Nilton Fukuda/Estadão
Nilton Fukuda/Estadão

‘Racha’ no Novo vira ‘MMA’ nos bastidores do partido

Dirigente partidário faz duras críticas a parlamentar no Facebook e reforça posição de que mandatários contrários ao impeachment podem ficar sem legenda em 2022

José Fucs, O Estado de S.Paulo

22 de setembro de 2021 | 16h33

O “racha” no partido Novo, com o possível veto às candidaturas da maioria de seus oito deputados federais nas eleições de 2022 e a saída dos parlamentares da legenda, está ganhando contornos de "MMA" nas redes sociais e nos bastidores partidários.

Em publicação feita só para amigos no Facebook na segunda-feira, 20, à qual o Estadão teve acesso, o tesoureiro do Novo, Moisés Jardim, um dos seis integrantes do Diretório Nacional, criticou duramente o deputado federal Marcel van Hattem (Novo-RS), por se colocar contra as decisões do partido, defendidas por seu fundador, João Amoêdo, de apoio ao impeachment do presidente Jair Bolsonaro e adoção de uma postura de oposição ao governo.

Jardim disse que, em decorrência do posicionamento de Van Hattem em relação às duas questões na entrevista publicada pelo site do jornal no domingo, é real o risco de ele ter a candidatura à reeleição em 2022 barrada pelo partido.

“Numa entrevista enviesada, o deputado Marcel Van Hattem distorce a realidade e insiste na sua tese de que não há materialidade de crimes de responsabilidade por parte do Presidente da República”, afirmou Jardim, que apagou o post um dia depois, diante das reações negativas que gerou. “O deputado só acerta quando reconhece o risco de não ter a sua candidatura pelo partido em função de posicionamentos contrários às diretrizes partidárias já definidas para 2022.”

Questionado pelo Estadão sobre a publicação, Jardim disse que as suas afirmações refletem uma “posição pessoal”, mas estão em linha com as diretrizes partidárias para a campanha eleitoral do ano que vem. Ao ser informado de que o presidente do partido, Eduardo Ribeiro, afirmou ao jornal na semana passada que o apoio ao impeachment e a postura de oposição ao governo eram “posições institucionais” e que as candidaturas do Novo serão norteadas pelo comprometimento com a busca de uma “terceira via”, Jardim declarou que as duas coisas estão relacionadas.

“Se a gente quiser transformar o Novo numa plataforma de terceira via viável, não dá para ficar quieto diante de tudo o que está acontecendo”, disse. “Para isso, temos de ser tão oposição a este governo que está aí quanto fomos ao PT, pela forma como ele atua, atacando instituições, gerando instabilidade, não cumprindo com tudo o que prometeu na campanha.”

Em relação às afirmações de Jardim no Facebook, Ribeiro afirmou que elas não representam a posição oficial da legenda. “O partido sempre se manifestará por meio dos canais institucionais.” O presidente do Novo disse que “o maior compromisso do partido hoje” é com a viabilização de uma candidatura de terceira via, deixando aberta uma fresta para que os mandatários que se alinham com a proposta, mas não apoiam o impeachment, possam continuar na agremiação. “A posição institucional pelo impeachment continua, e isso pode deixar alguns desconfortáveis. Mas, dado que o impeachment se tornou improvável no cenário atual, a estratégia eleitoral do partido é a construção da terceira via.”

Para Van Hattem, o post de Jardim “apenas confirmou” o que ele disse na entrevista ao Estadão. “Trata-se apenas de mais uma tentativa de constrangimento dos mandatários do Novo, feita de forma inadequada e em público, algo que tem sido recorrente”, disse. “Tomara que ele reflita sobre tudo o que está ocorrendo no Novo, lembre dos nossos propósitos iniciais e reveja esse seu posicionamento. Como dirigente eu entendo que sua função não deveria ser a de semear a discórdia em público, mas a de buscar a união do partido interna e externamente.”

Além de ter se tornado alvo da publicação de Jardim, Van Hattem foi questionado internamente por ter afirmado na entrevista que há “conflito de interesses” na comunicação no Novo, em razão de ela ser coordenada pelas mesmas pessoas e empresas que cuidam da comunicação de João Amoêdo, tanto no que se refere à assessoria de imprensa, a cargo da Caravelas Comunicação, quanto na gestão das redes sociais, sob a responsabilidade do publicitário Daniel Guido.

Em mensagem enviada a Van Hatten via WhatsApp, Guido pede explicações a ele sobre o que chamou de "insunuação" de que há um comando de Amoêdo sobre a comunicação do Novo. O parlamentar disse ter respondido que suas afirmações sobre a comunicação do partido estavam claras e que não tinha nada a acrescentar ao que foi dito na entrevista.

Procurado para comentar a questão, o Novo se manifestou por meio de uma nota encaminhada à reportagem pela assessoria de imprensa. “O Partido Novo vive com dinheiro de seus filiados, tem suas contas abertas, de forma transparente, e contrata os fornecedores que considera mais qualificados e alinhados com seus princípios e valores”, diz a nota. “A atual chapa do Diretório Nacional foi eleita por unanimidade em setembro de 2019, tendo João Amoêdo como presidente. Amoêdo renunciou em março de 2020 e não tem nenhuma ingerência direta ou indireta sobre a gestão partidária nem sobre os prestadores de serviços contratados.”

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