Jonas Cunha/Estadão
Jonas Cunha/Estadão

Radialista apadrinhou Cunha na política

Peemedebista criou rede de aliados no Rio com a ajuda de Francisco Silva, sócio da Melodia FM

Gabriela Caesar, O Estado de S.Paulo

06 Maio 2016 | 06h36

Do alto da cobertura de um prédio de altíssimo luxo na Barra da Tijuca, zona oeste do Rio, o padrinho de Eduardo Cunha, o empresário e radialista Oliveira Francisco da Silva, tem acompanhado pouco as articulações do agora afastado presidente da Câmara em Brasília. Fragilizado depois de lutar contra um câncer no fígado, aos 77 anos, não tem mais sequer ido à Rádio Melodia FM, agora sob os comandos dos filhos Fábio, Theo e Marcelo – completam a prole Thiago e Aline, adotivos. Não faz muito tempo que Francisco teve de passar por três cirurgias delicadas e, no ano passado, depois de um tombo em casa, foi operado para colocar pinos cirúrgicos.

Em 1998, o radialista elegeu-se deputado federal pela terceira vez. Foi sua última eleição – a mesma em que Cunha estreou nas urnas. A dobradinha no PPB buscava converter em votos o sucesso dos programas evangélicos na Rádio Melodia FM, da qual eram sócios. Em 1994, tinha dado certo: Francisco Silva foi o mais votado no Rio na disputa por uma cadeira na Câmara.

Cunha chegou a Brasília para trabalhar informalmente com Silva. Os dois já tinham sido sócios na empresa Montourisme, da área de turismo. Era seu braço direito e esquerdo.

Número. Quando concorreu pela primeira vez a um cargo público, o então pouco conhecido Eduardo Cunha, de óculos garrafais e rosto arredondado, tentava lembrar a população que “o teclado da urna é igual a um telefone”. O anúncio era em referência à sua gestão na Telerj, de 1991 a 1993. “Anote o número do Eduardo: 11.195. É o número que funciona”, dizia.

Mesmo com o apoio de Silva, Cunha recebeu 15.627 votos e ficou como suplente na Assembleia Legislativa. Os elogios da época da implementação de telefonia móvel já tinham sido esquecidos, mesmo por aqueles que receberam os primeiros celulares tijolões, com linhas iniciadas em 982 ou 987.

“Muitos executivos reclamavam que não conseguiam falar do VIP’s (motel caríssimo na Avenida Niemeyer). Agora conseguem”, disse Cunha ao Jornal do Brasil, em junho de 1992.

Assim ganhou um leque de aliados, inclusive na imprensa. Sabia que precisava dos jornalistas para ganhar visibilidade. A sua retirada do cargo, contra sua vontade, foi criticada por seção opinativa, que destacava Cunha por “competência técnico-administrativa, operosidade e êxito no desempenho”.

O eleitorado ainda tinha, porém, a vaga lembrança de que Cunha aparecia na lista de captadores da campanha do ex-presidente Fernando Collor, então filiado ao PRN. Naquelas eleições, Cunha era secretário executivo da sigla no Rio, indicado pelo tesoureiro PC Farias. E depois foram descobertas irregularidades nos trabalhos de Cunha na Telerj.

Executivo. Após o resultado das urnas de 1998, mais uma vez, o padrinho precisou intervir para abrir as portas, com o convite para Cunha ser subsecretário na pasta de Habitação do governo Anthony Garotinho.

O então governador havia chamado Francisco Silva para chefiar a secretaria como retribuição ao apoio do radialista nas eleições anteriores. Silva tinha contrariado a orientação do próprio partido, o PPB, que fazia parte da coligação da candidatura de Cesar Maia, então filiado ao PFL (hoje DEM).

O rádio foi a forma que Silva, Garotinho e Cunha encontraram para conquistar eleitores. O trio tinha grandes ambições em expandir a Rádio Melodia FM no Brasil, com foco na candidatura de Garotinho para a Presidência, em 2002. O padrinho de Cunha ainda contou pagar as viagens religiosas de Garotinho pelo País.

Posteriormente, a Anatel recebeu uma denúncia de que Silva pressionava rádios comunitárias a retransmitirem programas de sua rádio. Na época, a agência comunicou que abriria investigação administrativa para apurar o caso.

Quando Silva reassume seu mandato na Câmara, deixa a Habitação para Cunha. A pasta passa a receber o nome de Companhia Estadual de Habitação (Cehab). Na equipe de confiança de Cunha já estava Altair Alves Pinto, então com 51 anos, um homem experiente, mas com estudos até o ensino fundamental.

Era Altair quem dirigia o carro blindado no qual estava Cunha, quando o automóvel foi alvo de disparos de bandidos em Paciência, zona oeste do Rio. Era agosto de 2002, e um dos seguranças que estava no outro veículo do grupo ficou baleado no braço. Em mais dois episódios Cunha foi mira de tiros no Rio.

Operador. Aos 66 anos, Altair é o homem de confiança de Cunha. Discreto, sempre de boné, sai pelo amanhecer com a picape que mantém na garagem do apartamento no qual mora com a mulher, próximo ao Maracanã, zona norte do Rio. Sua segunda filha, Danielle, tem o mesmo nome da primogênita de Cunha. Ela nasceu em 1983, quatro anos antes do nascimento de Danielle Dytz da Cunha. Também há semelhanças entre os nomes da segunda filha de Cunha e a mais velha de Altair: a primeira se chama Camilla; a segunda, Camille.

Na Operação Lava Jato, Altair é apontado como “emissário de propinas” do presidente afastado da Câmara. O lobista e operador do PMDB Fernando Soares, conhecido como Fernando Baiano, um dos delatores da investigação, fez o reconhecimento em foto e confirmou ter entregado dinheiro a Altair no escritório de Cunha no Edifício Rodolpho De Paoli, no centro do Rio.

Ao menos cinco salas no prédio foram compradas por Altair em 2003 num leilão e transferidas para o nome de Cunha depois. No dia seguinte à votação da admissibilidade do impeachment na Câmara, uma segunda-feira ensolarada, um funcionário avisava ao Estado que não haveria expediente. De blusa polo e calça jeans, sorrindo, trancou a sala, entrou no elevador e foi embora. Altair mantém uma sala dentro de um dos escritórios de Cunha, avisou a secretária à reportagem, pelo telefone.

Alguns andares abaixo também fica o gabinete de Felipe Bornier (PROS-RJ), deputado federal eleito para a Mesa Diretora na chapa de Cunha e filho do prefeito Nelson Bornier (PMDB), em terceiro mandato em Nova Iguaçu, município da Baixada Fluminense.

Irmã. A vida também continuava calma e discreta para a irmã de Cunha, Edna da Cunha de Castro, uma senhora magra, com cabelos curtos e escuros. Veste roupas simples, sem grife e não gosta de chamar atenção na vizinhança.

Edna mora com o marido, um baixinho com bigode no estilo Levy Fidelix, num prédio na Tijuca, bairro de classe média na zona norte carioca. Os moradores do edifício não saberiam reconhecê-la; só ouviram boatos. O casal não tem filhos nem usa carro. Foi ela quem ficou cuidando da mãe, Elza Cosentino da Cunha, que morreu em abril de 2007. Desde então, Cunha apareceu poucas vezes no local.

Entre 2005 e 2008, Edna estava empregada na equipe de Alexandre Santos (PMDB-RJ), com o salário de R$ 6.010,78, valor equivalente a cerca de R$ 10 mil nos dias de hoje. Santos é casado com a também parlamentar Soraya Santos (PMDB-RJ). Priscila Alencar dos Santos, filha do casal, ficava lotada no gabinete de Cunha. Edna não trabalha mais com política.

A irmã do presidente afastado da Câmara não sente prazer em dirigir um grande Porsche Cayenne ou viajar para a Europa com passaporte diplomático. Edna realmente não tem muitas semelhanças com a cunhada, a jornalista Cláudia Cordeiro Cruz, inteirada dos assuntos da alta sociedade carioca. Ou com Andreia Legora David, aliada de Cunha que já foi motivo de ciúmes de Cláudia.

Formada em Direito, Andreia foi indicação de Cunha para trabalhar com aliados do presidente afastado da Câmara no Estado, como Helil Cardozo e Domingos Brazão. Também esteve lotada no gabinete de Cunha na Câmara entre 2007 e 2012. Duas pessoas próximas a Andreia dizem que ela morava em Bonsucesso, na zona norte, e começou como secretária na Cehab antes mesmo de entrar na faculdade. Hoje, aos 39 anos, mora a somente 100 metros do prédio de Francisco Silva, na Barra da Tijuca, com a mãe e a filha.

O apartamento de 300 metros quadrados é avaliado em, pelo menos, R$ 3 milhões. Dirigia um iX35, da Hyundai, mas resolveu trocar de carro recentemente. Andreia é vizinha no prédio de Fábio e Theo Silva, filhos do padrinho de Cunha. Todos podem aproveitar piscina, sala de massagem e academia e pagam, por mês, cerca de R$ 3 mil de condomínio.

Theo, nome dado em homenagem ao pai de Francisco Silva, exerceu um mandato como vereador, de 2006 a 2010. Já o peemedebista Fábio Silva é o filho de Francisco que foi para a vida política. Sua estreia eleitoral em 1998 é dada como o motivo para Cunha não ter conquistado muitos votos naquela época. Ambos disputavam o mesmo cargo. A partir de 2002, a dupla passou a se organizar melhor e aproveitar os cadastros da Rádio Melodia FM para manter os laços com os ouvintes. Fábio está no quarto mandato na Assembleia Legislativa.

“Querido Felipe, parabenizamos por mais um ano de vida! Deus te ilumine e te guarde sempre. Fabio Silva e Eduardo Cunha – Rádio Melodia”, dizia uma das mensagens de texto, enviada em agosto de 2015.

Homenagem. Logo depois que Cunha foi eleito presidente da Câmara, em nome da família, Fábio e os deputados estaduais Domingos Brazão e Waguinho trataram de homenagear o peemedebista com a Medalha Tiradentes. A condecoração foi aprovada com facilidade no plenário.

Os filhos de Francisco Silva sempre viram potencial de mercado na Rádio Melodia FM e costumam destacar o crescimento da audiência. Os sonhos da família Silva eram muito grandes para a cidade natal do pai, o município paulista Cunha, com pouco mais de 20 mil habitantes. Também foi deixado para trás o negócio que Silva tocava antes da rádio, o laboratório de fabricação do Atalaia Jurubeba, fortificante e remédio para o fígado.

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