CARLOS VERA/REUTERS (29/03/2016) e HÉLVIO ROMERO/ESTADÃO (15/06/2012)
CARLOS VERA/REUTERS (29/03/2016) e HÉLVIO ROMERO/ESTADÃO (15/06/2012)

Quem são os irmãos Efromovich?

Gérman e José criaram um império com empresas em diversos setores que, aos poucos, foi ruindo

Redação, O Estado de S.Paulo

19 de agosto de 2020 | 12h11

Bolivianos e filhos de imigrantes judeus, os irmãos Gérman e José Efromovich criaram desde a década de 1990 um império no Brasil e em outros países da América Latina, mas, aos poucos, viram seus negócios se desfazerem no País. Além das companhias aéreas Avianca Brasil (que, no mês passado, teve falência decretada no País) e Avianca Holdings (que recorreu à lei de falências americana em maio, em função da crise do coronavírus), a lista de companhias incluía de estaleiros a empresas de serviços para o setor de óleo e gás. A trajetória dos irmãos, presos nesta quarta-feira na Operação Lava Jato, é marcada por longas batalhas judiciais.

Para tentar salvar a Avianca Brasil,  José, o irmão mais novo que comandava a companhia, tentou vender parte da empresa, que precisava de aporte para financiar a expansão dos últimos anos e sobreviver às pressões do setor, como demanda fraca e dólar em patamar elevado. Segundo fontes do mercado, no entanto, ele teve dificuldade para encontrar alguém disposto a colocar dinheiro na empresa, dada a falta de clareza nas informações disponíveis.

Considerado simpático e afável, José costuma prender a atenção de todos a seu redor e se entrosar facilmente com desconhecidos. Germán é mais sisudo e não se esforça para evitar uma disputa na Justiça. Um conhecido o descreve como visionário e alguém que tem a impressão de nada ser impossível. Outro amigo destaca que Germán é um homem simples, de não “ficar agradando muito”, e duro nas negociações: “Não é diferente de outros empresários. Olha no detalhe, mas não prejudica ninguém”.

Bem relacionados no Brasil e no exterior, ambos têm fama de espartanos. Germán não costuma usar a classe executiva quando viaja em empresas concorrentes. José, morando no Rio mas viajando a São Paulo semanalmente a trabalho, trazia as roupas para lavar na capital paulista, onde o preço era menor. Amigos contam que Germán se recusou a dar um carro com ar condicionado para a filha em pleno verão carioca. Dizia que o primeiro carro tinha de ser popular, sem regalias. Ambos são centralizadores, do tipo que contam até o número de papel higiênico e caneta, afirma um amigo.

Polêmicas

Em 2012, o grupo Synergy, de propriedade dos irmãos, comprou a Aliança Eletroquímica (AEQ), uma empresa do Paraná de produtos químicos e defesa, por R$ 20 milhões. Apenas as quatro primeiras parcelas, de um total de 24, foram pagas, apurou o Estadão com fontes que participaram da negociação. Só houve solução quando o fundo estrangeiro Etrum decidiu adquirir a AEQ, pagando o valor devido pelo Synergy aos vendedores.

Donos dos estaleiros Mauá e Eisa (que pediram recuperação judicial), os irmãos não se preocuparam em dar satisfações aos credores no auge da crise do setor, quando outras empresas tentavam renegociar suas dívidas, afirmou um fornecedor.

Foi no setor de óleo e gás que os negócios dos Efromovich ganharam impulso nos anos 90, em uma trajetória conturbada. Germán começou a se aproximar da Petrobrás durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, como representante de multinacionais, como a Diamond Offshore, de perfuração. Em seguida, fez uma parceria com a sueca Stena, com quem passou a dominar 30% do mercado de barcos de apoio. Logo criou uma companhia para explorar a área de perfuração, a Marítima. O rápido crescimento no setor levantou suspeitas e criou desafetos.

Havia no mercado comentários de que Germán tinha proximidade com executivos da Petrobrás e, por isso, era beneficiado nas licitações. O relacionamento do empresário com a estatal, no entanto, afundou junto com a P-36. Para comprar a plataforma, Germán montou um consórcio com vários bancos e foi atrás de opções no mercado.

Encontrou na Europa uma plataforma construída para operar no Mar do Norte numa profundidade de 300 metros. Para funcionar no Brasil, onde a profundidade era de 1 mil metros, teve de adaptá-la num estaleiro no Canadá, conta um profissional que trabalhou com Germán na época. O acidente, em 2001, azedou a relação com a Petrobrás, que já vinha dificultando a vida do empresário para participar de novas licitações por causa de atrasos na entrega de outras plataformas.

Após a P-36 afundar, Germán argumentava que tinha direito de receber parte da indenização do seguro. O resultado foi uma longa batalha judicial em tribunais internacionais. Em alguns deles, o empresário foi condenado a pagar alguns milhões à Petrobrás, mas recorreu das decisões. Sem ambiente para continuar no mercado, o empresário vendeu sua empresa no setor de óleo e gás.

Foram esses contratos com a Petrobrás que levaram o nome de Germán a ser citado na Operação Lava Jato, num suposto esquema denunciado na delação premiada do ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado. Em entrevista ao jornal O Globo, em 2016, Efromovich confirmou o pagamento de R$ 28 milhões na conta da família Machado no HSBC da Suíça, mas disse que não se tratava de ato ilícito, apenas de multa contratual de uma negociação que não tinha relação com a Transpetro.

 

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