‘Quer botar quem no lugar?’, questiona Bolsonaro sobre impeachment

‘Quer botar quem no lugar?’, questiona Bolsonaro sobre impeachment

Vice Hamilton Mourão tem defendido permanência do presidente no cargo, apesar de relação conflituosa

Emilly Behnke e Matheus de Souza, O Estado de S.Paulo

08 de fevereiro de 2021 | 14h56
Atualizado 08 de fevereiro de 2021 | 18h03

BRASÍLIA – Alvo de mais de 60 pedidos de impeachment protocolados na Câmara dos Deputados, o presidente Jair Bolsonaro questionou nesta segunda-feira, 8, quem poderia assumir seu lugar e o efeito prático do seu afastamento.

“Agora vem os outros: ‘impeachment’. Vai resolver o quê? Quer tirar a mim, quer botar quem no lugar? Quer botar quem no lugar?”, indagou em conversa com apoiadores, após citar aumento nos preços de combustíveis e de itens da cesta básica. No caso de impedimento de Bolsonaro, o vice-presidente, Hamilton Mourão, assume o cargo.

Sem citar o vice, com quem mantém uma relação conflituosa, Bolsonaro disse que esse “quem” podia se apresentar para ajudar com soluções para o País. “Eu tenho humildade para acolher qualquer sugestão, qualquer uma, seja qual for, a gente estuda”, acrescentou o presidente. 

Apesar de acumular conflito com Bolsonaro, Mourão tem dito ser contrário ao impeachment. “Aqui no Brasil qualquer coisa é impeachment, né? Deixa o cara governar, pô!”, disse ele em entrevista ao Estadão no mês passado. 

O vice, contudo, já se queixou pelo fato de não manter conversas frequentes com Bolsonaro e não ser consultado sobre decisões do governo. “Faz falta”, disse ele à CNN Brasil no último dia 26. 

A atuação do governo federal durante a pandemia da covid-19 está entre os principais motivos para os novos pedidos de impeachment apresentados neste ano. A saída de Bolsonaro chegou a ser motivo de carreatas pelo País nos dois últimos fins de semana de janeiro.

Nesta segunda-feira, mais um pedido foi protocolado, o 69.º desde o início do governo - cinco já foram descartados. Desta vez, um grupo de médicos e cientistas assinam o documento, que cita declarações do presidente ao longo da crise sanitária. Entre elas, quando o presidente disse “não ser coveiro” ao ser questionado sobre as mortes por covid-19.

“O denunciado abusou dos poderes constitucionais e políticos inerentes a seu cargo para, em prejuízo da população brasileira, obter vantagens políticas para si, prejudicando a saúde dos brasileiros, minando relações federativas indispensáveis em uma emergência sanitária e achincalhando de modo indelével a dignidade e a honra do cargo de Presidente da República”, diz trecho do novo pedido.

A eleição de aliados do Palácio do Planalto na presidência da Câmara e do Senado, no entanto, diminuiu as chances de que um processo para o afastamento do chefe do Executivo seja aceito. Cabe ao presidente da Câmara aceitar ou não o início de um processo de impedimento. 

“Tem que buscar soluções? Tem. Graças a Deus mudou o comando da Câmara”, disse Bolsonaro, em referência à eleição do aliado Arthur Lira (Progressistas-AL).  

Em entrevista ao Estadão, o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Luiz Fux afirmou considerar “desastroso” um processo de impeachment neste momento. “O Brasil não aguenta três impeachments. O Brasil tem de ouvir o povo e o povo é ouvido através de seus representantes que estão no Parlamento. Acho que o impeachment seria desastroso”, afirmou ele.

“Esse cara que saiu da Câmara agora diz que ele vai agora encarnar a verdadeira oposição ao meu governo. Ele não tem que ser oposição ao meu governo, tem que ser favorável ao Brasil, porque quando se faz política barata, o povo sofre”, declarou Bolsonaro, em referência ao ex-presidente da Câmara Rodrigo Maia (DEM-RJ). Em entrevista ao jornal Valor Econômico, Maia disse que, agora que deixou o comando da Casa, poderá fazer oposição ao governo.

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