Victor Moriyama/The New York Times
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Queremos ser a piada do mundo ou um país respeitado?

Aos olhos do mundo, a ‘tanqueciata’ de Jair Bolsonaro soou como birra infantil

João Gabriel de Lima, O Estado de S.Paulo

14 de agosto de 2021 | 05h00

Poucas vezes o Brasil é destaque no noticiário internacional – essa é a triste constatação de quem mora fora do País e zapeia entre as BBCs, CNNs, Deutsche Welles e Al-Jaziras da vida. Neste ano, o Brasil só foi manchete quando se converteu em epicentro da pandemia. Em geral, as notícias sobre o País se restringem ao letreiro que ocupa o espaço inferior da tela nos canais de notícias. E o tom, frequentemente, é de piada.

Nesta semana, a zombaria internacional se concentrou sobre o desfile militar na Esplanada dos Ministérios – ou “tanqueciata”, como definiu o jornal britânico The Guardian. O fumacê cansado de guerra do SK-105 Kürassier, equipamento vintage, se alastrou pelos sites e canais de notícias. A expressão “república de bananas” apareceu de forma recorrente.

O mundo já vinha rindo da polêmica em torno do voto impresso, em especial dos palavrões empregados pelo presidente brasileiro em sua briga com o Judiciário. As emissoras traduziram para o inglês a expressão chula usada por Jair Bolsonaro para se referir a Luís Roberto Barroso, “son of a whore”. Para nossa vergonha, tais palavras se tornaram onipresentes nos geradores de caracteres. 

O Brasil já foi considerado um país sério. Éramos até pouco tempo atrás voz relevante em discussões internacionais, especialmente na área da mudança climática. O que fazia todo o sentido: a maior parte da floresta amazônica fica em território nacional. Entramos na conversa de gente grande sobre o futuro do planeta na Presidência de José Sarney; Fernando Collor deu continuidade ao abraçar a Rio-92; e Marina Silva se tornou referência internacional durante o governo Lula. Formamos uma geração de diplomatas que são experts em mudança climática. Parte de nosso prestígio, no entanto, se perdeu com o desmonte ambiental do atual governo.

É inevitável lembrar disso na semana em que o IPCC – sigla em inglês para o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas – divulgou a primeira parte de seu novo relatório. O texto traz alertas graves. “São avisos recorrentes, mas com evidências científicas cada vez mais robustas, a ponto de beirar a certeza absoluta”, diz o pesquisador brasileiro Oswaldo Lucon, integrante do IPCC. Ele é o entrevistado do minipodcast da semana.

As consequências da mudança climática serão desastrosas para o Brasil. Se não agirmos logo, o desmatamento da Amazônia pode se tornar irreversível, e eventos como secas e geadas se tornarão recorrentes, inviabilizando o agronegócio brasileiro. A continuação do relatório, a ser lançada até o início do ano que vem, detalhará impactos e apresentará alternativas. “A boa notícia é que temos caneta para agir, se a sociedade se mobilizar e os governos responderem”, diz Lucon, que está trabalhando justamente no capítulo das alternativas.

Aos olhos do mundo, a “tanqueciata” de Jair Bolsonaro soou como birra infantil, esperneio de menino mimado que grita pela mamãe quando lhe tiram o brinquedo – no caso, o voto impresso. Será péssimo para o País se o debate em 2022 ficar limitado a problemas fictícios como a lisura das urnas. É importante que os adultos entrem na sala para que comecemos a conversar sobre coisas sérias, como a devastação da Amazônia – tema central por razões humanitárias e econômicas, e também para nossa credibilidade internacional. Queremos ser a piada do mundo ou um país respeitado? A escolha cabe aos brasileiros.

Para saber mais

Minipodcast com Oswado Lucon

Primeira parte do relatório do IPCC sobre mudanças climáticas

Reportagens do Estadão sobre os relatórios do IPCC:

Veja como a crise do clima está interferindo na economia e elevando preços

IPCC: Com aquecimento, Brasil produzirá menos alimento e terá desequilíbrio de CO2 na Amazônia

Reportagem do jornal britânico The Guardian sobre a “tanqueciata”

Editorial do Estadão sobre Bolsonaro e o voto impresso

 

ESCRITOR, PROFESSOR DA FAAP E DOUTORANDO EM CIÊNCIA POLÍTICA NA UNIVERSIDADE DE LISBOA

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