''Queriam governo na mata''

Aliado do PC do B que virou guia de militares surpreende equipe de buscas

Leonencio Nossa, SÃO DOMINGOS (PA), O Estadao de S.Paulo

13 de julho de 2009 | 00h00

Temida por alguns setores por vasculhar um passado turbulento, a expedição em busca de restos mortais de integrantes da Guerrilha do Araguaia (1972 a 1975) encontrou um presente também constrangedor, de contradições e misérias. As estradas poeirentas do sul do Pará que dão acesso aos locais onde há indícios de sepultamentos clandestinos levam também a sítios de posseiros esquecidos, povoados sem escolas e postos de saúde, além de muita terra grilada.O camponês Raimundo Nonato dos Santos, o "Peixinho", de 72 anos, ouvido no fim de semana pela expedição, é um dos retratos atuais da Amazônia. O depoimento do senhor doente e com dificuldades de locomoção, sem assistência de saúde, mostrou que a história da guerrilha é mais complexa do que se imaginava.Visto pelo PC do B como "bate-pau", camponês aliado do Exército e rejeitado pela política de indenizações, Peixinho surpreendeu militares da expedição ao relatar detalhes de maus-tratos cometidos pelo Exército contra guerrilheiros do Destacamento A, que operava na região de São Domingos. E surpreendeu representantes do PC do B ao contar que antes de trabalhar como guia das Forças Armadas era um dos guerrilheiros recrutados na área.Sentado numa rede, em um sítio afastado do centro de São Domingos do Araguaia, Peixinho contou que, antes da chegada do Exército para combater a guerrilha, participava de reuniões com até 20 integrantes do Destacamento A. "Naquele tempo eu ia em todas as reuniões", disse. "Eles queriam um governo dentro da mata. No início a gente não achou difícil. Quando o Exército apareceu, a gente achou."Peixinho contou que o Exército chegou "na taca", batendo. "Vieram logo chamando a gente de terrorista", relatou. "Me bateram muito", contou. O depoimento confirma levantamento publicado pelo Estado dia 21, mostrando que ele foi um dos 20 guerrilheiros camponeses no início da luta. A guerrilha contou com apoio de 158 moradores.Contou detalhes da repressão e reclamou da política de indenizações, que excluiu camponeses taxados de "bate-paus". "A gente não sabia o que era guerra e não era terrorista."Atrás de pistas dos restos mortais da guerrilheira Lúcia Maria de Souza, o general Mário Lúcio Alves de Araújo, responsável pela logística da expedição, ouviu a confirmação de depoimentos antigos de que ela não foi enterrada. Peixinho disse que durante anos os ossos ficaram em cima da terra e levou a expedição ao local do combate, ocorrido na tarde de 23 de outubro de 1973. Os legistas do Instituto Médico Legal de Brasília avaliaram que é possível encontrar fragmento ósseo no local.

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