'Quem tem medo da CPMF é quem sonega imposto', acusa Lula

Presidente faz discurso duro de defesa da prorrogação do imposto no Espírito Santo nesta quinta-feira

Fausto Macedo, enviado especial de O Estado de S. Paulo,

29 de novembro de 2007 | 11h57

Na blitz pela CPMF, o presidente Lula acusou nesta quinta-feira, 29,  de sonegadores os oponentes do seu governo e do tributo pelo qual tanto clama e quer ver aprovado no Senado. Ele atribuiu "vaidades pessoais e interesses menores" aos opositores. Lula chamou publicamente para o confronto o DEM, ao qual se referiu pelo nome antigo da legenda PFL. "Quem quer acabar com a CPMF? É o PFL, que torce todo santo dia para as coisas não darem certo nesse País, porque eles governaram durante 500 anos e não conseguiram fazer o que o País queria que fosse feito." Em Colatina, no Espírito Santo, onde inaugurou de manhã uma ponte de 700 metros sobre o rio Doce e um trecho de oito quilômetros da BR-259 - obra iniciada há 21 anos e que consumiu R$ 95,3 milhões dos cofres públicos -, o presidente desafiou seus rivais. Veja também:  Entenda a cobrança da CPMF  Para evitar derrota da CPMF, governo monta 'sala de situação'Lula diz que a emenda da CPMF 'vai passar' no SenadoLula critica DEM e diz que 'povo pobre' sofrerá sem CPMFDEM diz que Lula é 'arrogante' e condena 'gastança imoral'  Em 2008, a CPMF poderá garantir uma arrecadação de cerca de R$ 40 bilhões que, segundo as palavras de Lula, terão três destinações, uma delas ligada a um programa que o presidente venera. "O dinheiro da CPMF é para saúde, para a aposentadoria de trabalhador rural e para o Bolsa Família", declarou. "É para isso que serve a CPMF." O presidente acusou, sem apontar nomes, mas seu recado foi claramente para os políticos que fustigam a CPMF: "Eles agora ficam com discurso que é muito imposto. Na verdade, quem tem medo da CPMF é quem sonega imposto. Eles é que têm medo da CPMF, porque é o imposto que vai detectar quem é que está sonegando." No palanque de Colatina, que também alojou dois senadores do Espírito Santo, Renato Casagrande (PT) e Gérson Camatta (PMDB), o governador Paulo Hartung (PMDB), o sanfoneiro Zé do Brejo e o prefeito Guerino Balestrassi (PSB) - que a Lula presenteou com um blusão verde gusmão em caixa com laçarote -, o presidente conclamou o Senado a votar logo a prorrogação do imposto. "O Senado vai tomar uma decisão. Eu tenho a convicção que eles (senadores) vão fazer, que eles vão votar." Na linha de seu ministro da Fazenda, Guido Mantega, que ameaça com aumento de impostos e cortes de verbas de programas sociais, o presidente condicionou a expansão e modernização da rede pública de saúde e a do ensino à manutenção do imposto do cheque. "Eu tenho a convicção que a aprovação da CPMF vai permitir a gente voltar a esse Estado, inaugurar as escolas, inaugurar hospital, melhorar a saúde, a educação, e a gente vai poder devolver ao povo brasileiro o orgulho que nós nunca deveríamos ter perdido, o orgulho de sermos brasileiros com bê maiúsculo." Política fiscal Lula enfatizou a importância da política fiscal, em discurso que lembrou os do início de seu primeiro mandato, em 2003, quando o então ministro da Fazenda, Antonio Palocci, adotou austeridade fiscal. Em contraponto a declarações que fez ao jornal O Globo, em entrevista publicada no domingo, de que é preciso gastar para governar, Lula afirmou: "a gente não pode gastar mais do que ganha". Ele comparou a administração financeira do governo à doméstica e declarou: "quero me comportar como um trabalhador responsável". "O País está com muita credibilidade no exterior exatamente pela seriedade com que cuidamos das finanças", destacou. A boa política fiscal é "imprescindível", assim como a estabilidade monetária e o controle da inflação, acrescentou.  Lula disse que o Brasil já construiu diversos castelos de areia, como no período em que crescia 7% ou 8% ao ano. "No entanto, as pessoas achavam que nunca ia faltar (dinheiro) e gastavam mais do que tinham", lembrou. Atualmente, o Brasil está fazendo seu castelo longe da praia para não ser surpreendido por nenhuma onda, disse. "O alicerce está pronto para que o castelo seja definitivo e duradouro", afirmou. "Alguns ajustes precisam ser feitos, mas o alicerce está pronto, o modelo está elaborado e o projeto está definido", acrescentou. Colaboração de governadores O presidente Lula fez alusão a José Serra (PSDB), mas seu nome não disse, quando cobrou enfaticamente parceria e colaboração dos governadores - não apenas para o duelo que trava pelo imposto criado pelos tucanos, como também para fazer avançar outras iniciativas suas. "Estamos pensando em fazer o que deveria ter sido feito há 20 anos ou há 30 anos. E é muito mais fácil a gente trabalhar sendo presidente da República, com um governador que é parceiro, e com deputados e senadores que são parceiros preocupados até na apresentação das suas emendas para obras importantes para o Estado, do que a gente trabalhar com um governador que não quer conversa com o presidente, com deputado que não quer conversa com o presidente, pessoas que muitas vezes não estão dispostas a sentar para discutir." Suando muito dentro de um terno escuro, ele apontou sua ira para o PSDB e citou duas vezes o nome de seu antecessor e rival, Fernando Henrique Cardoso, a quem imputou descaso e omissão para com os capixabas. "Tivemos aqui um governador do PT, o Vitor Buaiz, meu grande companheiro, que comeu nesse Estado o pão que o diabo amassou. O Vitor vivia em Brasília, acreditando que o presidente Fernando Henrique Cardoso iria ajuda-lo e não ajudou. O Vitor não tinha dinheiro para pagar salário de funcionário, não tinha dinheiro para pagar o remédio gratuito, não tinha dinheiro para fazer as coisas e vivia acreditando que o Fernando Henrique Cardoso ia ajudar e não ajudou. E eu pensei que não ajudava porque era do PT. Depois, veio o José Inácio (ex-governador), que eu nem sei o que é que faz hoje e o Espírito Santo faliu, o Estado quebrou. Essa é a verdade." Em busca de apoio à sua cruzada pela CPMF, o presidente elogiou bastante o governador do Espírito Santo e retomou o libelo contra aqueles que no Senado barram a votação da contribuição. "A parceria só é possível quando dois cidadãos, mesmo em cargos e esferas diferentes, são despojados de vaidades pessoais, de interesses menores, e começam a pensar o que é que a gente pode deixar de benefícios para o povo. Aí a gente pode fazer muito mais. Em vez de ficar procurando motivos para divergir, nós dois (ele e Hartung) procuramos motivos para convergir, o que o Brasil precisa do Espírito Santo e o que o Espírito Santo precisa do Brasil." Ao falar de um Brasil que, segundo ele, "está arrumado", o presidente não perdeu a oportunidade para fazer propaganda do seu principal projeto de segundo mandato, o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), "coisa jamais vista", e até previu boas festas para os brasileiros que o ouviam, uns 500 colatinenses. "Estou convencido que este será o melhor Natal que esse País vai ter depois de décadas e décadas de desesperanças do povo."  Texto atualizado às 16 horas

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