Ratos transgênicos apresentam cérebro maior

O neurologista Christopher Walsh, da Faculdade de Medicina de Harvard, estuda o desenvolvimento do cérebro, mas ficou surpreso com os resultados de sua pesquisa. Welsh e Anjen Chenn, hoje na Northwestern University, em Chicago criaram camundongos cujos genes expressam (isto é, produzem) em excesso a proteína beta-catenina e compararam com embriões normais. O resultado foi que os transgênicos apresentam um número muito maior de células do córtex cerebral - a massa cinzenta, associada à inteligência. "A quantidade de células é tão grande que o córtex se dobra, formando sulcos e reentrâncias muito semelhantes aos do cérebro humano", explicou Welsh. O córtex cerebral de camundongos normais é praticamente liso. E sulcos e reentrâncias são fundamentais para entender a inteligência humana e de outros primatas. "O córtex é todo dobrado para caber dentro do nosso crânio e no dos camundongos transgênicos. Se nosso córtex fosse liso, nossa cabeça seria dez vezes maior", compara. Decisão Welsh acredita que a beta-catenina - uma proteína que, em tecidos adultos, está envolvida na junção célula-célula e que aparece alterada em várias formas de câncer - regula também a decisão das células que dão origem aos neurônios de se dividir de novo ou se diferenciar. Quanto mais diferenciadas as células, menos elas se dividem. Por isso, células altamente especializadas, como os neurônios e as do miocárdio, nunca se dividem. Já as células que revestem o intestino, por exemplo, são trocadas a cada cinco dias. O processo de diferenciação das células durante o desenvolvimento embrionário funciona mais ou menos como a formação escolar de uma criança. Na 1.ª série (célula-tronco), ela tem o potencial para ser qualquer coisa no futuro: escultor, engenheiro, médico advogado. À medida que avança o processo de diferenciação, as opções diminuem - no 2.º grau, o garoto sabe, pelo menos, se vai para a área de exatas, embora não tenha definido ainda se vai ser físico, químico ou engenheiro. É o equivalente ao que os cientistas chamam de células precursoras. No caso da pesquisa de Welsh, células precursoras de neurônios. A beta-catenina aumenta o número dessas células, que, posteriormente, vão se especializar e transformar em neurônios. O próximo passo da pesquisa é criar uma nova geração de camundongos transgênicos e deixá-los nascer, para ver se o córtex extra vai torná-los mais inteligentes ou não. "Precisamos verificar também se foi este o mecanismo que a natureza usou para fazer nosso cérebro crescer ou não", diz Welsh. Se foi, vai ser mais um dado para fortalecer a idéia de que as diferenças entre chimpanzés e seres humanos, que têm um ancestral em comum, são muito mais quantitativas do que qualitativas, já que as semelhanças genéticas entre as duas espécies beiram os 99%.

Agencia Estado,

18 Julho 2002 | 20h41

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