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REUTERS/Adriano Machado
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Quem ganha com o embate bolsonarista entre Witzel e Flávio na CPI? Leia análise

Saldo do depoimento é quase nulo, e memes nas redes sociais ilustram a estranha mudança do ex-juiz eleito na esteira do bolsonarismo

Josué Medeiros*, O Estado de S.Paulo

16 de junho de 2021 | 20h50

O ex-governador do Rio de Janeiro Wilson Witzel foi a estrela da semana na CPI da Covid. Munido de um habeas corpus conseguido junto ao Supremo Tribunal Federal (STF), o único chefe de Executivo estadual a sofrer impeachment na história fez questão de comparecer para ser interrogado pelos senadores. Seu objetivo foi se defender das acusações que causaram seu afastamento. Ele apresentou uma estratégia de responsabilizar o presidente Jair Bolsonaro pela catástrofe sanitária dos quase 500 mil mortos e pela crise democrática através da captura das instituições. 

Witzel encontrou pela frente o filho do presidente e senador Flávio Bolsonaro (Patriota-RJ) – disposto, como sempre, a defender o pai e a atacar o ex-governador e senadores da oposição. Flávio, também chamado de 01, cumpriu com maestria seu papel tumultuando a sessão, desrespeitando os colegas parlamentares e interrompendo as falas a todo instante. Sua ação não visa, em nenhum momento, os trabalhos na CPI, mas sim a produção de vídeos e narrativas para as redes bolsonaristas que mostram como ele (e, consequentemente, o pai) enfrentam o “sistema”, personificado nos senadores e também em Witzel, o que não deixa de ser surpreendente. 

Witzel foi eleito em 2018 na onda bolsonarista daquelas eleições. Totalmente desconhecido, o ex-juiz saltou de 4% para 40% das intenções de voto em uma semana. Seu discurso de limpeza da política e endurecimento da repressão policial nas favelas era idêntico ao do então candidato Bolsonaro. Ainda no começo de seu mandato, Witzel rompe com o presidente, em uma movimentação política pouco hábil. Sem o bolsonarismo, ficou isolado, sem qualquer sustentação política. Na sequência, não resistiu às denúncias de corrupção e terminou afastado.

Desde que rompeu com Bolsonaro, Witzel vem denunciando o autoritarismo do presidente. Na CPI, falou de “chavismo às avessas” ao citar o aparelhamento das instituições (por exemplo, a Polícia Federal) pelo governo de extrema-direita. O ex-juiz declarou aos senadores que é perseguido por Bolsonaro e que defende o Estado de Direito, em um tom bem distante daquele apresentado quando pedia votos junto com o presidente. As redes sociais desde então foram inundadas de memes que tentam traduzir essa inusitada adesão do ex-juiz ao campo democrático. A imagem do “fascista antifascista” ilustra bem essa curiosa conversão democrática de Witzel.

No meio desse conflito interno no bolsonarismo, o saldo do depoimento de Witzel é quase nulo. Há, por parte do ex-governador, a promessa de comparecer a uma sessão protegida pelo segredo de Justiça, na qual revelaria provas e evidências das acusações que faz contra Bolsonaro. Não sabemos se tal oitiva ocorrerá.  

Há, em especial, uma questão que interessa a todas e todos que defendem a democracia no Brasil: a elucidação dos mandantes do assassinato da vereadora carioca Marielle Franco. Como é sabido, Marielle foi executada em março de 2018 quando intensificava suas ações de combate às milícias que se espalham pelos territórios e instituições cariocas e fluminenses. Como também é sabido, o clã Bolsonaro conserva íntimas relações com setores milicianos, como mostrou a investigação sobre as rachadinhas no gabinete de Flávio Bolsonaro. Segundo a denúncia do Ministério Público, Adriano Magalhães da Nóbrega, ex-chefe do Escritório do Crime, se beneficiava do esquema. A mãe e a ex-mulher do criminoso tinham cargos na Assembleia e repassavam seus salários. Saber se existem conexões entre o grupo que está no poder e a morte de Marielle é uma questão central para a democracia brasileira. 


*Professor de Ciência Política da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e coordenador do Núcleo de Estudos Sobre a Democracia Brasileira (NUDEB)

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