''Quero ser um bom prefeito e fortalecer a candidatura Serra''

ENTREVISTA - Gilberto Kassab: prefeito reeleito de São Paulo

Dora Kramer e Ana Paula Scinocca, O Estadao de S.Paulo

27 de outubro de 2008 | 00h00

Prefeito reeleito de São Paulo, Gilberto Kassab (DEM), não disfarça a alegria em ter aumentado seu cacife político ao chegar ao comando da maior cidade do País pelas urnas. Antes, por pouco mais de 2 anos, ocupou o posto com a renúncia de José Serra (PSDB), seu padrinho político. Sua vitória, diz, fortalece o tucano e seu próprio partido. Mas avisa: "O DEM não é anexo do PSDB." Em entrevista ao Estado, Kassab demonstra fidelidade canina a Serra e lança o governador à Presidência. "Chegou a hora de ele ser presidente", afirma. Apesar da gratidão a Serra, acredita ter sido eleito não em razão de transferência de votos, mas sim por sua gestão.Em época de crise financeira mundial, Kassab sabe que os desafios serão muitos, e não descarta a possibilidade de vir a fazer cortes nos investimentos. Mas assegura que a área social não será atingida. "Teremos de ficar atentos às receitas porque não podemos quebrar a prefeitura. Se as receitas diminuírem, será necessário cortar investimentos", afirma. Ao final dos quatro anos, diz, quer ser reconhecido como o "Kassab da eficiência".A crise financeira mundial terá impacto no Orçamento da Prefeitura de São Paulo? Que tipo de ajuste terá de ser feito?Eu tomei o cuidado, até porque, quando encaminhei o Orçamento para a Câmara, nós já tínhamos a crise com muito mais intensidade do que quando o Lula enviou. No caso dele (quando o Orçamento da União foi feito), a crise ainda não tinha mostrado os dentes. Nós estamos muito atentos e não poderemos nos omitir se a crise passar a ter reflexos mais significativos nos municípios. Teremos de ficar atentos às receitas porque não podemos quebrar a prefeitura. Por enquanto, não temos nenhuma sinalização da crise. As receitas não diminuíram. Mas no caso de elas diminuírem é evidente que será necessário cortar investimentos, mas jamais investimentos no social, principalmente na saúde e na educação.Existindo necessidade de corte de despesa quais áreas são mais suscetíveis?Investimentos que não sejam no campo social. Campo social é transporte público, é habitação, saúde e educação. Falando em transporte público, o senhor se comprometeu a não aumentar a tarifa de ônibus até o fim de 2009. Isso significa que haverá aumento de subsídio?Na medida em que você não aumenta a tarifa, a prefeitura precisa pôr mais recursos. O subsídio aumenta. Quanto mais o Estado puder investir para não aumentar a passagem, melhor.Em relação à educação, há dados que mostram que muitas crianças terminam a 4ª série sem saber ler e escrever. O senhor tem uma meta? Daria para dizer que nenhuma criança vai terminar a 4ª série sem saber ler e escrever?Essa é a nossa meta. O importante é comparar. No início da atual gestão nós tínhamos 35% das crianças chegando sem saber ler e escrever ao fim do 2º ano. Hoje, são 15%. O foco agora nessa segunda gestão é continuar melhorando a qualidade do ensino. Nós já temos muita clareza do momento em que vamos acabar com o 3º turno, e, com o fim dele, teremos todas as crianças estudando cinco horas por dia. Isso significa dois anos a mais de estudo para cada criança.A expectativa é acabar com o terceiro turno quando?Em 2009, com certeza.Ao fim de sua nova gestão que marca o senhor pretende deixar? O senhor quer ser o Kassab da educação? O Kassab da saúde?O Kassab da eficiência.Para ficar quatro anos?Evidente. Meu único foco é ser um bom prefeito. Politicamente, meu objetivo é ser um bom prefeito e fortalecer a candidatura do Serra a presidente. Eu acho que é muito importante para o País a eleição do Serra. A partir do momento em que eu concluir meu mandato, e tendo sido um bom prefeito, eu estarei pronto para ser convidado a ajudar em outras missões.Mas os planos mudam... O Serra também foi eleito para ser prefeito e, no entanto, mudou.Mas no meu caso não pode. Eu não tenho biografia para isso. É meu primeiro cargo majoritário. Eu nunca disputei uma eleição (majoritária) antes.Seria um desastre, então, sair da prefeitura antes do fim do mandato?Sim. Seria uma desonestidade para com a cidade. O Serra não errou. Tanto não errou que foi eleito governador com uma votação expressiva. As circunstâncias mudam, mas no meu caso não mudarão. Eu não tenho biografia para essa mudança.E se em 2010 a oposição chegar à conclusão de que o senhor é o melhor quadro para disputar o governo de São Paulo. Se o Serra fizer um apelo, o senhor não entra na briga?Não. Não existe essa possibilidade e o Serra não fará esse apelo. Jamais ele iria fazer esse pedido.Uma das marcas da gestão Serra/Kassab é o projeto Cidade Limpa. Tem um novo programa que será a marca da nova administração?Acho que a lição que nós vamos deixar, com mais esses quatro anos, é que nós vamos mostrar que a cidade entende quando um governante começa a investir para o futuro. Vou continuar com essa linha. Não vou me preocupar em colocar nome em placa. Uma das marcas é que nós vamos deixar São Paulo com 100 parques, e nós encontramos com 31. O senhor vai fazer alterações em seu secretariado? Que tipo de mudança pretende fazer em sua equipe?É evidente que, assim como teve mudanças de secretários ao longo destes 2 anos e meio, vai continuar havendo mudanças rotineiras. Mas eu não tenho nenhuma obsessão em compor um novo secretariado. Estou muito feliz com esse quadro de secretários.Nem mudança para acomodar aliados? O PSDB vai continuar da mesma maneira ou vai ter menos espaço, já que agora o governo é do Kassab?Não. Eu não tenho preocupação com partidos. Eu tenho preocupação com eficiência.E o PMDB?Assim como nas alterações que aconteceram eu consultei o Serra, o Aloysio (Nunes Ferreira), agora eu também vou consultar o PMDB, o PR, o PSC. As escolhas serão minhas, eu não delego. Não tem sentido o partido indicar ninguém. Quem escolhe é o prefeito. Vou começar a refletir em eventuais mudanças daqui para frente.Como foi para o senhor ter tido sua vida pessoal devassada, exposta?Não foi devassada. Todos conhecem minha vida, que é muito simples. Em relação às insinuações maldosas, o que eu tenho a dizer é que a campanha da adversária errou e pagou pelos erros.A vitória do senhor em São Paulo sempre foi colocada como ponto de honra para o DEM. Qual é o efeito em termos de oposição, do partido em si e da sucessão presidencial?Quem se fortalece é o Serra. Ele foi eleito prefeito de São Paulo e ele tinha o compromisso com São Paulo de fazer uma boa administração. Eu sempre tive muita consciência disso, de que no momento em que a gestão fosse encerrada com uma boa avaliação era o Serra que ia chegar para a cidade e dizer: "Pessoal, cumpri meu papel. Foram quatro anos de eficiência, melhoria da qualidade dos serviços públicos". Eu fiz o meu papel também. Eu fui um bom prefeito e eu cumpri meu compromisso no sentido de corresponder às expectativas. Existia um ponto de interrogação. Eu nunca tinha ocupado um cargo público no Executivo com essa responsabilidade. O Serra é o grande vencedor.Então, na sucessão presidencial, reforça a candidatura do Serra?Sim. Mostrou que na maior cidade do País soube reconhecer o seu trabalho.Na sua opinião, então, isso já define a questão da candidatura dentro do PSDB?Aí seria uma intromissão minha. É uma questão interna do PSDB. Mas eu diria que na minha opinião fortalece o Serra e é natural que ele queira ser (candidato a presidente). Chegou a hora de ele ser presidente. É bom para o Brasil que ele seja. Fortalece o Serra e o caminho do Democratas para apoiá-lo. O senhor acha que o DEM deve refazer a aliança com o PSDB nos termos em que fez com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso? Deve indicar a vice ou pode não ocupar?No momento em que se faz uma aliança você tem de ter a consciência de que é preciso fazer tudo que estiver ao seu alcance para fortalecer as chances de vitória. O jogo é estruturar uma aliança sólida que possa dar condições para o Serra se eleger e para o Serra governar bem.O fenômeno da transferência de votos foi para o senhor desmentido nessa eleição?Minha eleição se deve à gestão. E a minha boa gestão se deve muito também ao Serra. Não me diminui em nada reconhecer isso. Politicamente, na opinião do senhor, essa eleição desmentiu o fenômeno da transferência de votos?Desmentiu. O próprio Lula, que tem uma avaliação extraordinária em São Paulo, não agregou nada (à candidatura dela, Marta Suplicy).O discurso do senhor está muito atrelado ao do PSDB. E a identidade do DEM?A maior cidade do País, um prefeito do Democratas. Se ele for um prefeito eficiente é uma boa imagem para o partido.Mas o DEM está ficando com uma cara de anexo do PSDB.Não é um anexo. É uma aliança que elegeu Serra. Como anexo? Eu sou do DEM e fui eleito. CRISE FINANCEIRA: ?Teremos de ficar atentos às receitas porque nãopodemos quebrar a prefeitura?MONTAGEM DE EQUIPE: ?Eu não tenho preocupação com partidos. Eutenho preocupação com eficiência?DEM E PSDB: ?O DEM não é um anexo. É uma aliança que elegeu Serra. Como anexo? Eu sou do DEM e fui eleito.?

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