ministério Público do Rio, a ex-mulher de Adriano, Danielle Mendonça, e a mãe, Raimunda Veras Magalhães, eram funcionárias fantasmas. Fariam parte do suposto esquema de “rachadinha” (devolução do salário ao parlamentar) no gabinete de Flávio na Assembleia Legislativa (Alerj). O miliciano, segundo o MP, era beneficiado pelos desvios. O MP investiga os crimes de peculato (apropriação, por servidor, de recurso público), lavagem de dinheiro e organização criminosa.

Investigadores da Bahia aguardam a conclusão de três laudos importantes para concluir o que ocorreu durante a operação do dia 9. Um deles é o residuográfico, que vai dizer se Adriano de fato disparou contra os agentes antes de ser morto. Outro é o resultado da perícia feita no local da morte. Há ainda a análise das armas e dos escudos usados pelos policiais. 

A Polícia Civil e a Secretaria de Segurança não passam oficialmente informações precisas sobre os laudos - ou quando serão divulgados. Apesar do incômodo com as declarações da família Bolsonaro e de adeptos da tese de “queima de arquivo”, há cautela para trabalhar com calma nos laudos. O objetivo é evitar brechas que permitam mais críticas. Uma fonte ouvida pelo Estado acredita que tudo possa ser concluído após a semana do Carnaval, ou seja, por volta do fim do mês. 

Segundo o advogado Catta Preta, a família de Adriano está consternada" com dificuldade para dar algum destino ao corpo dele.

Telefones. O MP do Rio informou já ter recebido material apreendido em Esplanada (BA) encontrado pela Polícia com Adriano. Entre os objetos apreendidos, estão celulares que o miliciano usava para se comunicar. Tudo será submetido a perícia.

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Bolsonaro cobra 'perícia independente' em corpo de Adriano da Nóbrega

Presidente sugere que áudios podem ser inseridos em telefone do miliciano para incriminá-lo

Julia Lindner, O Estado de S.Paulo

18 de fevereiro de 2020 | 10h18

BRASÍLIA - O presidente Jair Bolsonaro cobrou nesta terça-feira, 18, uma perícia independente no corpo do miliciano Adriano da Nóbrega, o capitão Adriano, que era procurado sob acusação de chefiar no Rio a milícia Escritório do Crime.

Após apontar no fim de semana a “PM da Bahia, do PT”, como responsável pela morte do ex-policial militar, o presidente disse ter tomado "providências legais" para que a apuração não fique restrita à polícia baiana e sugeriu que áudios podem ser inseridos no telefone apreendido com o intuito de incriminá-lo.

Bolsonaro também classificou como "grave" a carta assinada por um grupo de 20 governadores, divulgada na segunda, em que criticam o presidente pelas declarações a respeito de Adriano. A reação dos governadores começou a ser construída no sábado, logo após o presidente afirmar que o governador da Bahia, Rui Costa, “mantém fortíssimos laços” com bandidos e que a PM baiana foi a responsável pela morte do miliciano.

"Essa carta (dos governadores), tem uma algo mais grave ali. Eles estão criticando minha postura no caso do capitão Adriano. Eu esperava que os governadores fossem querer uma investigação isenta no caso Adriano", rebateu Bolsonaro nesta terça.

Adriano foi morto durante operação policial em Esplanada (BA), no domingo, 9. Ele fora localizado após fugir, por mais de um ano, da polícia fluminense. O miliciano tinha ligações com o senador Flávio Bolsonaro (sem partido-RJ), filho do presidente, que já o homenageou na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) e empregou parentes em seu gabinete. 

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Pelo o que estou sabendo, o MP (Ministério Público) Federal da Bahia, não tenho certeza, vai cobrar uma perícia independente hoje. É o primeiro passo para começar a desvendar as circunstâncias em que ele (Adriano) morreu e por quê. Poderia interessar para alguém a queima de arquivo. Contra quem ele teria para falar? Contra mim que não era nada. Contra mim teria certeza que os cuidados seriam outro para preservá-lo vivo
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Jair Bolsonaro, presidente da República

Minutos antes de falar com a imprensa, o presidente havia se referido ao assunto no Twitter. "A quem interessa não haver uma perícia independente? Sua possível execução foi 'queima de arquivo'? Sem uma perícia isenta os verdadeiros criminosos continuam livres até para acusar inocentes do caso Marielle", postou Bolsonaro.

A manifestação do presidente ocorre após o juiz Gustavo Kalil, da 4.ª Vara Criminal do Rio de Janeiro, decidir na segunda-feira, 17, que “não há necessidade de conservação” do corpo do ex-policial militar “nem de novos exames periciais". Na sexta-feira passada, no entanto, o mesmo juiz havia determinado a conservação do corpo em câmara de refrigeração até a realização de todas as diligências para esclarecer a morte do ex-PM. Ontem, Kalil revogou a própria decisão.

Familiares de Nóbrega pedem na Justiça o direito de cremar o corpo do ex-capitão. O pedido, no entanto, foi negado na semana passada pela juíza Maria Izabel Pena Pieranti, do Plantão Judiciário, que alegou ausência de documentos - essa medida continua em vigor. Viúva do ex-capitão, Julia Lotufo pediu a realização de uma perícia no corpo. O advogado da família, Paulo Catta Preta, concederá uma entrevista em Brasília nesta terça-feira para reforçar o pedido.

Perícia no telefone

O presidente disse ter receio de haver distorções na perícia oficial feita pela polícia da Bahia, que responde ao petista Rui Costa, e que alguém poderia até inserir áudios supostamente falsos para relacioná-lo ao miliciano.

"Tem outra coisa mais grave: vai ser feita perícia no telefone apreendido com ele. Será que essa perícia poderá ser insuspeita? Porque eu quero uma perícia insuspeita", afirmou Bolsonaro.

Segundo o presidente, áudios podem ser inseridos para tentar relacioná-lo às atividades criminosas de Adriano. "Nós não queremos que seja inserido áudios no telefone de conversações no WhatsApp. Depois que se faz uma perícia, se por ventura uma pessoa seja atingida, que pode ser eu, apesar de ser presidente da República, quanto tempo teria para ser feita uma nova perícia? Vocês lembram do caso do porteiro", afirmou à imprensa, em referência ao depoimento de um porteiro na investigação da morte da vereadora Marielle Franco.

O presidente disse não ter interesse em uma "queima da arquivo" no caso Adriano, mas lançou suspeitas de uma tentativa de prejudicá-lo. "A quem interessa queima de arquivo? A mim não. Zero. O que é mais grave agora: primeiro estou pedindo, já tomei as providência legais, para que seja feita uma perícia independente", afirmou, sem detalhar quais medidas teria tomado.

O Escritório do Crime, da qual Adriano fazia parte, foi investigado nas operações Os Intocáveis e Os Intocáveis II, é acusado de explorar grilagem, promover extorsões e cometer assassinatos por encomenda. Ronnie Lessa, preso sob acusação de matar Marielle e o motorista Anderson Gomes, em março de 2018, é ligado a essa milícia.

Federalização

Questionado sobre a possibilidade de federalizar o caso Adriano, ele afirmou que "está em uma sinuca de bico". "Podem achar que, ao federalizar, eu teria alguma participação, alguma influência no desfecho, na investigação. É zero. Se o (ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio) Moro achar que deve federalizar, a decisão é dele. Eu não vou falar para ele não ou sim", disse o presidente.

Bolsonaro citou a investigação sobre a morte de Marielle Franco para criticar a atuação da Polícia Civil do Rio de Janeiro. "As investigações conduzidas pela Polícia Civil do Rio de Janeiro, a começar pelo caso do porteiro, você já vê que está contaminado. Por exemplo, agora diz que a voz não é do porteiro. Foi feita alguma nova investigação sobre o porteiro? Em federalizando, vai ter que ir para cima do porteiro. Por que você falou isso?", questionou Bolsonaro.

"Ele (o porteiro) falou, depois desmentiu o que falou, depois foi desmentido de novo. Está feio o negócio. Eu quero é saber quem mandou matar a Marielle, sem problema nenhum. Assim como quero saber quem matou Celso Daniel, assim como eu quero saber quem mandou matar um tal de Jair Bolsonaro. Por coincidência, o cara que me esfaqueou foi filiado ao PSOL até bem pouco tempo. Essas são as verdades que têm que ser colocadas para fora. E não é difícil colocar para fora", continuou.

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Os últimos dias do capitão Adriano na Bahia

Após receber aviso, ele deixou condomínio de luxo, cruzou mangue e se refugiou em fazenda

Caio Sartori, ENVIADO ESPECIAL ESPLANADA E MATA DE SÃO JOÃO (BA), O Estado de S.Paulo

15 de fevereiro de 2020 | 19h30

O manguezal vizinho aos condomínios de luxo da Costa do Sauípe, a 100 km de Salvador, parece tranquilo. Famílias pobres tiram dos caranguejos seu sustento. Uma moradora, no entanto, alerta: “Vocês são doidos de ficar aqui, isso aqui é cheio de gente ruim”, diz, em referência a ladrões que aproveitam a mata fechada para praticar pequenos furtos. Foi dessa região que, há duas semanas, o miliciano Adriano Magalhães da Nóbrega teria protagonizado uma fuga para a cidade de Esplanada, no norte baiano, onde acabou morto por policiais.

Acusado de chefiar a milícia Escritório do Crime – citada em investigações da morte da vereadora do PSOL Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes –, Nóbrega estava na Costa do Sauípe desde dezembro do ano passado. Antes que a polícia chegasse ao “esconderijo”, ele saiu pelo fundo da casa, cruzou a área de mangue, nadou e passou pela praia. Depois, chegou à área urbana e alugou um carro, de acordo com a reconstituição feita pela Polícia Civil.

Estado passou os últimos dias à procura de pistas deixadas na Bahia pelo “capitão Adriano”, como era conhecido o ex-oficial do Batalhão de Operações Especiais (Bope) da PM fluminense. Nos três endereços por onde passou nos últimos dois meses, os relatos descrevem Nóbrega como um homem discreto, de pouca disposição para conversar.

Para uma funcionária do condomínio de luxo em que ele ficou por quase dois meses no Sauípe, o ex-policial militar chamava atenção pelas “costas fortes” e pela expressão fechada que carregava no rosto. “Ele vivia andando de bicicleta pelo condomínio, via sempre. Um homem bonito daqueles fazer uma coisa dessas”, afirmou. Além de deixar para trás uma identidade falsa, Adriano abandonou uma quantidade grande de alimentos estocados.

O destino dele, a partir dali, foi uma fazenda no município de Esplanada, que tem menos de 30 mil habitantes. Ali vive o fazendeiro Leandro Guimarães, famoso pelas vaquejadas que promove em sua propriedade, chamada Parque Gilton Guimarães. O terreno, repleto de cabeças de gado, é conhecido como “entrada dos coqueiros”.

O terreno principal da fazenda tem duas casas. Uma delas é mais discreta, reservada a um funcionário. A outra é pintada de amarelo claro e abriga a família Guimarães, que vive entre Esplanada e Pojuca, município a cerca de 80 quilômetros dali. Foi nesse espaço que Nóbrega se instalou e permaneceu durante uma semana, até ser morto em uma operação policial.

Guimarães disse à polícia que não sabia que Adriano era foragido e só percebeu que era um homem “perigoso” quando o ex-PM o ameaçou. O fazendeiro foi preso por porte ilegal de armas. Foi solto pela Justiça, que fixou fiança e ordenou que usasse tornozeleira eletrônica.

Em seus últimos dias de vida em Esplanada, o ex-capitão circulou armado pelo campo, andou a cavalo e fez caminhadas. Só conversava com o “patrão”, segundo um funcionário da fazenda. Era misterioso e “dava medo”, segundo ele. Guimarães relatou que Adriano disse que queria comprar uma propriedade na região e, em sua companhia, visitou algumas, mas não gostou de nenhuma.

O delegado Maurício Sansão, diretor do Departamento de Repressão e Combate ao Crime Organizado (Draco), disse que o miliciano visitava a Bahia havia quase três anos. Os investigadores baianos apuram, agora, se Adriano lavava dinheiro por meio da compra de gado.

Além da suspeita de ligação com a morte de Marielle, Adriano também era um dos alvos da investigação sobre “rachadinha” no gabinete do então deputado estadual Flávio Bolsonaro na Assembleia Legislativa do Rio.

Cerco

No dia anterior à morte, sábado, o ex-capitão do Bope sabia que a polícia preparava uma operação para capturá-lo. Ex-policial, ele teria informantes que lhe passavam dicas sobre os planos dos investigadores. Sua mulher, Júlia Mello, que ficou em Sauípe, foi parada numa blitz quando voltava ao Rio, de carro, e o avisou de que o cerco policial se aproximava.

Guimarães disse aos investigadores que, por causa disso, foi obrigado a levar Nóbrega para outro lugar. Os policiais, porém, suspeitam que os dois eram cúmplices. O destino “mais seguro”, a cerca de dez quilômetros dali, era muito diferente das acomodações em Sauípe e da fazenda de Guimarães. Nóbrega se abrigou em uma casa de dois quartos num pequeno sítio, que pertence ao vereador de Esplanada Gilson de Dedé (PSL). Ali foi o terceiro ponto conhecido da fuga do miliciano. Questionado, o vereador disse não conhecer o ex-capitão do Bope e afirmou que o imóvel foi invadido.

Para o advogado de Nóbrega, Paulo Emilio Catta Preta, a morte pode ter sido uma operação de “queima de arquivo”. A polícia nega execução e diz que o miliciano resistiu, armado, à ordem de prisão.

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Questão política é obstáculo para solução do crime, diz advogado de miliciano morto na Bahia

Catta Preta chamou de “quadro esquizofrênico” a sucessão de decisões judiciais sobre o destino do cadáver de Adriano da Nóbrega

Felipe Frazão, O Estado de S.Paulo

18 de fevereiro de 2020 | 13h00

BRASÍLIA - Um dos defensores do ex-capitão da Polícia Militar do Rio Adriano da Nóbrega, o advogado Paulo Emílio Catta Preta disse nesta terça-feira, dia 18, que a pressão política atrapalha a investigação sobre a morte do homem apontado como líder da milícia Escritório do Crime.

“É uma avaliação minha”, afirmou ao ser questionado se havia pressão de políticos sobre a Justiça e as polícias estaduais do Rio e da Bahia, envolvidas na busca que terminou no fuzilamento do miliciano. “A questão política prejudica, vem como um obstáculo para nós. O componente político não é saudável para a solução do caso. Talvez se não estivesse em evidência certamente meus pedidos (na Justiça pela preservação do corpo e nova perícia particular) já teriam sido atendidos.”

O advogado não quis comentar especificamente as recentes declarações do presidente da Republica, Jair Bolsonaro, sobre o crime e tampouco a de governadores estaduais. Ele classificou o embate político como “uma briga de querer empurrar (o cadáver) para o colo dos outros”.

O presidente da República e seus filhos parlamentares federais, o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) e o senador Flavio Bolsonaro (sem partido-RJ), se manifestaram nos últimos dias cobrando uma perícia imparcial no cadáver e em aparelhos celulares apreendidos com o ex-PM. O presidente falou hoje no envolvimento do Ministério Público Federal. O clã Bolsonaro usou as redes sociais para reforçar a hipótese de que Nóbrega possa ter sido alvo de queima de arquivo e que possam tentar vinculá-lo à família. Apesar de suspeito de cometer crimes quando policial, o ex-capitão havia sido homenageado pelos Bolsonaro no Legislativo. O caso levou a um choque direto de declarações entre o presidente e o governador da Bahia, Rui Costa (PT), que sugeriu que o criminoso tinha “amizades” na Presidência da República.

Catta Preta negou ter conversado com o presidente sobre o caso e afirmou que não sabe se algum familiar foi procurado pelo clã Bolsonaro para tratar da morte do ex-capitão. O advogado disse não ter sido eleitor de Bolsonaro.

Adriano da Nóbrega é suspeito de ter vínculos com um esquema de devolução de salários por parte de servidores conhecido como “rachadinha”, que teria ocorrido no gabinete do atual senador Flávio Bolsonaro (sem partido-RJ), quando era deputado estadual no Rio.  A organização criminosa que Nóbrega era acusado de integrar é também suspeita de ter atuado na execução da vereadora Marielle Franco (PSOL).

Liberação do cadáver para enterro

A advogado afirmou que o cadáver pode ser liberado a qualquer momento para sepultamento, depois de uma ordem da Justiça do Rio. O corpo estava sendo mantido em câmara fria pelo Instituto Médico Legal (IML), mas uma decisão judicial determinou a remoção na noite desta segunda-feira, dia 17, o que pode ser cumprido ao longo de hoje.

Segundo o advogado, familiares de Nóbrega desejam, porém, aguardar alguns dias e não sepultar ou cremar o corpo imediatamente. Das decisões que proibiam a cremação, apenas uma ainda está válida, a da Vara de Registros Públicos do Rio. Se quiser cremar, como segundo familiares era desejo do ex-capitão da PM do Rio, a família terá de submeter novo pedido à juíza. Para um enterro comum, não há restrições.

“Até os próximos dias família não pretende fazer esse pedido”, disse o representante dos familiares.

O advogado afirmou que tenta um recurso na Justiça da Bahia, onde Nóbrega foi morto na cidade de Esplanada (BA), que garanta uma nova ordem de preservação do corpo. Isso porque os familiares desejam fazer uma perícia particular no cadáver, mas querem o acompanhamento de peritos judiciais e que seja feita nas instalações do IML do Rio, o que daria mais robustez à prova, avalia Catta Preta.

“Teria uma validade muito maior do que se fosse realizado numa funerária. A família quer ter o direito de indicar um perito, um assistente contratado por eles próprios para fazer um laudo dentro do IML contraponto eventuais conclusões a que se cheguem sobre a morte do Adriano”, disse o defensor.

Catta Preta classificou como “um quadro esquizofrênico” a indefinição de competências e a sucessão de decisões judiciais entre os judiciários estaduais do Rio e da Bahia quanto ao destino do cadáver.

O advogado colocou em dúvida a versão oficial de que uma troca de tiros entre o miliciano e policiais baianos ocasionou a morte.

Para ele, o laudo necroscópico que indica uma série de lesões no corpo contém “uma coleção de estranhezas” e “reforça a possibilidade de execução”.

Ele citou uma perfuração no pescoço, um corte no tórax, um corte na testa (“a sugerir uma coronhada”), sete costelas quebradas, além de marcas na pela que podem ter sido provocadas pelo contato do cano de armas longas com o corpo, um indicativo de tiros a curta distância.

Catta Preta afirmou que, nesse momento, a defesa não tem interesse em realizar perícias em aparelhos telefônicos usados pelo ex-PM, que foram apreendidos e estão sob custódia do Ministério Público fluminense. Ele reclamou que a cena do crime não foi preservada e que soube por relatos na imprensa que uma mala com pertences teria sido retirada do imóvel rural onde o ex-PM foi morto.

O criminalista afirmou que não teve acesso a nenhum documento sobre a operação de busca que terminou na morte do ex-militar. Ele disse que teve pedidos de acesso aos laudos cadavéricos, por exemplo, negados pela Polícia Civil baiana, o que, em sua avaliação, mostra uma “indisposição” em que a família participe da apuração.

Segundo ele, a viúva de Adriano da Nóbrega e a filhas foram tratadas de forma violenta, com “truculência excessiva”, pelos policiais envolvidos na operação, inclusive com armas apontadas para crianças, e teriam identificado a participação de policiais civis do Rio e da Bahia na ação que devassou uma residência usada pelo fugitivo na Costa do Sauípe.

Catta Preta afirmou que tanto a viúva Júlia quando Adriano da Nóbrega, em chamadas telefônicas dias antes do crime, haviam relatado um temor de que ele estivesse sendo alvo de uma tentativa de execução e não de prisão. “Ele estava muito convicto de que o destino dele seria a morte”, disse. O criminalista relatou, porém, não saber os motivos alegados pelo casal, tampouco quem seria o mandante. O ex-capitão rejeitou uma sugestão para negociasse a rendição.

Todos os familiares do miliciano, segundo o advogado, estão no Rio e sem nenhum tipo de proteção especial oferecida por parte dos órgãos de segurança. Ele negou ter tido contato com órgãos federais, como os ministérios da Justiça e da Segurança Pública e da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos. Ele descartou, nesse momento, um pedido de federalização das investigações. “Ainda é cedo”, avaliou. “Até conseguir a preservação (do cadáver) não pensamos em trazer para órgãos federais ou até que se comprove tentativa de obstrução ou mascaramento.”

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Lula: 'Quem tem de queimar arquivo está no governo federal, e não Rui Costa'

Ex-presidente afirmou ter alertado governador da Bahia para que tomasse cuidado porque iriam 'jogar o caso no colo' dele

Gustavo Porto e Camila Turtelli, O Estado de S.Paulo

18 de fevereiro de 2020 | 20h07

BRASÍLIA - O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva saiu nesta terça-feira, 18, em defesa do governador da Bahia, Rui Costa (PT), que trava um embate público com o presidente Jair Bolsonaro desde a morte do ex-capitão da Polícia Militar do Rio Adriano da Nóbrega. Lula disse ter alertado Costa para que tomasse cuidado porque iriam “jogar o caso no colo” dele.

“Quem tem de queimar arquivo é quem está no governo federal, e não o Rui Costa”, afirmou o ex-presidente, após se reunir com as bancadas do PT na Câmara e no Senado, em Brasília. Foi a primeira vez que Lula esteve na capital federal desde que deixou a prisão, em novembro. “O cidadão não deveria ter sido morto, deveria ter sido preso. Tenho certeza que Rui Costa é homem de bem, que respeita direitos humanos e que jamais faria uma coisa para queimar arquivo”.

Adriano era acusado de ser chefe da milícia “Escritório do Crime”, no Rio. Durante a investigação do assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL), ocorrido em março de 2018, ex-policiais militares que participavam dessa organização foram presos. O ex-capitão do Batalhão de Operações Especiais (Bope) da PM do Rio foi morto no último dia 9, em Esplanada, na Bahia. A suspeita é de que tenha sido executado. Diante de insinuações sobre a ligação do clã Bolsonaro com Adriano, o presidente decidiu partir para o contra-ataque. 

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Bolsonaro é ‘metralhadora giratória disparando agressividade’, diz governador da Bahia

Desde o fim de semana, Costa tem se posicionado contra declarações de Bolsonaro sobre a operação que matou o miliciano Adriano Magalhães da Nóbrega

Entrevista com

Rui Costa, governador da Bahia

Caio Sartori, Enviado Especial

18 de fevereiro de 2020 | 15h30

SALVADOR - Mais novo alvo de Jair Bolsonaro, o governador da Bahia, Rui Costa (PT), classificou o presidente como uma “metralhadora giratória disparando agressividade”. Desde o fim de semana, Costa tem se posicionado contra declarações de Bolsonaro sobre a operação que matou o miliciano Adriano Magalhães da Nóbrega, no dia 9, no interior baiano.

Bolsonaro disse que “a polícia do PT” executou o ex-capitão do Bope, que já teve a mãe e a ex-mulher empregadas no gabinete de Flávio Bolsonaro quando o hoje senador era deputado estadual no Rio. Nóbrega também era um dos alvos da investigação sobre suposta prática de rachadinha no gabinete de Flávio.

O governador negou ter dado ordens antes da operação que resultou na morte de Nóbrega e disse que só soube dela depois. “Talvez seja um problema tão grave que ele (Bolsonaro) deve acordar, almoçar, jantar e dormir pensando 24 horas nisso. Só pode ser, porque ele está há quatro, cinco dias obcecado”, afirmou Costa.

O Estado conversou com o governador da Bahia nesta terça-feira, 18. Além das críticas ao presidente, ele falou ainda da dificuldade que os governadores têm em estabelecer diálogo com o Palácio do Planalto e de receber ajuda de Brasília. Costa foi um dos 20 signatários de uma carta aberta de governadores que questiona recentes declarações de Bolsonaro.

Como foi a concepção da carta dos 20 governadores?

Os governadores têm um fórum de WhatsApp em que trocam ideias todos os dias. Quando saiu aquela polêmica (declarações de Bolsonaro culpando a PM baiana pela morte de Adriano e dizendo que o governador é "amigo de bandidos"), houve uma manifestação generalizada. Não teve um, dois ou três que puxaram. É um grupo e, portanto, o posicionamento foi quase generalizado dos governadores, se mostrando indignados. Todo mundo está querendo trabalhar. A conjuntura no Brasil é muito difícil, a crise não passa, e os governadores querem representar e cuidar da população, da Educação, da Saúde. Querem ajudar a gerar empregos para o País. A maioria não tem ajuda do governo federal. E nós temos recebido, tanto governadores quanto prefeitos, constantes agressões do governo federal.

Então a ideia da carta foi todos os governadores manifestarem isso publicamente?

O documento foi não só uma solidariedade à Bahia, mas para chamar a atenção do País para que é preciso restabelecer relações republicanas, de respeito. Quais são as prioridades do momento no País? Não podem ser agressões ou resolver problemas familiares. As prioridades são as dificuldades vividas pelo povo. Há uma inquietação grande dos governadores por causa dos sucessivos ataques. Em um ano, o presidente já atacou a Paraíba, o Maranhão, Pernambuco, Sergipe, Bahia, Rio de Janeiro, São Paulo. Enfim, é uma metralhadora giratória disparando agressividade. Não é possível isso. Nunca se viu isso na história recente do País. Não tem o mínimo de comportamento civilizatório, ético, que se quer de um presidente da República. Espero que, com o documento, o presidente possa repensar suas atitudes. O documento solicita também mais uma audiência com o presidente para que o diálogo se restabeleça.

Por que o sr. acha que ele está insistindo na tese de que Adriano da Nóbrega foi executado?

Não sei, não sou analista. Mas isso, talvez, não saia da cabeça dele e dos filhos dele. Talvez seja um problema tão grave que ele deve acordar, almoçar, jantar e dormir pensando 24 horas nisso. Só pode ser, porque ele está há quatro, cinco dias obcecado falando disso. É como se estivesse com receio de alguma coisa ser descoberta. Hoje (quarta-feira), ele falou dos telefones (os aparelhos apreendidos pela polícia na operação que levou à morte de Adriano). O material todo foi enviado judicialmente ao Rio de Janeiro, usando os meios legais, e quem irá apurar isso é o Ministério Público do Rio. O que toma conta dos brasileiros é a perplexidade: todo mundo perplexo com um presidente da República que há uma semana só pensa nisso. O País não tem problemas, não tem dificuldades? É falta do que fazer, do que cuidar?

Que caminho o sr. enxerga para o PT?

Acho que o PT precisa restabelecer sua capilaridade com a sociedade. Nós perdemos muito nos últimos anos. Precisamos reaproximar, ter núcleos nas comunidades. Eu vou completar 600 viagens como governador da Bahia ao interior. Isso significa um estilo de governar próximo à população.

No plano nacional, como deve ser construída uma oposição a Bolsonaro?

É preciso construir uma unidade – não artificial, mas de valores. Um governo tem que se propor a solucionar os problemas mais graves, aqueles que alcançam a maioria do País. Segurança Pública é um problema gravíssimo, então precisamos discutir e apontar problemas que não passem apenas pela área policial, militar, mas por uma discussão mais ampla que passa por todo o sistema judicial brasileiro. No Brasil, infelizmente, o sucesso das investigações é muito baixo e o das condenações, menor ainda.

Acha que o governador do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB), é um bom nome para protagonizar essa unidade?

Tenho dito que acho prematuro a discussão de nomes para 2022. Até porque não estamos precisando de salvadores da pátria, não é isso que o Brasil precisa. O que nós precisamos é de um conjunto de políticas, de uma ampla unidade da sociedade. Eu acho que precisamos de um projeto de Nação. Não é primeiro o nome, depois o projeto. O nome vem depois, para discutir quem vai implementar o programa. Precisamos construir essa unidade mais ampla possível da sociedade, para evitar uma excessiva fragmentação, que tem sido outro problema. Acho que todos os nomes cotados podem e devem descer um pouco o degrau de sua vaidade pessoal e, juntos, irmos construindo uma unidade de Nação, programática, para depois definirmos quem é o nome mais apropriado para implementar o programa que for elaborado.

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'Espero que chegue a bom termo', diz Bolsonaro sobre investigação da morte de capitão Adriano

Presidente voltou a falar sobre morte de Adriano da Nóbrega, miliciano acusado de chefiar a milícia Escritório do Crime

Daniel Weterman, O Estado de S.Paulo

16 de fevereiro de 2020 | 18h25

BRASÍLIA - O presidente Jair Bolsonaro disse neste domingo, 16, esperar que a investigação sobre a morte de Adriano da Nóbrega, acusado de chefiar milícia no Rio, “chegue a bom termo”. Ele voltou a falar do assunto ao ser questionado na entrada do Palácio da Alvorada, sua residência oficial em Brasília.

O ex-policial foi morto pela Polícia Militar baiana, em cerco em Esplanada (BA), no dia 9, após fugir, por mais de um ano, da polícia fluminense.

Acusado de chefiar a milícia Escritório do Crime, Adriano estava na Costa do Sauípe desde dezembro. Antes que a polícia chegasse ao “esconderijo”, ele saiu pelo fundo da casa, cruzou a área de mangue, nadou e passou pela praia.

O Escritório do Crime é investigado por organizar esquemas de grilagem na zona norte do Rio e por ligação com o assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes. Ministros do Superior Tribunal de Justiça (STJ) ouvidos reservadamente pela reportagem avaliam que a morte do miliciano pode influenciar o julgamento sobre a federalização das investigações do caso Marielle.

No último sábado, 15, Bolsonaro responsabilizou a “PM da Bahia do PT” pela morte de Adriano e declarou que o caso é "semelhante à queima de arquivo do ex-prefeito Celso Daniel". Neste domingo, 16, o presidente foi perguntado se via alguma associação entre partido político e o caso da Bahia. “Não não, estão investigando, espero que chegue a um bom termo”, respondeu.

Em sua conta pessoal no Twitter, o governador da Bahia, Rui Costa (PT) disse neste sábado que “não mantém laços de amizade nem presta homenagens a bandidos nem procurados pela Justiça”. Pelo Twitter, o governador baiano disse que o Estado “não vai tolerar nunca milícias nem bandidagem”.

Futebol

Bolsonaro assistiu na manhã deste domingo à vitória do Flamengo por 3 a 0 no Estádio Mané Garrincha pela Supercopa do Brasil. Na sequência, ele foi a um almoço privado no Setor de Mansões Park Way, uma região a 20 quilômetros da área central de Brasília. O Palácio do Planalto não divulgou informações sobre o evento.

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Em carta, 20 governadores criticam Bolsonaro por não contribuir para ‘evolução da democracia’

Chefes do Executivo dos Estados repudiaram falas recentes do presidente sobre as investigações do assassinato da vereadora Marielle Franco e o 'desafio' lançado aos governadores para que abrissem mão do ICMS

Redação*, O Estado de S.Paulo

17 de fevereiro de 2020 | 17h06

BRASÍLIA e SÃO PAULO – A tensão entre governadores e o presidente Jair Bolsonaro vem crescendo nos últimos dias. Após atritos causados pela proposta de recriar o Ministério da Segurança Pública, no fim de janeiro, e os debates em torno da cobrança do ICMS, no início de fevereiro, um grupo de 20 governadores divulgou, nesta segunda-feira, 17, uma carta em que critica Bolsonaro por declarações a respeito de Adriano Magalhães da Nóbrega, morto em confronto com a polícia baiana no dia 9 e acusado de chefiar uma milícia. Governadores ouvidos pelo Estado, afirmam que o presidente está “destruindo” as pontes com as administrações estaduais. A carta de ontem seria uma maneira de tentar “parar” os ataques. 

A reação dos governadores a Bolsonaro começou a ser construída no sábado, logo após o presidente afirmar que o governador da Bahia, Rui Costa (PT), “mantém fortíssimos laços” com bandidos e que a “PM da Bahia, do PT” foi a responsável pela morte do miliciano, conhecido como capitão Adriano. Em uma longa postagem nas suas redes sociais, Bolsonaro comparou a morte de Magalhães ao assassinato do prefeito petista Celso Daniel, em 2002, e criticou as gestões do PT. Segundo fontes do Planalto, a decisão de fazer a publicação foi tomada pelo próprio Bolsonaro. 

A declaração do presidente gerou uma onda de apoio a Costa no grupo de Whatsapp mantido pelos chefes dos Executivos estaduais. Alguns governadores defenderam uma resposta imediata, alegando que, a qualquer momento, podem virar alvo de falas do presidente. Lembraram que o governador do Rio, Wilson Witzel (PSC), foi responsabilizado pelo vazamento do depoimento de um porteiro que ligava o nome do presidente à investigação da morte da vereadora Marielle Franco e que mesmo aliados foram criticados e perseguidos por grupos de internet ligados à família Bolsonaro. 

Eleições. A avaliação entre os governadores é que Bolsonaro os ataca porque vê alguns deles como potenciais adversários nas eleições de 2022: além de Witzel e de Rui Costa, o paulista João Doria (PSDB) e o maranhense Flavio Dino (PCdoB) costumam ter os nomes ligados à disputa. Segundo governadores, a relação do governo federal com eles tem se deteriorado “em ritmo acelerado”. 

Em conversas no grupo de Whatsapp, quase todos os governadores condenaram as declarações do presidente, criando uma união da direita à esquerda. Partiu de Witzel a ideia de escrever uma carta aberta contra Bolsonaro, o que recebeu o apoio dos outros. O texto publicado ontem diz que as declarações do presidente “não contribuem para a evolução da democracia no Brasil”. 

A carta também menciona o episódio em que o presidente desafiou governadores para que reduzissem, segundo eles, o ICMS, “imposto vital à sobrevivência dos Estados”. “Eu zero o (imposto) federal, se zerar ICMS. Está feito o desafio aqui. Eu zero o (imposto) federal hoje e eles (governadores) zeram ICMS”, declarou o presidente. 

O texto afirma ainda que “equilíbrio, sensatez e diálogo para entendimentos na pauta de interesse do povo é o que a sociedade espera de nós”. Houve uma preocupação de que a carta não fechasse a porta para o diálogo. Apesar de dura, ela termina com um convite para ele participar do próximo Fórum Nacional de Governadores, marcado para 14 de abril. 

“O que os governadores querem é ser chamados para discutir como melhorar a saúde e a educação, e não ser agredidos de forma regular e permanente pela Presidência da República”, afirmou ao Estado, Rui Costa. “Esperamos que haja uma mudança radical do presidente da República e que ele passe a nos respeitar", disse. 

Um dos primeiros apoiadores da carta, Doria também pediu diálogo a Bolsonaro. “Os governadores querem um entendimento pelo diálogo, que é a forma democrática e correta para busca das melhores alternativas de políticas públicas. Sem diálogo e sem entendimento não há democracia”, disse. Após se eleger amparado no voto bolsonarista, Doria tem feito oposição ao presidente. 

Imposto

A ala anti-Bolsonaro entre os governadores tinha perdido força no início do mês, quando o ministro da Economia, Paulo Guedes, aceitou discutir o ICMS. Os ataques a Rui Costa, porém, reorganizaram o grupo. “O presidente Bolsonaro não quer aproximação com o Congresso, não quer aproximação com os governadores. Mas nós todos fomos eleitos”, afirmou o governador do Distrito Federal Ibaneis Rocha (MDB). Ibaneis sempre teve bom trânsito com o governo federal e contato com o presidente. 

Procurado, o Palácio do Planalto disse que não iria comentar a carta dos governadores. Essa não é a primeira vez que governadores reagem a Bolsonaro através de uma carta de repúdio. Em maio de 2019, governadores de 13 Estados mais o Distrito Federal assinaram uma carta contra o decreto que facilitava o porte de armas e o acesso a munições no País, publicado pelo governo Jair Bolsonaro. No documento, eles argumentam que as novas regras podem piorar os indíces de violência nos Estados. O decreto acabou sendo suspenso pelo Senado. Em outubro, oito governadores do Nordeste publicaram um documento em solidariedade ao colega de Pernambuco, Paulo Câmara (PSB), chamado de “espertalhão” pelo presidente por fazer propaganda da versão estadual do décimo terceiro salário do Bolsa Família, um programa federal.

Quem assinou o documento

  • Gladson Cameli (Progressistas-AC)
  • Renan Filho (MDB-AL)
  • Waldez Góes (PDT-AP)
  • Wilson Lima (PSC-AM)
  • Rui Costa (PT-BA)
  • Camilo Santana (PT-CE)
  • Ibaneis Rocha (MDB-DF)
  • Renato Casagrande (PSB-ES)
  • Flávio Dino (PCdoB-MA)
  • Reinaldo Azambuja (PSDB-MS)
  • Romeu Zema (Novo-MG)
  • Helder Barbalho (MDB-PA)
  • João Azevedo (Cidadania-PB)
  • Paulo Câmara (PSB-PE)
  • Wellington Dias (PT-PI)
  • Wilson Witzel (PSC-RJ)
  • Fátima Bezerra (PT-RN)
  • Eduardo Leite (PSDB-RS)
  • João Doria (PSDB-SP)
  • Belivaldo Chagas (PSD-SE)

Quem não assinou o documento

  • Ronaldo Caiado (DEM-GO)
  • Mauro Mendes (DEM-MT)
  • Ratinho Júnior (PSD-PR)
  • Marcos Rocha (PSL-RO)
  • Antônio Denarium (PSL-RR)
  • Carlos Moisés (PSL-SC)
  • Mauro Carlesse (DEM-TO)

 

*ADRIANA FERNANDES, JUSSARA SOARES, PAULA REVERBEL, PEDRO CARAMURU, PEDRO VENCESLAU, RICARDO GALHARDO, VINÍCIUS PASSARELLI E TÂNIA MONTEIRO

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