Quem são os místicos katukinas

Relatos indicam que, por conta da magia, houve guerras entre aldeias resultando em dezenas de mortes

Roberto Almeida, enviado especial,

19 de janeiro de 2010 | 15h46

CARAUARI (AM) -Quando o Kukahã, barco da expedição, parou pela primeira vez à margem do rio Biá, ainda em dezembro do ano passado, quatro canoas vieram rapidamente ver o que estava acontecendo. Eram katukinas da aldeia Boca do Biá. "Para dar bom dia e conhecer vocês", disse um deles.

 

VEJA TAMBÉM:
Na trilha dos isolados
Expedição investiga duas mortes por índios isolados
Garimpeiros encapuzados atuam no rio Boia
A expedição em imagens

As canoas, rudimentares, são feitas de casca de árvore. Uma grande casca bem cortada. A borda fica a cinco centímetros da água, como se logo fosse emborcar. Mas não acontece, os katukinas se equilibram ali, com toda a família reunida, falam entre si sem parar.

 

A língua está entre as mais difíceis de aprender. O katukina é rápido e as palavras, apesar de curtas, significam muita coisa. O olhar é sempre esguio. Quando não-índio fala, eles normalmente baixam a cabeça e em seguida respondem olhando para o horizonte.

 

"Parece pirarucu enfezado", brincava o mateiro ticuna Misael, membro da expedição.

 

Com aproximadamente 450 membros da etnia, segundo o Instituto Socioambiental (ISA), eles têm baixa estatura, a maioria não passa de 1m60.

Os katukinas vivem na Terra Indígena Rio Biá, com 1,185 milhão de hectares. São místicos e a pajelança é levada a sério. Relatos indicam que, por conta da magia, houve guerras entre aldeias resultando em dezenas de mortes.

 

Na passagem da expedição da Frente Etnoambiental Vale do Javari por três comunidades katukinas, o clima era pacífico, com tranquilidade fora do comum.

 

"Não tem malária não", observou o katukina Paulo, da aldeia Janela, que recebeu a expedição contido, mas sorridente.

 

"É outra realidade. Se acabar o mundo, para eles tanto faz", disse o chefe da expedição Rieli Franciscato.

 

Na canoa de casca de árvore eles viajam pelo rio Biá levando farinha de mandioca, pupunha e bananas. Fazem trocas entre as aldeias. Não há comunicação por rádio.

 

Na passagem da expedição, as crianças katukinas brincavam sorridentes com paus. Mães amamentavam seus filhos. Os homens, porém, tinham suas preocupações, principalmente com o garimpo do rio Boia, a 50 quilômetros dali.

"Sobra todo o mercúrio para nós", disse um deles.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.