R$ 21 milhões viram sucara no interior de SP

O mau uso do dinheiro público nos programas de desenvolvimento regional do governo não é uma exclusividade das regiões Norte e Nordeste do País. Denúncias de superfaturamento e desvio de recursos marcam projetos governamentais criados com o pretexto de levar progresso ao Vale do Ribeira, no sul de São Paulo, considerada a região mais pobre do Estado. No município de Eldorado, os US$ 9,3 milhões - cerca de R$ 21 milhões em valores atuais - que o Banespa liberou em 1992 para financiar um projeto de criação de peixes e camarões gigantes, transformaram-se em um monte de sucata.Apenas parte do dinheiro foi investida e, de toda a produção da fazenda, nem um centavo retornou aos cofres públicos. "É a Sudam paulista", ironiza o secretário municipal de Desenvolvimento Rural de Sete Barras, Gilberto Ohta de Oliveira.Os planos eram ambiciosos: a Fazenda do Camarão, no Vale do Etá, entre Sete Barras e Eldorado, deveria produzir 592 toneladas de camarão-da-malásia e 3,6 mil toneladas de tilápias saint peter em seus 200 tanques de criação e engorda, criando mais de 600 empregos. A empresa Cacau-Açu, criada pelo grupo Sopoupe, foi buscar tecnologia israelense para instalar o criatório.O gerente de análise do departamento de desenvolvimento do banco na época, Jair Martinelli, previa um faturamento anual de US$ 12 milhões, com rentabilidade de 30%.As instalações, com a melhor tecnologia mundial, ocuparam uma área inicial de 90 hectares. Pequenos criadores da região seriam transformados em parceiros, estendendo o projeto para área de 1.300 hectares.A fazenda produziu muito peixe entre os anos de 1994 e 1997, segundo o ex-funcionário Sildmiro Aparecido Abreu, de 61 anos. "Saíam caminhões fechados para o Ceasa de São Paulo e para abastecer os pesque-pague", afirma. Abreu lembra que cada tonelada de peixes vivos rendia R$ 3 mil. "Fizeram um bom dinheiro aqui."ProduçãoMas a unidade nunca produziu camarão, apesar de ter importado 30 incubatórios. Na época, Ohta era vereador e questionou a liberação da verba para grandes empresários de São Paulo, em vez de beneficiar os pequenos produtores da região.Um dos diretores da Sopoupe, Ricardo Elia Effeiche, era genro do empresário Mário Amato, então presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).O projeto parou em 1997, depois que uma auditoria do Banespa constatou que grande parte do dinheiro liberado não tinha sido investida na fazenda. Outros US$ 4 milhões previstos para dar seqüência ao programa não saíram. Os recursos eram oriundos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).O caso foi parar na Justiça. O projeto foi abandonado. Mais de 50 empregados entraram com ações trabalhistas. O governo não conseguiu sequer reaproveitar os equipamentos, que foram penhorados. Toda a estrutura está tomada pelo mato e os equipamentos, sucatados. "Foi um grande golpe", afirma o ex-prefeito de Sete Barras Benedito Sacon.Os ex-donos da fazenda, os irmãos Ricardo e Rubens Effeiche, não foram encontrados nos endereços, em São Paulo, fornecidos à Justiça. Seus telefones não constam da lista de assinantes. Na época, eles disseram que não tinham recebido todo o dinheiro que teria sido liberado.

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