Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

Quem ganha e perde com Lula 'ficha limpa' e a suspeição de Moro? Veja análise de Antônio Lavareda

Hipótese da entrada do ex-presidente na disputa de 2022 altera 'significativamente' o cenário eleitoral

Antônio Lavareda, O Estado de S.Paulo

10 de março de 2021 | 16h06

A hipótese de o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ser candidato nas próximas eleições pode afetar significativamente a disputa, mas é importante fazer uma “ressalva cautelar”: temos cerca de um ano e meio antes da corrida eleitoral. Até outubro de 2022, claro, muita coisa pode mudar. A mesma ressalva vale para uma primeira análise sobre o impacto de o ex-juiz Sergio Moro ser declarado suspeito na ação do triplex de Lula, julgamento suspenso na Segunda Turma do STF, na terça-feira (9), após pedido de vista de Nunes Marques. Dito isso, temos os seguintes cenários a partir dos principais fatos ocorridos nesta semana:

Cenário 1: O STF confirma a decisão Fachin, anulando as condenações de Lula na Vara Federal de Curitiba 

Quem ganha:

Lula

Passa a ter a escolha de se lançar candidato ou transferir seu capital político com o discurso reforçado de que foi vítima de perseguição.

Bolsonaro

Personifica o antipetismo e ganha um polo antagonista. Pode estancar parte da perda de eleitores de centro e centro-direita que vejam nele o único nome capaz de evitar a volta do PT. Enquanto o país discute a política e acompanha a polêmica judicial, sai do holofote sua condução da pandemia, maior foco de desgaste ao governo. 

Quem perde:

Ciro Gomes, Guilherme Boulos, Flávio Dino, Rui Costa, Fernando Haddad

Todos os nomes colocados como alternativas de construção de uma candidatura à esquerda são ofuscados por Lula, que tem potencial de voto mais alto e tende a atrair votos dos demais nomes por ser a maior alternativa da esquerda para derrotar Bolsonaro. Isso se aplica não apenas aos nomes “opcionais” do próprio PT, como o ex-prefeito Haddad e o governador da Bahia, Rui Costa. Lula candidato pode tirar votos dos pré-candidatos do PDT, Ciro Gomes, do PSOL, Guilherme Boulos, e do PCdoB, o governador do Maranhão, Flavio Dino.

Sergio Moro, Luciano Huck, Luiz Henrique Mandetta, João Amoedo, João Doria. Eduardo Leite 

Nomes de centro e centro-direita podem acabar ofuscados com a polarização Lula x Bolsonaro. O desafio de construir uma candidatura única, a exemplo do que ocorre na esquerda, também é grande. Vale lembrar que a primeira etapa é chegar ao segundo turno. O que já sabemos, a partir dos resultados da eleição de 2020, na comparação com o pleito de 2016, considerando a votação para prefeito, é que a direita ganhou mais votos. O Brasil em 2020 caminhou à direita. Em conjunto, considerando o volume total de votos, partidos de esquerda (como PT, PSOL, PCdoB, PSTU, Rede, PDT e PSB) recuaram 5 pontos porcentuais. Partidos de centro (como PV, MDB e Cidadania) recuaram 11 pontos. Quem cresceu foi a direita (DEM, PP, PSD, Republicanos etc), que avançou 16 pontos. Esse contingente poderia até encontrar seu candidato no centro ou centro direita, sobretudo os mais descontentes com Bolsonaro, mas certamente não escolheria Lula. Assim, a pressão sobre um candidato de centro aumenta, e realmente tende a ser viável se houver união. O ex-juiz Sérgio Moro perde cacife, mas não fica fora do jogo. Temos ainda o apresentador Luciano Huck, o ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta (DEM), João Amoedo (Novo), e os governadores João Doria (SP) e Eduardo Leite (RS)pelo PSDB.

Cenário 2: Moro declarado suspeito pela Segunda Turma no caso triplex e pelo plenário do STF, confirmando a decisão monocrática de Edson Fachin

Independentemente do destino de Moro, o combate à corrupção seguirá sendo um ativo indispensável para qualquer candidato em 2022. Mais da metade dos brasileiros apoiam a Lava Jato como símbolo do enfrentamento da corrupção. Moro ainda é o principal portador desse ativo, mas perde parte do diferencial se for declarada sua suspeição. Ele até pode se declarar candidato, mas uma decisão por sua suspeição acaba desestimulando que ele de fato entre na disputa. Nessa hipótese, a corrida será por herdar esse possível eleitorado e o apoio de Moro.

Quem ganha

Luciano Huck, Doria, Amoedo, Mandetta, Leite

Considerando os resultados das últimas pesquisas de potencial de voto, Luciano Huck e, mais atrás, Doria, se destacam como as principais alternativas de centro e centro direita. Mesmo que a Lava Jato perca a aura de infalível, não deixará de ser importante. É como se ela tivesse elevado o sarrafo das exigências éticas na política. E isso segue sendo um ativo principalmente no campo do centro e centro direita.

Lula

Consagra a ideia de que foi perseguido e ganha um “salvo conduto” pelo menos enquanto os processos não forem retomados na justiça federal em Brasília e no TRF-1.

Bolsonaro

O peso de seu rompimento com Moro acaba atenuado; se a atuação do ex-juiz na Lava Jato é contestada, trazer essa narrativa para justificar a saída dele do governo a interesses pessoais em torno de uma vaga para o STF fica mais fácil.

Quem perde

Moro

Essa análise tem muitos matizes, não é tudo “preto no branco”. O próprio STF está longe de ser uma unanimidade nacional. Moro pode perder força e até descartar uma eventual candidatura, seguirá sendo o grande símbolo da Lava Jato.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.